O mundo está pegando fogo, mas ainda não acabou! Aproveitem!
A constatação é óbvia, logicamente, mas não deixa de ser verdadeira. Os textos dos colegas representam bem o estado da arte do jornalismo na Bahia e no Brasil, com os males (que ocuparam a maior parte dos caracteres) e com as benesses e os charmes da profissão.
Inicio aqui dizendo que este texto será dividido em duas partes. A primeira delas tem como objetivo deixar claro que não é o fim do mundo, o jornalismo existe, o mercado de trabalho existe e vai continuar existindo. Na segunda parte, relatarei um pouco da minha experiência.
O jornalismo não é mais o quarto poder, nem o quinto e talvez não seja o sexto também. Mas a comunicação e o jornalismo são, e sempre serão, relevantes para a sociedade e para o mercado de trabalho. Então, de forma geral, se lhe aflige estar fazendo uma faculdade inútil e de uma profissão fadada à morte, eu diria que você pode se tranquilizar. Há vida para além do jornalismo, mas você pode ter certeza de que os ensinamentos do jornalismo serão úteis e necessários em tantas áreas. Somos formados em jornalismo, com habilidade para lidar com pressão, prazos, pessoas, ouvir, traduzir, explicar e comunicar. Todas essas habilidades ou soft skills, como o LinkedIn diz, são necessárias e essenciais no mercado de trabalho atual. Talvez não sejamos todos Bonners, Patrícias Campos Mello, Lúcios de Castro, Malu Gaspar ou até mesmo grandes nomes locais como Levi Vasconcelos, Wanda Chase e Zé Raimundo, mas não é o fim do mundo. Você pode ser um jornalista, um assessor de comunicação, social media, gestor e tantas outras opções, e em todas as opções, você utilizará a visão e o senso crítico que aprendeu/desenvolveu na faculdade.
Dediquei a primeira parte do texto a tentar tranquilizá-los; na faculdade, tudo parece desesperador, intenso demais e até assustador. Foi assim quando eu estava na FACOM, foi assim que ouvi das experiências dos que vieram antes e acredito que continuará sendo assim. Afinal, um turbilhão de coisas passa pela nossa cabeça: preocupações, sonhos, expectativas, pressões e problemas. No final, tudo se ajeita! O jornalismo tem, sim, seus defeitos (vários); o mercado de trabalho tem, sim, seus problemas (vários) e tantas outras coisas. Mas, no final do dia, o jornalismo não vai morrer. Jornalistas são profissionais multifacetados em sua essência, e isso é uma vantagem no mercado de trabalho atual. E vocês já perceberam e/ou viveram experiências que lhes mostraram que são capazes de fazer mais do que imaginam ou pensam, ainda que isso seja desesperador e vá continuar sendo.
Eu entrei na FACOM em 2018.2. Havia feito um semestre de Administração na UFBA e cursado uma matéria que tratava de Comunicação e Gestão de Crises. Ali, eu percebi que gostava de Comunicação e fiz a troca no SISU do meio do ano. A mudança de grade já ocorreu, e agora temos os componentes curriculares de Jornalismo Integrado. Mas acredito que todo mundo tenha vivido a experiência universal de se questionar coisas como: “Será que eu sei mesmo escrever?”, “Não é possível que eu seja tão desqualificado assim. Eu sou tão desqualificado assim?”. E isso passa (em algum momento), mas você não pode deixar de se esforçar para melhorar. A passagem dos semestres acalma o coração e afasta o cenário de duvidar das capacidades cognitivas. No final do curso, volta o momento de duvidar da própria capacidade cognitiva ao entrar na época do TCC. A minha experiência contou com uma mudança de tema do pré-TCC para o TCC 1. Eu iria escrever sobre os pronunciamentos de Bolsonaro na pandemia e mudei para uma Análise do Ethos Discursivo da chapa Lula-Alckmin na campanha eleitoral de 2022.
Apesar disso, o TCC foi uma boa experiência. Minha principal recomendação para vocês nesse período é que busquem manter a constância. Definam uma meta diária e/ou semanal e busquem cumpri-la. Aos que escolherem monografia, esse é meu principal conselho e recomendação. Vai ser a forma mais palatável da experiência, e não fará com que vocês cheguem próximo à data tendo que conciliar o TCC com as outras obrigações da rotina.
Profissionalmente, comecei a estagiar assim que possível, no terceiro semestre. Estagiei no BNews. Mediante todas as críticas que conhecemos, foi uma escola importante, e lá passei meus dois anos de estágio. Lá, eu tive a liberdade para trabalhar e me desenvolver na área que sempre tive mais afinidade, que é a cobertura de Política. Hoje em dia, apesar de ter sido uma boa experiência, eu não passaria todo meu período de estágio na mesma empresa. Recomendo que vocês experimentem, pensem e aproveitem as mais variadas oportunidades. Transitem entre redação, assessoria de empresa, assessoria de órgão público e busquem uma formação e um preparo mais amplo e variado.
Aos que estagiam em redações, recomendo e peço, enquanto leitor e apreciador do jornalismo: vão para a rua. O jornalismo sentado é tentador, e muitas vezes as próprias empresas vão oferecer isso. Mas busquem ir para a rua, apareçam e sejam vistos. Ao estarem em externas, sejam sempre educados, simpáticos, corteses e bons ouvintes. Mantenham a postura; vocês estão sendo observados a todo momento.
