{"id":494,"date":"2024-08-28T11:42:04","date_gmt":"2024-08-28T14:42:04","guid":{"rendered":"https:\/\/id126ufba.com.br\/?p=494"},"modified":"2024-08-29T12:09:40","modified_gmt":"2024-08-29T15:09:40","slug":"eu-quero-que-nos-mulheres-negras-possamos-mudar-de-posicao-a-semente-e-jogada-na-terra-para-mudar-de-posicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/idufba.com.br\/memoria\/eu-quero-que-nos-mulheres-negras-possamos-mudar-de-posicao-a-semente-e-jogada-na-terra-para-mudar-de-posicao\/","title":{"rendered":"\u201cEu quero que n\u00f3s, mulheres negras, possamos mudar de posi\u00e7\u00e3o. A semente \u00e9 jogada na terra para mudar de posi\u00e7\u00e3o\u201d"},"content":{"rendered":"<p><em>Conhe\u00e7a Calila das Merc\u00eas, escritora baiana premiada e curadora da Tenda Paragua\u00e7u na FLICA 2024, que acontecer\u00e1 em outubro<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Yasmin Morais (<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/yasminescritora\/\">@yasminescritora<\/a>)<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"font-weight: 400;\">O aroma do jasmim-do-caribe, o sabor acre do maracuj\u00e1-do-mato e a textura porosa das folhas que tecem na pele cantigas do Rec\u00f4ncavo Baiano, de uma terra que long\u00ednqua e reimaginada, encanta os cora\u00e7\u00f5es daqueles que nela viveram ou que dela ouviram falar atrav\u00e9s da literatura. De Jorge Amado \u00e0 Itamar Vieira J\u00fanior, a cultura desse Brasil profundo, cujas m\u00e3os alcan\u00e7am o interior, a casinha de porta e a tramela dos nossos cora\u00e7\u00f5es, reverbera e ganha corpo, alma e vento no solo sagrado da literatura.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>N\u00famero 18<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"font-weight: 400;\">engatinhei em\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"font-weight: 400;\">ch\u00e3o de cimento\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"font-weight: 400;\">vi uma casa de uma \u00fanica janela ser\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"font-weight: 400;\">ninho de passarinho\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"font-weight: 400;\">quando aprendi a andar, voei\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"font-weight: 400;\">quando aprendi a falar, chorei\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"font-weight: 400;\">vou ali e volto, mainha\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"font-weight: 400;\">voo ali e volto\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"font-weight: 400;\">um dia voo para casa.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"font-weight: 400;\">(Poema de Calila das Merc\u00eas,\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"font-weight: 400;\">no livro <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Notas de um interior circundante e outros afetos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, 2019)<\/span><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.iea.usp.br\/pessoas\/pasta-pessoac\/calila-das-merces#:~:text=Atua%20nas%20%C3%A1reas%20de%20literatura,%2C%20cultural%2C%20art%C3%ADstico%20e%20social.\"><span style=\"font-weight: 400;\">Calila das Merc\u00eas<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, de 35 anos, mulher baiana nascida em \u201cBerimbau\u201d, como a cidade de Concei\u00e7\u00e3o do Jacu\u00edpe \u00e9 popularmente chamada, \u00e9 dessas mulheres que agitam as folhas e escrevem cantigas, nessa conversa matreira e matriarca, com a reminisc\u00eancia que existe em n\u00f3s. Doutora em Literatura pela Universidade de Bras\u00edlia, mestra em Estudos Liter\u00e1rios pela Universidade de Feira de Santana e graduada em Comunica\u00e7\u00e3o Social com habilita\u00e7\u00e3o em Jornalismo pela Universidade Federal do Rec\u00f4ncavo da Bahia (UFRB), Calila atualmente \u00e9 pesquisadora de p\u00f3s-doutorado na C\u00e1tedra Olavo Set\u00fabal de Arte, Cultura e Ci\u00eancia, do Instituto de Estudos Avan\u00e7ados na Universidade de S\u00e3o Paulo (IEA-USP), onde atua como supervisora do C\u00edrculo-Escreviv\u00eancia e do Grupo de Estudos