A imagem contém um casal deitado, coberto por um lençol xadrez, cada um com o seu celular, usando redes sociais. A imagem possui luz apenas na parte central, com o brilho dos smartphones. A imagem expressa o distanciamento do casal por causa das redes sociais.

Redes sociais estimulam exposição do próprio ‘chifre’

Postar um vídeo “esculachando” um parceiro infiel já é caminho comum para popularidade nas redes sociais. Mas, para além do engajamento gerado, especialistas chamam atenção para a disparidade de imposições culturais que afetam mais as mulheres do que os homens

 

Caio Valente (@_caiovalente_) e Elaine Sanoli (@sanoliela)

 

Gravando com o celular na vertical, uma mulher entra na praça de alimentação do Boulevard Shopping, em Camaçari, Região Metropolitana de Salvador (RMS). Na outra mão, prints impressos de conversas em aplicativos. Aproxima-se de um casal sentado. “Agora você vai dizer que não me traiu, né? Aqui, ó”, diz, plantando os papeis na mesa com três tapas sólidos. Senta de frente para o marido, deixando a amante fora do enquadramento. “Cinco crianças em casa”, lembra. “Agora a gente pede o divórcio, seis anos jogados fora”. O homem observa sem responder, completando o que poderia facilmente ser uma cena de novela. 

 

A mulher por trás da câmera é Rebeca Santos, uma boleira, que já alcançou 151 mil seguidores e mais de 80 mil curtidas em vídeos expondo a traição sofrida no Instagram, com pouquíssimas postagens prévias. Uma enxurrada de novos seguidores também chegaram ao perfil da carioca Aryana Medeiros. Setecentos mil, aproximadamente. O motivo já é comum: a legião de ‘fãs’ surgiu após a circulação de um vídeo em que ela expõe a traição de seu parceiro, o pastor Ruan Sérgio. Foram mais de três milhões de visualizações em apenas 24 horas de publicação. Se o assunto for traição, a certeza é de que a história cai nas graças dos internautas. 

 

 

O fenômeno não é novo. Em programas como o Casos de Família, do SBT, por exemplo, a infidelidade costumava ser tema recorrente. O diferencial está na fusão entre a “vida real” e a “vida virtual”, que potencializa essa exposição, como aponta Leonor Graciela Nathanson, professora e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Gênero, Tecnologias Digitais e Cultura (GIG@) do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Póscom) da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (FACOM | UFBA). No vídeo, abaixo, ela explica outras características relacionadas.

 

 

 

Para a pesquisadora Flávia Sofia Brandão, mestre em Tecnologias da Comunicação e doutoranda no Póscom, a popularidade dessas exposições tem a ver com a própria maneira com que as redes sociais são construídas. “Pelo ponto de vista da materialidade das plataformas, ou seja, das infraestruturas e dos modos de funcionamento, os usuários são ‘recompensados’ por essa hiperexposição, com mais alcance e engajamento em seus conteúdos polêmicos. Em uma sociedade em que essas métricas determinam quem é relevante e quem não é, ter audiência nas redes é em alguma medida se sentir visto”, observa ela. 

 

Flávia Sofia Brandão, pesquisadora. Crédito: Acervo pessoal

 

Flávia Sofia considera que existe mais nesse engajamento do que apenas o gosto do público por “fofoquinhas”. Para ela, a viralização desses conteúdos é também um reflexo da nossa vontade de vigiar, em um mundo onde somos cada vez mais vigiados. “A sociedade do controle e da vigilância pervasiva, espalhada por todos os lugares, com suas câmeras, rastreadores, tem produzido sujeitos inseguros em todos os âmbitos da vida. Há sim um certo prazer em estar na posição de observador dessa infidelidade que se revela, como uma liberação para a insegurança”, pontua.  

 

Já pelo ponto de vista da terapia de casais, o psicólogo Uendel Valeriano acredita que o ato de expor uma traição, embora possa parecer justificado, é pouco saudável. 

 

 

“Muitas vezes as pessoas fazem isso e depois dizem ‘ah, eu fiz errado’ ou apagam o post, porque cai a ficha após passar a raiva do momento, mas às vezes a besteira já foi feita”, acrescenta o profissional.