Aos que estagiam em assessorias de imprensa, cultivem boas relações, não apenas para emplacar seu release, mas sim, pois você pode estar do outro lado da bancada. Quanto ao seu trabalho enquanto assessor, busque conhecer o assessorado e ampliar sua base de conhecimento e atuação. Assessorias, por muitas vezes, são menores que redações. Ou seja, tentem fazer um pouco de tudo. Passamos por uma fase onde o mercado de trabalho valorizou muito o profissional especialista, nichado, e agora, o profissional mais generalista, que faz de tudo um pouco, está reconquistando o espaço no mercado de trabalho. Não que vocês não devam se especializar em algo, mas não se resumam a isso. Tenho plena certeza de que, enquanto profissionais, vocês têm áreas que entendem mais, possuem mais afinidades. Mas não se resumam e não se deixem ser resumidos a isso. Façam de tudo um pouco, conheçam de tudo um pouco e experimentem. Leiam de tudo, ouçam de tudo, assistam de tudo e não cometam o erro de achar que já sabem demais, pois todo mundo pode ensinar algo, apresentar e lhes mostrar que vocês estavam errados.
Sempre gostei de política, consumi e acompanhei. Apesar de uma carreira curta até hoje, ainda enquanto estudante da FACOM (ou seja, com uma carreira ainda mais curta), tive a oportunidade de trabalhar em uma campanha política. Foram muitas horas trabalhadas, muita estrada e muita experiência. Trabalhar em campanha é algo que não é para todo mundo. Mas, se você tem essa vontade, se jogue e viva isso. É uma experiência recompensadora, tanto no aspecto de experiência quanto no aspecto financeiro. Inclusive, cursei esta mesma matéria em 2022.2 com a Profª Suzana Barbosa, quando ainda chamada de Oficina de Jornalismo Digital, no mesmo período da campanha.
Atualmente, coordeno a estratégia de Comunicação Digital da Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab), função que exerço desde março de 2024. Em cerca de um ano e meio, ampliamos significativamente o alcance digital da pasta, com um crescimento orgânico de mais de 50 mil seguidores nas redes sociais , reforçando a presença institucional e a proximidade com a população baiana. Além da gestão das plataformas digitais, também atuo na produção de pautas jornalísticas com foco em saúde pública, contribuindo para o fortalecimento da informação qualificada no setor.
Diante do exposto, o digital nunca foi minha praia. Eu sempre fui jornalista de redação, com um texto duro e tradicional , seguindo as regras de um bom lide, respondendo às perguntas e buscando ser objetivo e informativo. As mídias digitais possibilitam várias formas de comunicar e informar. Não sou adepto do estilo mais alegre e despojado que a Prefeitura de Salvador ou que o Governo Federal tem adotado neste último ano. A minha visão crítica jamais vai deixar de pensar: “Será que não há problema nenhum na cidade para a prefeitura estar de gracinha em rede social, postando meme?”
A experiência na Sesab tem sido muito boa. A gestão pública é um mundo à parte, com suas regras próprias para tudo e para a comunicação também. A Comunicação Pública é bem diferente do jornalismo de redação e da assessoria de imprensa em empresas particulares. Recomendo também que tenham a experiência de trabalhar na gestão pública. Há muita gente boa na Gestão Pública, e vocês podem aprender e conhecer muito. Na Sesab, eu lido com planejamento de conteúdo para as redes, gestão das mídias sociais, trato com a agência e questões de publicidade. A experiência é boa, cansativa, trabalhosa, mas é boa. Falando na realidade, a média salarial na gestão pública é mais alta que no mercado privado, principalmente para cargos iniciais. Contudo, há problemas como progressão de carreira e valores defasados em questão de alimentação e transporte.
Atualmente, não consigo visualizar um cenário em que voltaria para a redação. Não por não gostar, mas simplesmente por uma relação custo-benefício. O cenário de trabalho na redação, apesar de ser mais ativo do que o que vivo atualmente, é menos recompensador. Os jornalistas de política comparam a cobertura a uma cachaça, e há um pouco disso, de fato.
Todos estão se adaptando, mudando, e o mercado de trabalho tem seguido isso; não é um fenômeno exclusivo do jornalismo, é geral. Como bem disse Thais, isso não quer dizer que devemos aceitar más condições de trabalho, exploração e afins. A pejotização é uma questão para o mercado de trabalho como um todo. De fato, vivemos uma falsa pejotização, pois os empregadores cobram e esperam o trabalho como CLT, o que abriria margem para processos trabalhistas em busca de reconhecimento de vínculo. Mas poucas pessoas têm coragem de buscar isso.
Eu sou de 2000; não vivi a internet como uma novidade e todo o frisson causado por sua chegada. Hoje, vivemos o momento da IA, que traz o medo da substituição da mão de obra. O jornalismo pode ser uma das profissões mais afetadas, e o cenário parece preocupante. Mas, ainda assim, o jornalismo e a comunicação não vão acabar nem deixar de existir. O mundo está pegando fogo, mas ainda não acabou! Se permitam errar, experimentar, arriscar e buscar. O mercado está em mudança, o jornalismo e a comunicação também. Aproveitem!
* Marcio Rocha é jornalista com atuação em Salvador. Já colaborou para diversos sites locais nas editorias de Política e Justiça. Atuou como jornalista na campanha eleitoral de 2022. Hoje é coordenador de Comunicação Digital da Secretaria Estadual de Saúde da Bahia (Sesab), onde atua com estratégias de posicionamento, relacionamento com a imprensa e comunicação integrada. Foi da turma 2018.2 de Jornalismo na FACOM | UFBA e passou pela disciplina Oficina de Jornalismo Digital como aluno no semestre 2022.2, sob a condução da Profa. Suzana Barbosa. Pesquisou sobre a análise do ethos discursivo da chapa Lula-Alckmin no ano eleitoral de 2022 no Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), orientado pela Profa. Ivanise Andrade.