em Escreviv\u00eancia, sob coordena\u00e7\u00e3o da escritora e professora Concei\u00e7\u00e3o Evaristo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Calila das Merc\u00eas viaja o Brasil em eventos liter\u00e1rios com os seus livros: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Notas de um interior circundante e outros afetos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, publicado pela Pad\u00ea Editorial em 2019, e o mais recente <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Planta Ora\u00e7\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, pela Editora N\u00d3S, publicado em 2022. Al\u00e9m de sua atua\u00e7\u00e3o no cen\u00e1rio liter\u00e1rio e acad\u00eamico, estreou neste ano como curadora da Festa Liter\u00e1ria Internacional de Cachoeira, mais conhecida como FLICA, a maior do Norte e Nordeste brasileiros. Com o tema \u201cO mundo da literatura em festa\u201d, <\/span><a href=\"http:\/\/www.fpc.ba.gov.br\/2024\/06\/25\/em-cachoeira-flica-2024-e-lancada-com-tema-o-mundo-da-literatura-em-festa\/\"><span style=\"font-weight: 400;\">o evento, que recebeu um investimento de mais de 2 milh\u00f5es de reais<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, promete efervescer a cidade do Rec\u00f4ncavo Baiano entre os dias 17 e 20 de outubro de 2024. Dentro de sua programa\u00e7\u00e3o, a FLICA conta com tr\u00eas espa\u00e7os tem\u00e1ticos principais, sendo eles a Gera\u00e7\u00e3o Flica, com curadoria de Deko Lipe, a Fliquinha, com curadoria de Em\u00edlia Nu\u00f1ez e a Tenda Paragua\u00e7u, com curadoria de Calila das Merc\u00eas.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No embalo das festas liter\u00e1rias e dos novos rumos da literatura brasileira contempor\u00e2nea, entrevistei Calila das Merc\u00eas e, na medida em que a dist\u00e2ncia nos permite, levei a minha alma para conversar com a sua nesta entrevista para a edi\u00e7\u00e3o de estreia do novo <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Impress\u00e3o Digital<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. Acompanhe nosso di\u00e1logo abaixo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Impress\u00e3o Digital:<\/em> H\u00e1 algo que costumo dizer com frequ\u00eancia, entre palavras e escritos, acredito piamente que nunca deixamos de ser meninas. A mulher que em si habita, n\u00e3o mata a menina que existe dentro de n\u00f3s. Calila, fale um pouco da menina que te habita.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Calila das Merc\u00eas:<\/strong><span style=\"font-weight: 400;\"> Fui uma crian\u00e7a criativa, brincante. Menina que subia na goiabeira, no p\u00e9 de castanhas, escalava tantas plantas. Aprendi muitas parlendas, trava-l\u00ednguas, sabia cirandas tamb\u00e9m, e gostava de cant\u00e1-las, e ao mesmo tempo na r\u00e1dio ouvia e dan\u00e7ava Olodum, Timbalada, Gera Samba e tudo que tocava na \u00e9poca. Em casa tinham vinis de Gilberto Gil, Luiz Gonzaga, fitas de Edson Gomes, e umas fitas virgens que painho gravava eu e minha irm\u00e3 falando e cantando o que quis\u00e9ssemos. Tinha brincadeira na rua com a vizinhan\u00e7a e a \u201cprimaiada\u201d. Lembro de ser uma menina que gostava de brincar de escrever rimas e at\u00e9 cant\u00e1-las, tudo sem muita pretens\u00e3o, eu nem sabia o que era poesia, poeta, n\u00e3o sabia que poderia fazer isto quando crescesse. Gostava de brincar de alquimia, eu macerava folhas de alfazema, de hortel\u00e3, dizia eu que fazia perfumes. Gostava destas coisas de escrever, sonhava com canetas coloridas, sem nem saber que um dia poderia colorir com qualquer cor, ainda que solit\u00e1ria\u2026 ainda que fosse com um \u00fanico l\u00e1pis preto. Acho que esta menina me ajuda a n\u00e3o deixar de brincar e de sonhar.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_508\" aria-describedby=\"caption-attachment-508\" style=\"width: 640px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-508 aligncenter\" src=\"https:\/\/id126ufba.