Alto das Pombas no carro de som e no podcast

Como Grupo de Mulheres do Alto das Pombas utiliza a comunicação para promover a cidadania na comunidade

 

Daniel Araújo (@araujodanieldejesus) e Victor Hugo Ribeiro (@ovictorlee)

 

Nos alto-falantes de um carro, os anúncios chamam a atenção dos moradores e visitantes do bairro Alto das Pombas, em Salvador. Avisos sobre projetos culturais despertam curiosidade e envolvimento comunitário. Foi assim que Luciana Silveira, após ouvir repetidamente as mensagens, mergulhou em um dos grupos voluntários mais importantes da capital baiana.

 

Luciana lendo edição impressa do Comunica Grumap em roda de conversa (Reprodução Redes Sociais, Foto: Rafaela Jesus)

 

“Lembro que, quando cheguei aqui, escutei o carro de som. Para mim, aquilo era algo muito inovador e provocativo. Um carro de som passando com uma mulher à frente, com uma voz tão forte. Essa mulher era Rita Santa Rosa, a Ritinha, que hoje é nossa mestra, uma das mais experientes em atuação na Grumap. Durante um tempo, eu apenas ouvia, mas sempre que o carro de som passava, eu corria para a janela. Era sobre racismo, debate racial – algo que eu nunca tinha vivido antes”, comentou a urbanista Luciana, que hoje faz parte da coordenadoria do coletivo. 

 

Há 42 anos, o Grupo de Mulheres do Alto das Pombas (Grumap) atua na comunidade. Formado por mulheres negras locais, luta por legitimidade, protagonismo e políticas públicas, destacando-se como protagonista no movimento popular de mulheres negras feministas, essencial em Salvador. Com ações do Grumap, foi possível a conquista e a implementação de serviços fundamentais na comunidade.

 

Por exemplo, o direito ao território e à terra, representado pela posse do título de terra em nome das mulheres na comunidade do Alto das Pombas, é uma das conquistas importantes. Além disso, o direito à creche é essencial para intensificar o cuidado e a educação das crianças, possibilitando a emancipação das mulheres por meio de sua entrada no mercado de trabalho. Outro destaque é a conquista da Unidade de Saúde da Família, que simboliza a luta pela presença dos postos de saúde na comunidade, promovendo acesso a serviços básicos de saúde.

 

Marília Leão de 39 anos, mora no Alto das Pombas desde que nasceu, participa regularmente de rodas de conversas. Seus três filhos também já participaram de ações de reforço escolar e outras oficinas.

 

Depoimento em áudio de Marília Leão

 

 

Grumap na marcha do Julho das Pretas 2024
Grumap na marcha do Julho das Pretas 2024 (Foto: Aila de Jesus)

 

O carro de som é um dos exemplos de como o Grumap, atualmente com 12 mulheres ativas, trabalha com a comunicação para alcançar a comunidade e seus objetivos. Além do carro de som, o coletivo produz o Comunica Grumap, um jornal impresso bimestral, um podcast, e oficinas de fotografia e cinema para os jovens da comunidade, que estimulam a criatividade e ampliam suas perspectivas sobre o mundo e o território onde vivem.

Comunica Grumap, além de divulgar as ações realizadas pelo coletivo, tem como objetivo informar a comunidade sobre temas de grande relevância, como reuniões sobre a reforma de escolas, eleições municipais e outras pautas de interesse comunitário. “Essa iniciativa fortalece a comunicação dentro da comunidade, promovendo a troca de informações, o engajamento e o senso de pertencimento. Além disso, ao abordar temas que muitas vezes não são amplamente divulgados, o Comunica Grumap se torna um instrumento de reparação e valorização da memória local”, afirma a jornalista Brenda Gomes, que colabora na diagramação do periódico.