 

A jovem Bruna (nome fictício para preservar a intimidade da fonte), 29, quando foi traída pelo parceiro também reconhecia o peso da exposição. “Nunca pensei em expor a situação porque não achava certo”, explica a assistente de Recursos Humanos, que chegou a ser traída três vezes pelo companheiro. Da primeira vez em que a infidelidade deu as caras, estavam juntos havia poucos meses. Por isso, decidiu seguir em frente e superar o ‘vacilo’ do namorado. “Eu achei que tinha sido um erro e que não aconteceria novamente.” Cerca de seis anos depois, enquanto mexia no celular do parceiro, encontrou mensagens que indicavam uma nova traição. 

 

Amanda (também nome ficcional), 28, descobriu a infidelidade da namorada da mesma forma: ‘fuçando’ o celular dela. ”Descobri após sonhar com a situação e confrontar a pessoa. Eu estava com o celular da pessoa e ela recebeu uma mensagem de um número que eu não conhecia. Fui olhar e tinha conversas íntimas como se minha ex fosse solteira”, relembra. Após confirmação da parceira, a relação de quase três anos chegou ao fim.

 

Infidelidades reais

 

Para Uendel Valeriano, a traição acontece quando os pactos definidos pelo casal são quebrados, o que pode acontecer mesmo na esfera digital. Seja com uma troca de mensagens, envio de fotos íntimas ou uma mera curtida na foto de uma terceira pessoa, o que define a infidelidade é um acordo prévio. “Existem diversos tipos de traições para diversos tipos de pessoas […] se a gente não tem um diálogo aberto e assertivo para alinhar expectativas, posteriormente diversos fatores vão influenciar na possibilidade de buscar essas expectativas, essas vontades, em outros lugares. E a internet acaba sendo um deles”, explica o psicólogo. 

 

A pesquisadora Flávia Sofia, no entanto, alerta para o risco de que a vigilância das ações do parceiro nas rede sociais se torne uma ferramenta perigosa de controle nas relações. “Usuários têm utilizado recursos como ‘visto por último’, compartilhamento de localização em tempo real, tags rastreadoras (como AirTags), e até aplicativos de spyware para monitoramento de parceiros íntimos com objetivo de promover o controle e a vigilância. Me parece que há uma banalização e uma autorização para essas práticas por parceiros íntimos inseguros emocionalmente”, comenta ela.

 

Independentemente do potencial da web de ser usada para trair ou fiscalizar o parceiro de maneira obsessiva, porém, o psicólogo Uendel acredita que há vantagens na internet para as relações. “Eu já trabalhei com pessoas que iniciaram relacionamentos pela internet e mantêm um relacionamento saudável e duradouro. A gente não pode colocar a internet num lugar muito negativo nesse contexto, porque existe um outro viés também, do lado saudável e positivo”, pondera.

 

Nunca é simples

 

Se a infidelidade é uma questão de quebra de contrato, contudo, vale notar como disparidades sociais preexistentes podem fazer os contratos em si injustos, a depender do casal. Para a professora Graciela Nathanson, a própria discussão sobre infidelidade em relacionamentos entre homens e mulheres já traz embutida uma disparidade de imposições culturais. “Por mais que um casal heterossexual e monogâmico possa estabelecer pactos internos, o patriarcado está marcando as nossas escolhas, nossas condutas, nossos corpos. Então, não existe contrato igualitário entre gêneros. Isso é uma ficção”, afirma.

 

O terapeuta de casais, embora mais confiante na possibilidade de encontrar equilíbrios, também concorda que há uma disparidade. Nota que este quadro está mudando, mas seu consultório ainda é mais procurado por mulheres traídas. “Culturalmente a gente vive numa sociedade onde o homem é o macho alfa e que é permitido ter várias mulheres. Isso tem mudado muito, e que bom que tem mudado, mas ainda é um fator muito grande, pois aparecem muito mais mulheres que foram traídas”, conta Valeriano.

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Caio Valente é estudante de Jornalismo da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (FACOM | UFBA). Prefere confiar no caráter alheio e no destino do que perder tempo fiscalizando celular de parceira.

Elaine Sanoli é estudante de Jornalismo da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (FACOM| UFBA). Não tem tempo, muito menos paciência para ser fiscal de redes sociais do parceiro. Expor sua vida completamente nas telinhas também está fora de cogitação.

A reportagem nasceu do desejo de saber por onde andam os traídos da Associação dos Cornos de Lauro de Freitas, mas tomou novos contornos com os acontecimentos recentes citados na reportagem.

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