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/WhatsApp-Image-2024-08-20-at-16.56.09-682x1024.jpeg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"961\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-508\" class=\"wp-caption-text\">Calila das Merc\u00eas posa para Nti Uir\u00e1, arquivo pessoal.<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Impress\u00e3o Digital:<\/em> Essa menina se mostrou nada timidamente para n\u00f3s em <i>Planta Ora\u00e7\u00e3o<\/i> (2022), sua obra mais recente e semifinalista do Pr\u00eamio Jabuti. Quais experi\u00eancias da inf\u00e2ncia permanecem? Quais as inspiraram nesse livro-poema-conto?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Calila das Merc\u00eas:<\/strong> <span style=\"font-weight: 400;\">Nasci e fui criada em <\/span><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Concei%C3%A7%C3%A3o_do_Jacu%C3%ADpe\"><span style=\"font-weight: 400;\">Berimbau (Concei\u00e7\u00e3o do Jacu\u00edpe &#8211; BA)<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, que \u00e9 uma cidadezinha, que hoje tem um pouco mais de 30 mil habitantes, e um pouco mais de 60 anos. E que antes foi Vila de Berimbau, pertencia a Santo Amaro da Purifica\u00e7\u00e3o, Rec\u00f4ncavo da Bahia. Em Berimbau, cresci numa rua com muitas crian\u00e7as. E adultos que participavam ali da constru\u00e7\u00e3o daquela cidadezinha. Tem uma gera\u00e7\u00e3o da d\u00e9cada de 80 que fazia aqueles loteamentos, que antes eram fazendas, serem muito movimentados com brincadeiras, guerra de mamonas, confus\u00e3o, baleado, pipas, gudes, dan\u00e7as, el\u00e1stico, bola, tanta crian\u00e7a, tantas vozes. Eram tantas coisas que inauguramos. E n\u00e3o tinha \u00e1gua encanada, sistema de esgoto, cinema, teatro, equipamentos culturais, parques, nem biblioteca p\u00fablica\u2026\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Passados estes anos todos, percebo que muita coisa que existia j\u00e1 n\u00e3o existe, muita gente tamb\u00e9m n\u00e3o\u2026 E tem coisas que n\u00e3o existiam e que ainda n\u00e3o existem. Talvez o que tenha ficado aqui, pensando agora em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Planta Ora\u00e7\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, que \u00e9 um livro ficcional, e que em alguns contos fa\u00e7o um trabalho est\u00e9tico e de linguagem, com filetes de inven\u00e7\u00e3o de mem\u00f3ria, \u00e9 que a terra, aquela onde est\u00e1 enterrado meu umbigo e o da minha irm\u00e3, e alguns de nossos ancestrais, \u00e9 f\u00e9rtil e me mostra at\u00e9 hoje mist\u00e9rios. \u00c9 preciso se movimentar com coragem e com nossa verdade para que a gente mude algumas coisas\u2026 e que algumas mudan\u00e7as demoram de ser vis\u00edveis, mas n\u00e3o significa que nada tenha sido feito.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Impress\u00e3o Digital:<\/em> Na sua participa\u00e7\u00e3o como convidada no Festival Liter\u00e1rio de Paracatu em 2023, voc\u00ea abordou a import\u00e2ncia do plantio, do contato com a terra e da espera em sua hist\u00f3ria familiar. Calila, como um dos nomes mais proeminentes no cen\u00e1rio liter\u00e1rio atual, quais sementes foram plantadas para que voc\u00ea se compreendesse escritora, quais mais voc\u00ea pensa que devem ser plantadas para que esse entendimento chegue a mais mulheres negras?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Calila da Merc\u00eas:<\/strong> <span style=\"font-weight: 400;\">Yasmin, com sua pergunta lembrei de quando conheci voc\u00ea, a partir do Projeto de Mapeamento e Diagn\u00f3stico Escritoras Negras da Bahia, que coordenei em 2017, e que teve muitas m\u00e3os e mentes para coloc\u00e1-lo no mundo. Na \u00e9poca queria conhecer as escritoras, deveria ser uma partilha a todas as pessoas que tamb\u00e9m deveriam se perguntar a mesma coisa, saber quem eram as escritoras negras da nossa terra, as herdeiras da resist\u00eancia de um pa\u00eds, de um estado onde come\u00e7aram as primeiras narrativas de Brasil. Onde tem uma grande quantidade de pessoas negras do pa\u00eds, sen\u00e3o a maior. Projeto onde colocamos um <\/span><a href=\"https:\/\/abi-bahia.org.br\/jornalista-lanca-site-com-mapeamento-de-escritoras-negras-da-bahia\/\"><span style=\"font-weight: 