Não tenham pressa

*Marcela Villar

 

Se eu puder dar algum conselho para quem ainda está na faculdade é: aproveite. Não tenha pressa em se formar. Use e abuse desse tempo para experimentar, errar, voltar atrás, questionar, tirar todas as dúvidas que passam em sua cabeça por mais bestas que possam parecer e construir uma base sólida antes de partir para o mundo. Afinal, o mundo vai estar sempre lá e pouca coisa vai mudar em quatro anos. Já a graduação é, em tese, algo que fazemos uma vez só, por mais desafiadora que essa fase possa parecer.

 

Sei que pode ser difícil ler isso, porque eu também não via a hora de pegar o diploma. Não à toa, no último semestre do curso fiz outras duas disciplinas (inclusive essa oficina de jornalismo digital) simultaneamente ao TCC, porque queria acelerar a formatura e me dedicar 100% ao mercado de trabalho, ser repórter em grandes redações. Mas hoje penso como que a gente não precisa dessa pressa toda. Tudo tem seu tempo – e por mais que todo mundo esteja “sem tempo”, temos, sim, certo controle sobre ele.

 

Às vezes, você pode achar que não está no caminho certo ou que não é suficiente, mas de algum jeito, as coisas se ajeitam e acontecem. Eu não imaginava que dois anos depois de formada estaria cobrindo judiciário, basicamente como setorista de julgamentos tributários, recuperação judicial e conhecendo de cor a jurisprudência de determinados temas, no talvez único jornal impresso especializado em economia do país. E amando fazer isso. Ter seu nome e sua matéria citada por um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF)? Se alguém falasse isso para a Marcela que entrou na Facom no final de 2016, ela cairia na risada.

 

Jornalismo nunca foi um sonho, ao contrário de outros colegas de turma que já entraram sabendo que queriam jornalismo esportivo ou cultural, por exemplo. Parecia que eu estava ali de penetra, meio perdida. Tinha feito um semestre de Direito, mas vi que não era minha praia (o que é uma grande ironia considerando o que faço hoje). Quis ser atriz, devido aos mais de 10 anos de curso de teatro. Mas fui testar comunicação. E me apaixonei por ela. Fui percebendo que de uma forma ou de outra ela sempre esteve por ali – seja nas peças de teatro, seja nos trabalhos do colégio em formato de telejornal.

 

Para ser jornalista não acho que precise ter talento, mas curiosidade e insistência (e gostar, claro). Lembro como que meus primeiros textos na Facom saiam todos riscados de vermelho depois da correção e me achava a pessoa mais burra do mundo. “Isso não é um perfil” e “você não tem uma pauta, tem uma ideia” eram os rabiscos mais comuns. Mas depois de tanta repetição, fica mais fácil. Nada como o tempo e dar tempo ao texto.

 

Na faculdade, sempre gostava muito das discussões e aulas teóricas. Hoje entendo o porquê. São nesses momentos que a gente cria repertório, indaga, questiona e começa a ter uma visão crítica sobre determinado assunto, o que é essencial para um jornalista hoje. É ali que a gente pensa e não está em um piloto automático, problema comum a algumas redações. Em um mundo que todos têm pressa (especialmente jornalistas), parar para filtrar o conteúdo que merece e deve ser publicado virou coisa rara.

 

Por que está publicando isso? Qual o interesse que o leitor vai ter nesse assunto? Qual o contexto que essa história merece? A quem interessa que a matéria seja publicada desse jeito? Por que seria inédita? De que forma esse tema não foi abordado antes? Essas são algumas perguntas que tento me fazer antes de escrever.

 

A Facom me ensinou a questionar. A olhar para situações do dia a dia e perguntar: por que tal coisa funciona assim? E desde quando é assim? E é no texto escrito, a base de toda comunicação, que acredito que a gente consiga aprofundar mais essas questões. É nele e através dele que temos a possibilidade de aprender, todos os dias, um tema totalmente novo e contar para milhares de pessoas o que você apurou, pesquisou e ouviu de especialistas.

 

E para ter profundidade, é preciso de tempo. Mas não precisamos ter pressa. Cada texto tem seu próprio tempo – de leitura, de apuração, de escrita. Não abra mão, dentro do possível, das histórias que você acredita, por mais demore semanas para terminar, entender ou convencer seu chefe de que vale publicar. Quais histórias você quer contar, com o tempo que você tem?

 

*Marcela Villar é jornalista com atuação em São Paulo-SP. Já colaborou para a Agência de Notícias de Ciência e Cultura da UFBA, Rádio Metrópole, Jornal Correio, TV Bahia, Estadão, Broadcast e hoje escreve para o jornal Valor Econômico, na cobertura do Judiciário. Cursou um ano da faculdade de comunicação na Sorbonne Nouvelle-Paris III, pelo programa de mobilidade acadêmica da UFBA. Faz pós-graduação em jornalismo de dados. Foi da turma de 2016.2 de Jornalismo na FACOM | UFBA e passou pela disciplina Oficina de Jornalismo Digital como aluna no semestre 2021.2, sob a condução da Profa. Lívia Vieira. Criou o Podcam, primeiro podcast sobre a Câmara de Vereadores de Salvador, um produto do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) orientado pela Profa. Lívia Vieira.

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