Corais de Maré devolve vida aos recifes da Baía de Todos os Santos

Com o aumento das mudanças climáticas, ações de recuperação são essenciais para preservar esse ecossistema marinho que está desaparecendo

 

Damilla Carmo (@damillacarmo) e Kauane Brito (@kauanebbrito)

 

Um universo aquático cheio de cores e com uma diversidade de espécies marinhas. Assim são os recifes de corais, presentes no imaginário de muita gente graças às representações em desenhos animados. Na realidade, esse ecossistema é tão interessante quanto aparece nas telas, ou, pelo menos, deveria ser. Na Baía de Todos os Santos, um dos berçários marinhos do Brasil, a situação é preocupante: os recifes estão desaparecendo rapidamente.

 

A destruição desse ecossistema tem causas bem conhecidas. A poluição das águas, provocada pelo descarte inadequado de resíduos, e as mudanças climáticas, causadas pela atividade humana, são os principais vilões. Esses impactos não apenas ameaçam a biodiversidade, mas também afetam a pesca artesanal, o turismo e a economia local.

 

“Recifes saudáveis são essenciais para os seres humanos, pois fornecem alimento, estabilizam as costas e armazenam carbono. A mudança climática é a maior ameaça aos corais e devasta os sistemas naturais dos quais dependemos”, afirmou a diretora geral da União Internacional para a Conservação da Natureza (Uicn), Grethel Aguilar, em comunicado publicado em novembro de 2024.

 

O branqueamento em massa dos recifes de coral, por conta das altas temperaturas, atingiu níveis alarmantes desde fevereiro de 2023, segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (Noaa). Dados de satélite mostram que 77% das áreas de recifes foram submetidas a estresse térmico suficiente para causar o branqueamento. Em abril de 2024, o evento foi classificado como global e massivo, o quarto desde 1998.

 

Crédito: Arte produzida pelas autoras para esta reportagem

 

As consequências do branqueamento dos corais são graves e afetam vários setores, desde o turismo até a economia. Com o desequilíbrio desse ecossistema, muitas espécies podem desaparecer, resultando na perda da biodiversidade. Em nível extremo, o branqueamento pode aumentar a fome e a desigualdade, já que pode levar à escassez de alimentos para a comunidade e agravar a situação das pessoas que dependem da pesca para sobreviver.

 

Em meio a esse cenário de degradação, na Baía de Todos os Santos, o Projeto Corais de Maré surge como uma esperança. A iniciativa desenvolvida pela Carbono 14, em parceria com a Universidade Federal da Bahia (UFBA) e com o apoio da Braskem, busca restaurar os recifes da região e promover a recuperação da biodiversidade marinha por meio do cultivo de corais nativos.

 

Cultivo de corais nativos

 

Com foco na recuperação dos recifes de coral da Baía de Todos os Santos, o Projeto Corais de Maré trabalha para reverter os danos causados pela atividade humana. A estratégia adotada pela equipe do projeto é o cultivo de corais nativos em sementeiras feitas com o esqueleto de uma espécie invasora, o coral-sol.

 

“Resolvemos inovar no reaproveitamento do esqueleto de uma espécie invasora, conhecida popularmente como coral-sol. A partir daí, do reaproveitamento desse esqueleto, construímos pequenos bloquinhos que foram utilizados como substrato para cultivar espécies de corais nativos”, explica José Roberto Caldas, mais conhecido como Zé Pescador, CEO da Carbono 14.

 

A sustentabilidade está no centro dessa iniciativa. O plástico está entre os materiais utilizados para a construção das sementeiras, mostrando o compromisso ambiental para a redução de resíduos. Além disso, o uso do esqueleto do coral-sol não só favorece o cultivo dos corais nativos, mas também auxilia no controle dessa espécie invasora, que tem se mostrado prejudicial aos ecossistemas marinhos.

 

 

A Carbono 14 tem trabalhado com as comunidades locais para envolver pescadores, moradores e estudantes nas ações de preservação e no processo de restauração dos corais. O objetivo é não apenas recuperar o ecossistema, mas também garantir que as comunidades entendam a importância dos recifes para a economia local e para a saúde ambiental.

 

O “Corais de Maré Vai à Escola” é um exemplo do esforço de expandir ações do projeto também para as comunidades locais. Em dezembro de 2024, os estudantes de três escolas municipais da Ilha de Maré participaram de uma ação educativa e lúdica para aprender sobre o ambiente marinho e como contribuir para sua conservação.

 

Ações nas escolas da comunidade local. Foto: Divulgação/Projeto Corais de Maré

Com a participação de 115 alunos e 13 professores, a atividade mostrou os processos de recuperação dos recifes de coral, levou jogos interativos e os materiais usados no projeto, como berçários e sementeiras.