400;\">site<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> bel\u00edssimo e sens\u00edvel no ar, mas por falta de investimento e apoio, n\u00e3o tive, de forma individual, como arc\u00e1-lo, para manter em curso. Consegui eterniz\u00e1-lo na minha tese de doutorado, de alguma forma. Embora o site fosse t\u00e3o maravilhoso. E que depois dele tantos outros projetos vieram a p\u00fablico, tantos outros mapeamentos, escritoras se autodenominando\u2026 Bom, acho que estas sementes foram plantadas l\u00e1 na primeira inf\u00e2ncia com o reconhecimento de que n\u00e3o fazemos nada sozinhos e que nem colheremos tamb\u00e9m. Que tem o pessoal que veio antes e tentou plantar de diferentes jeitos at\u00e9 a ro\u00e7a vingar\u2026\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_571\" aria-describedby=\"caption-attachment-571\" style=\"width: 773px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-571\" src=\"https:\/\/id126ufba.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/site-escritoras-negras-da-bahia-1024x501.png\" alt=\"\" width=\"773\" height=\"378\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-571\" class=\"wp-caption-text\"><em>Escritoras Negras da Bahia<\/em>, captura de tela a partir do site <em>Web Archive<\/em>.<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Impress\u00e3o Digital:<\/em> Nos conhecemos no ano de 2017 por conta do seu projeto de mapeamento liter\u00e1rio \u201cEscritoras Negras da Bahia\u201d. Nesses oito anos, muitas coisas mudaram no cen\u00e1rio da literatura baiana e nacional. Como voc\u00ea identifica o papel de iniciativas como a sua no trabalho por uma literatura sobre n\u00f3s?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Calila das Merc\u00eas:<\/strong><span style=\"font-weight: 400;\"> Acredito muito na continuidade, na generosidade de passar adiante, de fazer movimentos coletivos, fomentar di\u00e1logos, trocas e gerar mais oportunidades. Nem sempre d\u00e1 para contar com ajuda. \u00c0s vezes precisamos criar as tentativas, os espa\u00e7os que n\u00e3o existem. Hoje estou na academia, ofertando uma disciplina na USP sobre epistemologias negras, participando de eventos pelo Brasil todo pelo Arte da Palavra do Sesc, onde converso com idosos, crian\u00e7as, estudantes do EJA (Educa\u00e7\u00e3o de Jovens e Adultos), p\u00fablico geral, falando sobre literaturas, a import\u00e2ncia das nossas epistemologias. Estou produzindo literatura, desejando publicar tanta coisa&#8230;\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">E quando falo eu, assim na primeira pessoa do singular, com toda certeza que n\u00e3o fa\u00e7o nada disso sozinha, tampouco, escrevo. Pensando aqui, falei antes sobre a ro\u00e7a vingar\u2026 E vingar nem sempre \u00e9 um jeito ruim de fazer acontecer. Marcelino Freire disse que escreve para se vingar, Concei\u00e7\u00e3o Evaristo disse que a escrita \u00e9 uma esp\u00e9cie de vingan\u00e7a. Se vingar \u00e9 um jeito tamb\u00e9m de se fazer, de colocar palavras para jogo, para a terra, para o vento, para a vida. \u00c9 um jeito de mudar de posi\u00e7\u00e3o. Eu quero que n\u00f3s, mulheres negras, possamos mudar de posi\u00e7\u00e3o. A semente \u00e9 jogada na terra para mudar de posi\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_507\" aria-describedby=\"caption-attachment-507\" style=\"width: 640px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-507\" src=\"https:\/\/id126ufba.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/WhatsApp-Image-2024-08-20-at-16.55.47-682x1024.jpeg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"961\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-507\" class=\"wp-caption-text\">Calila das Merc\u00eas posa para Nti Uir\u00e1, arquivo pessoal.<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Impress\u00e3o Digital:<\/em> Calila, voc\u00ea atualmente ocupa um espa\u00e7o de destaque na C\u00e1tedra Olavo Set\u00fabal de Arte, Cultura e Ci\u00eancia da USP, presidida por Concei\u00e7\u00e3o Evaristo. O fazer liter\u00e1rio de ambas conflui em tem\u00e1ticas que tocam o espa\u00e7o \u00edntimo em n\u00f3s; o passado que reverbera no presente, as m\u00e3os das mulheres negras que tecem as nossas hist\u00f3rias, a terra e a relva como ch\u00e3o para nossas sensibilidades ditas e n\u00e3o-ditas. Como tem sido esse trabalho<\/strong><b>?