Neopaganismo, inteligência artificial e o jovem místico

Crenças alternativas têm ganhado popularidade, e o ChatGPT pode ser uma influência

 

Eduardo Sanches (@du.sanches) e João Moura (@_joaomarcus)

 

Quantas vezes ouviu-se falar da figura do “jovem místico”? Um personagem alternativo, transgressor e esotérico, adepto a cartas de tarô, incensos e cristais de energia. O estereótipo circula nas redes sociais e paira sobre o imaginário popular brasileiro há alguns anos. Mas, agora, a utilização intensa de inteligência artificial (IA) surge como uma possível potencializadora do resgate de costumes relacionados ao neopaganismo, e exprime o que pode vir a ser uma tendência mundial.

 

O neopaganismo refere-se ao culto a crenças antigas, perseguidas pelo cristianismo por séculos, como a Wicca, o Druidismo – de origem celta – e o Xamanismo. Todas elas estão associadas a práticas consideradas místicas ou ocultistas, que envolvem oráculos, manejo de plantas, rituais com amuletos, conexão espiritual e outras magias. Números ao redor do mundo mostram um aumento na adesão a essas formas de religiosidade, e o Brasil não está de fora.

 

Por mais discretos que sejam, no que diz respeito ao neopaganismo, dados do Censo IBGE (2022) indicam um crescimento de 1,3% de religiões alternativas – outras – no país.

 

 

Religiões pagãs, apagadas ao longo da história, renascem das cinzas e voltam a crescer. É o que aponta o jornalista, especialista em espiritualidade e magia popular, Antonio Pagliarulo, na coluna de opinião “THINK” (2022), do veículo estadunidense NBC News. O autor, cujo livro de 2023, The Evil Eye (do inglês: O Olho Malígno), tem o prefácio assinado por Judika Illes, escritora autointitulada bruxa, teve produções publicadas também em jornais como Washington Post e New York Daily News.

 

E assim como a personalidade do jovem místico caiu na boca do povo, depois da reprodução on-line, usuários do X têm relatado experiências com oráculos e aproximação com atividades ocultistas em plataformas como o ChatGPT.

 

O fim dos tarólogos?

 

Os oráculos são diferentes tipos de instrumentos de adivinhação que, segundo a crença, funcionam a partir de influência espiritual. Existem baralhos, pêndulos e tabuleiros, em diferentes culturas, que podem ser utilizados para responder a uma variedade infinita de perguntas. O tarô, oráculo europeu, mais conhecido pelo público geral, demanda a intervenção de um intérprete – tarólogo – para traçar o caminho subjetivo da resposta revelada pelas cartas.

 

Com uma rápida pesquisa na barra de busca do X, a partir de palavras-chave simples como “tarô” e “ChatGPT”, é possível encontrar uma série de menções:

 

 

 

 

 

 

 

Estudiosos do tema, no entanto, sinalizam que utilizar plataformas de inteligência artificial como oráculos significa, no mínimo, enganar a si mesmo.

 

Para Hérion Alves, taróloga há seis anos e ex-integrante do Conselho Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Céltico (CBDRC), até o momento, nenhuma IA criada tem competências essenciais específicas, inerentes ao ser humano, para mediar interações com um oráculo.

 

“A inteligência artificial não possui o arcabouço simbólico necessário para interpretar as simbologias e subjetividades do tarô, por exemplo. Nós fazemos isso de forma natural, é parte da experiência social humana. Além disso, é preciso lembrar que a IA está ali para te agradar, para que você não pare de usar. Quase sempre, as respostas serão enviesadas”, explica Alves.

 

Hérion é estudante do Instituto de Letras na UFBA, e natural de Saquarema (Rio de Janeiro). Praticante do paganismo celta há quatro anos, suas crenças estão concentradas em tradições de povos que viveram na Escócia e na Irlanda, séculos atrás. Ela conta que descobriu os movimentos de neopaganismo por meio de grupos religiosos na internet e comenta como as experiências on-line podem levar a uma aproximação com essas práticas:

 

“As trends realmente acabam gerando uma procura maior. As ferramentas de IA não são capazes de fazer o que um especialista que domina a técnica faz, mas elas podem direcionar esse interesse e até ajudar no aprendizado. Se forem pensadas como um recurso de pesquisa, que sugere sites, livros e artigos sobre o assunto, o uso é totalmente válido”.

 

Hérion Alves, à luz de velas, atrás de um tabuleiro celta – Ogham. (Foto: João Moura)

 

No TikTok, influenciadoras como “Mirtilo” (@verrugadabruxa) e “Thay” (@abruxaprospera) abordam temáticas relacionadas à bruxaria moderna de maneira irreverente, alcançando um público mais diverso.

 

Ainda que a volta do paganismo soe como uma incógnita, seu avanço – gradual, mas sólido – deixa evidente que há muitos espaços a serem reconquistados.

 

Para aprender os termos:

 

 

Eduardo Sanches – Estudante de Jornalismo na FACOM | UFBA e estagiário de comunicação na Fundação Cultural do Estado da Bahia (FUNCEB)

 

João Moura – Estudante de Jornalismo na FACOM | UFBA, estagiário de comunicação no SENAI CIMATEC e monitor no Laboratório de Fotografia (LABFOTO | UFBA)

 

A pauta surge de uma curiosidade por aquilo que é pouco visto. Descobertas sobre tarô e misticismo na universidade, experiências cotidianas e reflexões nos levaram ao consenso de que algumas histórias merecem ser contadas.

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