Zé pescador explica sobre os impactos do projeto na comunidade local

 

Participação acadêmica e apoio privado

 

Por meio do financiamento e do fornecimento de infraestrutura necessária, o projeto conta com pesquisas acadêmicas, treinamentos e o cultivo de corais em viveiros, unindo o conhecimento acadêmico à prática para a restauração dos corais. Thais Barros, 23, é estudante de Oceanografia na Universidade Federal da Bahia e está há um ano e meio atuando no Corais de Maré. Para ela, a interação com a comunidade é uma das grandes contribuições do projeto.

 

“Além de trabalharmos com o processo de restauração de corais, visto como um dos ecossistemas mais importantes globalmente, também temos a oportunidade de trocar conhecimentos com a própria comunidade local sobre as espécies de corais, peixes e afins, além de realizar atividades voltadas para educação ambiental, com o intuito de realizar tal integração”, conta a estudante.

 

Em conjunto com as tarefas práticas, os estudantes também contribuem com pesquisas. Eles são responsáveis por realizar estudos sobre a saúde dos recifes, identificar espécies ameaçadas e propor técnicas para a recuperação dos habitats. Esse trabalho acadêmico não só melhora as ações do projeto, mas também gera conhecimento científico relevante para a restauração de recifes de coral em outras regiões.

 

“Iremos realizar o pós-campo com a parte da análise de dados e os próprios ajustes a partir disso. Essa prática tem sido muito importante na complementação acadêmica, pois permite que todo o conhecimento seja de fato aplicado e refletido no funcionamento prático das atividades”, detalha Thais Barros.

O papel das empresas privadas em projetos ambientais como o Corais de Maré contribui para dar maior visibilidade à iniciativa, atraindo novos colaboradores e promovendo a conscientização ambiental em um contexto mais amplo. “O impacto da iniciativa é de extrema importância, levando em conta que, desde 2003, a quantidade dos corais nativos foi reduzida em 50%, de acordo com levantamento de pesquisadores da UFBA. E são ecossistemas essenciais para a biodiversidade, abrigando pelo menos 25% das espécies marinhas, além de contribuírem para a atividade econômica e de subsistência das comunidades costeiras”, avalia Magnólia Borges, gerente de Relações Institucionais da Braskem na Bahia.

 

Desafios superados e próximos passos

 

Ao longo dos três anos do Projeto Corais de Maré, um dos principais desafios foi a formação de uma equipe capacitada para atuar na restauração dos recifes. Como o trabalho acontece debaixo d’água, era essencial contar com pessoas experientes em mergulho e no ambiente marinho. “Além da habilidade com mergulho, era preciso que soubessem como instalar os corais no recife da melhor maneira”, explica Zé Pescador.

 

O conhecimento técnico foi sendo construído ao longo do tempo, por meio de capacitações e experimentação. Com isso, jovens da comunidade da Ilha de Maré foram treinados, combinando saberes tradicionais e científicos.

Zé pescador fala sobre os resultados do projeto na Baía de Todos os Santos

 

Agora, o projeto avança para novas áreas, expandindo suas ações. Esse crescimento fortalece os esforços de conservação marinha e amplia o impacto da restauração do ecossistema.

 

“A própria Carbono 14 também já está criando um outro sítio marinho, este da startup mesmo, para ampliar a produção de colônia e criar as condições para o projeto poder escalar. Na Península de Maraú existe um interesse do município em que se realize um projeto de restauração próximo às piscinas naturais de Taipus de Fora”, destaca.

 

O reconhecimento do projeto também se reflete na sua inclusão em políticas ambientais do estado da Bahia. A Secretaria de Meio Ambiente passou a priorizar a restauração de corais, garantindo suporte para a continuidade das ações. Com essa estruturação, a expectativa é atrair mais atenção para esse fenômeno e ampliar a conscientização sobre a importância dos recifes.

 

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Damilla Carmo é estudante de Jornalismo na Universidade Federal da Bahia (UFBA), apaixonada por moda, jornalismo digital e cinema. Acompanha de perto os principais lançamentos da sétima arte e atua como estagiária na Braskem, onde contribui com projetos de impacto social.

 

Kauane Brito é estudante de Jornalismo na Universidade Federal da Bahia (UFBA), atua como repórter na TVE Bahia e como assessora de imprensa na Berradêro Comunicação. Ama explorar a comunicação em todas as suas possibilidades.

 

O interesse pela pauta surgiu a partir da aproximação de Damilla com o tema. A pauta busca abordar uma questão ambiental que não está nos holofotes dos assuntos nos grandes jornais. Além de explicar o fenômeno, a matéria apresenta uma iniciativa que está se destacando na recuperação e preservação do ecossistema.

 

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