<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Calila das Merc\u00eas:<\/strong> <span style=\"font-weight: 400;\">Ter a oportunidade de atuar ao lado da escritora e Profa. Dra. Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, sem d\u00favidas, foi um grande sonho realizado. Ter sido sua supervisionada em um p\u00f3s-doutorado no Instituto de Estudos Avan\u00e7ados na Universidade de S\u00e3o Paulo \u00e9 algo que levarei para a minha vida inteira. Neste trabalho junto \u00e0 sua C\u00e1tedra realizamos muitas atividades, dentre elas vou destacar duas: coordenamos um grupo de estudos com estudantes de mestrado e de gradua\u00e7\u00e3o, e teve uma disciplina que ministramos juntas para a P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o da USP no ano passado, que tinha como base o conceito alcunhado pela professora, \u201cEscreviv\u00eancia\u201d. Foi um momento de muita felicidade para n\u00f3s, primeiro pela surpresa de ver quase 200 inscritos de diferentes cursos da universidade, depois de ver suas aulas transbordando. Olhos brilhando e atentos ao que a professora proferia. Foi um momento que tenho certeza que todos levar\u00e3o para sempre nas suas vidas. Ela \u00e9 um sonho. E, como parceira de trabalho, s\u00f3 me resta agradecer pela possibilidade de aprender tanto, de poder trocar e sonhar juntas pela continuidade. Desde que participei desta concorrida sele\u00e7\u00e3o de p\u00f3s-doc, sem nem saber que tanta coisa ocorreria, eu tinha ci\u00eancia do desafio e necessidade de estar neste espa\u00e7o acad\u00eamico no Sudeste do pa\u00eds. Sem d\u00favidas \u00e9 um processo que transformou a minha vida, me fez ver tantas coisas e, apesar dos desafios, me fez acreditar e confiar no sonho. Seguir firme na continuidade, tanto dita pela professora como uma premissa. Um compromisso \u00e9tico que fiz comigo e com meu pares e ancestrais.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Impress\u00e3o Digital:<\/em>\u00a0 Voc\u00ea j\u00e1 morou em Cachoeira, uma das cidades mais importantes do Rec\u00f4ncavo Baiano, banhada pelo Rio Paragua\u00e7u em sua divisa com S\u00e3o F\u00e9lix. Como a vida em Cachoeira influenciou a sua literatura?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Calila das Merc\u00eas:<\/strong><span style=\"font-weight: 400;\"> Morei em Cachoeira a partir de 2007, mais ou menos. Fui da segunda turma de Comunica\u00e7\u00e3o\/Jornalismo da Universidade Federal do Rec\u00f4ncavo da Bahia (UFRB), ali quando n\u00e3o tinha ainda o pr\u00e9dio do Leite Alves e estud\u00e1vamos no Inferninho (anexo do col\u00e9gio estadual). Quem viveu este per\u00edodo sabe do que estou falando. Tantos lugares que nem existem mais, mesmo numa cidade tombada e que preserva tantas coisas. Sobre o processo que \u00e9 ingressar numa universidade que nasce do sonho e, \u00e0s vezes, fazer acontecer \u00e9 bem desafiador. Lembro de ir tantas vezes nas reivindica\u00e7\u00f5es, foi uma luta e tanto. Faz\u00edamos disciplinas de radiojornalismo e telejornalismo na FACOM | UFBA. Era um desafio termos c\u00e2meras, jornal impresso, pr\u00e1ticas\u2026 Mas tivemos uma forma\u00e7\u00e3o generosa, especialmente, quando digo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 viv\u00eancia na cidade. Cachoeira me deu tanta coisa, primeiro que me fez me ver mulher negra, reconhecer a for\u00e7a da minha ancestralidade, espiritualidade, a for\u00e7a da minha palavra e que n\u00e3o andava s\u00f3. Tem coisas que s\u00f3 vi muito depois e isso tem a ver com Tempo, em respeit\u00e1-lo e acreditar nele. Eu escrevi na minha tese, algo que m\u00e3e Stella de Ox\u00f3ssi dizia e que tem em Owe: \u201c<em>Antes de morder veja com aten\u00e7\u00e3o, se \u00e9 pedra ou se \u00e9 p\u00e3o<\/em>\u201d. N\u00e3o sei, mas Cachoeira me mostrou manejos de plantar que tenho tentado mostrar aos poucos, com cuidado, respeito.