Centro cultural realiza festa que é manifestação política e cultural contra a gentrificação na Ladeira da Preguiça, em Salvador
Giovanna Araújo (@giovannadaraujo) e Rafael Carmo (@rafa_carmooo)

Na cidade que tem como marca registrada uma das maiores festas de rua do mundo, uma parada se tornou quase obrigatória nos últimos anos. Para quem gosta de curtir os eventos pré-carnaval, a festa Banho de Mar à Fantasia virou um verdadeiro ícone em Salvador.
As comemorações que dão boas-vindas à nova temporada da folia são tradicionais na capital baiana, mas o Banho de Mar é diferente. Não só pelo agito do público, pela visibilidade que dá aos artistas locais ou pelo tradicional banho de mar ao fim da festa. O evento vai muito além disso: é uma manifestação política e cultural pelo direito à cidade e à moradia na Ladeira da Preguiça.
Chamado à resistência
O movimento que reúne centenas de foliões na Preguiça já existe há muito tempo. Os festejos na comunidade começaram nos anos 1920 e, depois de quase 90 anos das suas primeiras edições, a festa foi resgatada a partir do surgimento do projeto social “Centro Cultural Que Ladeira é Essa?”, em 2012.
Nilma Santos, de 34 anos, e Marcelo Teles, 40 anos, criaram o centro cultural como uma forma de ocupar a Ladeira da Preguiça e fincar as raízes da cultura e do esporte em um espaço esquecido pelo poder público. O casal, porém, não parou por aí. Eles se capacitaram e também criaram a produtora Dusdois, que tem sede na Avenida Sete de Setembro, no centro de Salvador.
É a Dusdois que organiza e faz o Banho de Mar acontecer. A festa é referência no pré-carnaval da cidade, mas acima de tudo é um verdadeiro chamado à resistência.

A ideia é atrair o folião com o nostálgico e envolvente som das charangas misturado com músicas que embalam o dia-a-dia soteropolitano para lutar contra a gentrificação crescente em toda a área próxima à Bahia Marina, zona nobre e reservada ao turismo de luxo.
Mas diante de um movimento que reuniu mais de 200 mil pessoas rotativas em 2024, como manter vivo o propósito da festa em um momento de tanta euforia com a chegada do Carnaval?
“A gente faz formações políticas com a comunidade e não deixa nosso viés político, de luta. Então, a gente coloca faixas enormes ao longo da comunidade falando sobre as nossas inquietações, trazendo nossos debates. A gente não deixa em nenhum momento isso falhar”, destaca Nilma.

Apesar de ser apenas uma pequena parte do que é o centro cultural, o Banho de Mar é uma importante fonte de renda para os moradores da Ladeira da Preguiça. Desde o início do ano, eles já se preparam para vender seus produtos no dia do evento e garantir a renda.
Esse é o caso de Zenaide Marques, 56 anos, vizinha do centro cultural e uma das figuras mais populares da localidade, que já prepara as feijoadas com antecedência para vender no dia do Banho de Mar.
Famosa pelo prato saboroso já garantido em toda edição do evento, Zenaide conta que chega a receber em torno de R$16 mil em um dia de Banho de Mar. Apesar de uma parte ser destinada para cobrir os investimentos para a festa, a cozinheira garante que o dinheiro ainda sobra e é essencial para seu abastecimento anual, e destaca sua confiança em investir no evento com a certeza do retorno financeiro.

“Eu tenho muita confiança no Banho de Mar, porque aqui a festa é uma festa diferenciada. É uma festa da cidade, as pessoas vêm para cá sabendo que elas podem ser elas mesmas”, explicou.
Muito antes do Banho de Mar
A festa ganha ainda mais significado quando é relacionada com a história da Ladeira da Preguiça. Muito antes de existir o Banho de Mar à Fantasia, ainda no período colonial, a Preguiça era uma importante passagem entre a zona portuária e a “cidade alta”, moradia da elite soteropolitana.
O historiador e mestre em educação Ricardo Carvalho resgata as origens desse local que um dia foi um dos mais movimentados de Salvador.
“A Ladeira da Preguiça cumpria um papel fundamental na atividade social e comercial em Salvador no período colonial. Por ser uma cidade dividida em dois patamares, a “Cidade Alta” e a Cidade Baixa, tinha uma distância entre um local e outro de cerca de 60 metros de altura. A Ladeira da Preguiça fazia essa conexão dos produtos que chegavam, das pessoas que chegavam até a parte alta da cidade, onde estava a região de moradias, principalmente dos setores mais opulentos da sociedade baiana”.
“Muitas vezes os escravos subiam com os produtos nas costas e ouvia-se muito as pessoas gritando das janelas “bora, preguiça”, “força, preguiça”… Aí a expressão Ladeira da Preguiça ficou marcada como o nome dessa ladeira, que ligava a parte baixa com a parte alta da Salvador colonial”, completou.