 

Edição do Comunica Grumap de novembro de 2024 (Reprodução redes sociais: @grumap)

 

“O processo de produção é colaborativo e envolve toda a equipe. As mulheres do Grumap se reúnem para decidir as pautas da edição e elaboram uma proposta inicial de textos. Esses conteúdos são, então, revisados, ajustados e diagramados para compor o jornal. Após a produção, o jornal é entregue à comunidade. Durante a distribuição, as mulheres utilizam um carro de som para anunciar os principais temas abordados na edição e entregam os exemplares diretamente aos moradores, explica Brenda sobre o jornal. A estratégia de uso do carro de som para divulgar os conteúdos do jornal permite que até mesmo quem não é alfabetizado compreenda as mensagens. Assim, democratiza a informação e cria um momento de interação direta com a comunidade, complementa Brenda sobre como a acessibilidade é também importante para o coletivo. Tanto o jornal, como a maior parte das atividades do coletivo, é financiado através de parcerias com organizações de terceiro setor, como Instituto Odara, e a Coordenadoria Ecumênica de Serviços (Cese). 

 

Lançamento da ediçaõ de Novembro de 2024 do Comunica Grumap (Reprodução redes sociais: @grumap)

 

 Podcast e oficinas 

Durante a pandemia, o papel tornou-se um possível transmissor da Covid-19 e com as pessoas em suas casas, o carro de som seria menos escutado. Foi  então que o podcast do Grumap surgiu, disponibilizado no YouTube, e representou  uma possibilidade do coletivo se comunicar com a comunidade, sem deixar de discutir as pautas pertinentes aos moradores no período de isolamento social.

 

 

Além do jornal e do podcast, o grupo promove outras iniciativas de comunicação que merecem destaque. Os jovens da comunidade, por exemplo, têm acesso a oficinas de fotografia e cinema, que estimulam a criatividade e ampliam suas perspectivas sobre o mundo e o território onde vivem. 

O audiovisual também é um pilar importante para o Grumap, que promove o Coletivo CineArte com o objetivo de difundir a prática e o ensino do audiovisual dentre os jovens da comunidade. Em paralelo, desenvolve o olhar crítico sobre o território, atuando junto ao cinema contra o racismo e pela autoestima dos moradores.

 

 

O modelo baiano Carlos Cruz, que já desfilou em semanas de moda de Milão, Londres e outras, nasceu e cresceu numa periferia de Salvador, e hoje possui atua junto ao Coletivo CineArte. Confira trecho do depoimento dele, gravado em áudio para o ID.

 

 

O Coletivo CineArte, atualmente, está desenvolvendo seu primeiro filme, que contará a trajetória do coletivo sob a perspectiva das juventudes envolvidas. O projeto presta homenagem às ações realizadas pelo coletivo, aos beneficiários que destacam as relações afetivas construídas ao longo de seus 42 anos, e à convicção no projeto político do bem viver. O documentário quer evidenciar a força dos afetos e trocas solidárias promovidas pelo Grumap, além da colaboração dos profissionais de cinema envolvidos na produção. O CineArte também produz conteúdo audiovisual para suas redes, como Instagram  e Youtube , e já produziu o webdocumentário “Grumap, Corpo e Memória”.

 

 

A comunicação é uma ferramenta essencial para a organização porque conecta as pessoas, fortalece os laços comunitários e dá visibilidade às demandas locais. Desde as rodas de conversas,  trocas de saberes entre mulheres negras, intergeracionais, passando pelo carro de som, que informa a comunidade, até o cinema, pelas redes sociais, jornal impresso e podcast, o Grumap utiliza a comunicação para promover a cidadania e a participação dos moradores do Alto das Pombas. 

 

 

Daniel AraújoEstudante de jornalismo da FACOM | UFBA, estagiário do caderno de economia e negócios (agro, imobiliário) do jornal A Tarde, bolsista de iniciação científica do grupo Comunicação, Internet e Democracia, vinculado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital. 

 

Victor Hugo Ribeiro – Estudante de jornalismo da FACOM | UFBA, estagiário no portal Farol da Bahia e um dos fundadores do site de entretenimento e redator do Moqueka.com. Além de fazer parte da Instância de Jornalismo Esportivo da UFBA. 

 

A nossa motivação para realizar esta pauta foi o interesse pela iniciativa do Grumap, que há 42 anos realiza trabalho voluntário promovendo arte, cultura e educação no Alto das Pombas, uma comunidade tão afetada pelo crime organizado. As iniciativas de comunicação, como o jornal impresso e o cineclube, também foram importantes para nossa escolha da pauta.

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