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Impress\u00e3o Digital:<\/em> Neste ano voc\u00ea foi convidada para ser curadora da Tenda Paragua\u00e7u na Festa Liter\u00e1ria Internacional de Cachoeira. A sua hist\u00f3ria com a FLICA vem de longe, voc\u00ea j\u00e1 esteve como convidada e expositora em mesas. Como est\u00e1 sendo retornar \u00e0 FLICA neste novo papel?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Calila das Merc\u00eas:<\/strong> <span style=\"font-weight: 400;\">Fiquei muito entusiasmada em ser nesta edi\u00e7\u00e3o curadora convidada da Tenda Paragua\u00e7u da FLICA. Ainda mais que participei das primeiras edi\u00e7\u00f5es como espectadora, convidada, lancei <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Planta Ora\u00e7\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> com a presen\u00e7a de amigos e familiares e agora recebi este chamado. S\u00e3o muitas expectativas, porque \u00e9 um espa\u00e7o de trocas e que tem muitas nuances, um trabalho que ocorre em conformidade \u00e0 coordena\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o do evento tamb\u00e9m.\u00a0 Penso que tenho uma pesquisa curatorial que dialoga com a comunidade, com o que nos reveste, e que deseja abra\u00e7ar e convidar a comunidade a participar de perto. O tema desta edi\u00e7\u00e3o \u00e9 \u201c<em>O mundo da literatura em festa<\/em>\u201d, algo que n\u00e3o nos exime de pensar nas quest\u00f5es que nos s\u00e3o caras, mas que nos faz tamb\u00e9m pensar em tecnologias e fundamentos dos nossos que fizeram a diferen\u00e7a para c\u00e1 estarmos. Quero ver todo mundo l\u00e1. E espero que gostem do que estamos programando. E quero ainda falar muito sobre esta experi\u00eancia de curadoria, \u00e9 algo que tenho experimentado e desejo ainda ter mais espa\u00e7os para refletir. Se tiver algu\u00e9m a\u00ed disposto\u2026<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_514\" aria-describedby=\"caption-attachment-514\" style=\"width: 658px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-514\" src=\"https:\/\/id126ufba.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/91f1St5q3VL._AC_UF10001000_QL80_.jpg\" alt=\"\" width=\"658\" height=\"1000\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-514\" class=\"wp-caption-text\">Capa do livro <em>Planta Ora\u00e7\u00e3o<\/em>, de Calila das Merc\u00eas. Editora N\u00f3s, 2022.<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Impress\u00e3o Digital:<\/em> Voc\u00ea \u00e9 uma autora com uma vida acad\u00eamica efervescente. Nessas \u00e1guas, onde conflui literatura e pesquisa, quais s\u00e3o as suas perspectivas sobre a chamada \u201cnova literatura brasileira\u201d? Voc\u00ea sente que o Brasil profundo finalmente est\u00e1 retornando aos holofotes, que hist\u00f3rias n\u00e3o hegem\u00f4nicas se erguem na cena?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Calila das Merc\u00eas:<\/strong> <span style=\"font-weight: 400;\">Bom, eu quero crer muito que isto possa estar acontecendo. Que estejamos vivendo este momento da nova literatura brasileira com holofotes e leituras e partilhas em bibliotecas, escolas, tudo que temos direito e Direito.\u00a0 Ler os conterr\u00e2neos Itamar Vieira Jr., Luciany Aparecida, e escritores como Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, Jeovanna Vieira, Socorro Acioli, Jeferson Ten\u00f3rio, Marcelino Freire, Cida Pedrosa, entre outros, que ficaria aqui por muito tempo listando, me d\u00e1 g\u00e1s. V\u00ea-los circulando em muitas m\u00e3os e mentes faz eu acreditar que algo est\u00e1 acontecendo em rela\u00e7\u00e3o aos nossos escritos. V\u00ea-los em ementas, al\u00e9m das livrarias (que tamb\u00e9m \u00e9 muito bom e queremos estar presentes). \u00c9 bom acreditar que nossos livros est\u00e3o chegando para um p\u00fablico mais amplo, interessado neste Brasil profundo e tamb\u00e9m ligado nas armadilhas e del\u00edrios coloniais que ainda seguem em curso. Este ano temos elei\u00e7\u00f5es municipais. Em tempos que vimos livros serem censurados, pensar nos programas de media\u00e7\u00e3o de leituras das escolas, na partilha e pensamentos de expans\u00e3o por meio da educa\u00e7\u00e3o, tenho pensado que \u00e9 um bom momento para juntos fazermos algo transformador.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Impress\u00e3o Digital:<\/em> Gostaria de lhe agradecer por ceder esta entrevista. Para finalizar, voc\u00ea poderia compartilhar conosco um trecho de <i>Planta Ora\u00e7\u00e3o<\/i>?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p><strong>Calila das Merc\u00eas:<\/strong> <span style=\"font-weight: 400;\">\u00e1gua. (aprendi na pr\u00e1tica que o que n\u00e3o \u00e9 nosso a chuva leva. poeira, penas, toques e at\u00e9 alguns peda\u00e7os. j\u00e1 perdeu algum peda\u00e7o de si quando foi trombada por tempestades e ventanias? tem como sair ilesa? talvez nunca. mas te garanto que depois de alguns arco-\u00edris estaremos mais fortes e resistentes quando tudo passar. sonhar em ser. sombra em um dia de muito sol, lembran\u00e7a que a esta\u00e7\u00e3o e o mundo caminharam. ser abrigo \u00e9 tamb\u00e9m ouvir a chuva dentro da gente, alimentando a coragem. beber o que fica e passa quando vem a estiagem. se molhar com as gotas que pingam e deslizam no ch\u00e3o, (vi)ver a seiva nutrindo o interno e transformando tudo o que voc\u00ea n\u00e3o pode tocar.) cauleseiva raizraioraizraio terra terra\u2026<\/span><\/p>\n<p>Merc\u00eas, Calila das. Planta Ora\u00e7\u00e3o (p. 62). Editora N\u00f3s. Edi\u00e7\u00e3o do Kindle.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Conhe\u00e7a mais do trabalho de Calila das Merc\u00eas em <\/span><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/dasmerces\/\"><span style=\"font-weight: 400;\">suas redes sociais<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">. Se estiver interessado em adquirir o livro <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Planta Ora\u00e7\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, pode acessar o site da <\/span><a href=\"https:\/\/editoranos.com.br\/produto\/planta-oracao\/\"><span style=\"font-weight: 400;\">Editora N\u00d3S<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">_________________<\/span><\/p>\n<p><strong>Yasmin Morais<\/strong><span style=\"font-weight: 400;\"> \u00e9 jornalista em forma\u00e7\u00e3o, atriz, escritora e palestrante. Calila das Merc\u00eas foi escolhida para esta entrevista em raz\u00e3o da notoriedade de sua literatura e do profundo interesse da entrevistadora no cen\u00e1rio liter\u00e1rio atual.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conhe\u00e7a Calila das Merc\u00eas, escritora baiana premiada e curadora da Tenda Paragua\u00e7u na FLICA 2024, que acontecer\u00e1 em outubro &nbsp; Yasmin Morais (@yasminescritora) &nbsp; O aroma do jasmim-do-caribe, o sabor acre do maracuj\u00e1-do-mato e a textura porosa das folhas que tecem na pele cantigas do Rec\u00f4ncavo Baiano, de uma terra que long\u00ednqua e reimaginada, encanta&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-494","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/idufba.com.br\/memoria\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/494","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/idufba.com.br\/memoria\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/idufba.com.br\/memoria\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/idufba.com.br\/memoria\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/idufba.com.br\/memoria\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=494"}],"version-history":[{"count":14,"href":"https:\/\/idufba.com.br\/memoria\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/494\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":611,"href":"https:\/\/idufba.com.br\/memoria\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/494\/revisions\/611"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/idufba.com.br\/memoria\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=494"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/idufba.com.br\/memoria\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=494"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/idufba.com.br\/memoria\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=494"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}