Mas aos poucos a Preguiça perdeu o seu agito. O local que antes era um ponto comercial importante e uma das principais ligações entre a “Cidade Alta” e a Cidade Baixa, enfrentou o abandono e o consequente esquecimento público.
Hoje, a Ladeira da Preguiça é vista como um ponto arriscado da cidade, com o estigma de ser morada de usuários de drogas e pessoas em situação de rua. Enquanto a reportagem esteve no local, policiais faziam rondas e as ruas estavam desertas, só com o movimento de alguns moradores.
“Uma série de fatores contribuíram para que a Ladeira da Preguiça, uma via tão frequentada e agitada, fosse perdendo sua importância. A construção dos ascensores, dos planos inclinados, o próprio Elevador Lacerda acabou tirando o fluxo da Ladeira da Preguiça, o aumento da periculosidade e a mudança do polo econômico, social e cultural da cidade, que foi para a orla norte da cidade. Isso fez com que a região ficasse esquecida, apesar da sua riqueza arquitetônica e pelo seu papel histórico. A região foi ficando de lado como uma área de visita frequente para quem estava em Salvador”, explicou Ricardo.
O presente e o passado andam lado a lado
Apesar desse passado próspero, a Ladeira da Preguiça tem em seu nome as marcas de um período sombrio da história do Brasil, um tempo em que escravizados eram explorados ao extremo e viviam apenas para servir a classe dominante no período colonial. É por isso que Marcelo Teles não quer retomar a essência da Ladeira da Preguiça. O intuito é criar uma nova história longe das mazelas da escravidão.
“A essência daquele local que nós não conseguimos ver, mas está na literatura, é que as pessoas que foram levadas para lá sequestradas de África, elas morreram na ladeira desnutridas. Nossa infância teve violência policial, a gente já presenciou o vício na cola, na cola de sapateiro, entorpecente na década de 90, era algo comum, a gente viu centenas ou dezenas de crianças sendo espancadas pela polícia na Ladeira da Preguiça”, lamenta Marcelo, nascido e criado na comunidade.
“Então a gente viu uma juventude sendo encarcerada na Ladeira da Preguiça, a gente viu uma juventude sendo exterminada na Ladeira da Preguiça. Então, se a gente for analisar o que é a essência desse lugar, é isso. Para mim não gera incômodo nenhum perder essa essência”, completou.

Atualmente, as cicatrizes desse período se manifestam de outras formas. Agora, a elite que antes morava na “Cidade Alta”, é representada por grandes imobiliárias que se expandiram pela região da Bahia Marina e querem construir no território da Ladeira da Preguiça, em um processo conhecido como gentrificação, como detalha Regiane Oliveira, pesquisadora e professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).
“Pensar a gentrificação é perceber que esses bairros pobres, normalmente bairros operários, muitas vezes situados nas regiões centrais da cidades, acabam sendo reformados. É a partir da entrada do capital especulativo, do capital financeiro, que eles são reformados e, por conta disso, você tem um crescimento exponencial do valor das moradias. Os antigos moradores acabam sendo expulsos. Uma coisa comum também é você ter bairros pobres que têm um histórico de queda do poder aquisitivo dos seus habitantes, bairros que vão se tornando com o tempo até violentos. Ele é um fenômeno muito mais característico de regiões centrais da cidades do que efetivamente de regiões periféricas”.
O local tem posição privilegiada no Centro de Salvador. Próxima à Avenida Sete e ao lado do Pelourinho, a ladeira poderia muito bem estar na rota turística da cidade, já que também fica perto de pontos como Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, Elevador Lacerda, Mercado Modelo e uma infinidade de museus no Centro da capital baiana.
“Sem sombra de dúvida as cidades turísticas tendem a potencializar ainda mais a dimensão da gentrificação, que é um processo de ‘turistificação’, porque, efetivamente, quem é o público consumidor dessa cidade gentrificada é um público que tem um determinado poder aquisitivo, que muitas vezes exclui a imensa maioria das pessoas que residem em um determinado local. Eu não estou colocando isso só numa perspectiva do Sul, mas também na perspectiva do Norte Global”, completa Regiane.
Mapa elaborado pelos autores desta reportagem
Para Marcelo Teles, fundador e coordenador do centro cultural e da Produtora Dusdois, ligada ao projeto, a especulação imobiliária foi o fator que impulsionou a organização política em torno da Ladeira da Preguiça. “Com isso, você tem um valor exponencial das moradias e a expulsão dos antigos moradores que, de fato, passam a não ter mais condição de viver nesses lugares. Ele é um fenômeno muito mais característico de regiões centrais da cidades do que efetivamente de regiões periféricas”.
“A especulação imobiliária não descansa. É um fenômeno que acontece em todo o Brasil”, afirma Teles.
Para afastar o fenômeno da gentrificação da ladeira e a insegurança da comunidade em relação à moradia, a saída encontrada foi fortalecer a luta através da visibilidade do Banho de Mar à Fantasia e, consequentemente, das ações do centro cultural.
Sonho que se sonha junto
Morador da comunidade, Marcelo Teles acredita que o apoio da população da região ao projeto se deu pela necessidade de lutar pelo espaço na Preguiça. Com cursos sobre política e ciência sociais, além de atividades artísticas e esportivas, o centro busca ampliar o entendimento dos moradores sobre o direito à cidade e a importância do movimento em conjunto.
“As pessoas da Ladeira da Preguiça serem donas da Ladeira”, afirma Teles sobre o maior objetivo da luta no centro.

Nesse sentido, o centro incentiva os moradores a serem, literalmente, os donos dos espaços da comunidade. Segundo o coordenador do projeto, a expectativa é que o dinheiro recebido com o Banho de Mar sirva para a compra de imóveis e terrenos não ocupados na Preguiça, uma forma de frear a especulação imobiliária e garantir o direito à cidade desses indivíduos.
“Esse é o grande processo, utilizar o capital do Banho de Mar à Fantasia para a compra dos imóveis, de forma que não fique concentrado em pequenos grupos ou em quem tem mais poder. A gente consegue manter um plano ali e fazer, olha, isso aqui dá pra gente fazer, levantar de forma barata para que a gente consiga um financiamento público enquanto um projeto de habitação popular”, explicou.
Outro projeto proposto pelo centro para propor a melhoria das moradias da comunidade é o Retintas. Durante as semanas que antecedem o Banho de Mar à Fantasia, moradoras redecoram e embelezam as fachadas das suas casas.
“Essas mulheres tendo autonomia para cuidar das próprias casas, já que a gente sabe que as mulheres são abusadas porque colocam homens para trabalhar, já que a gente sabe que às vezes são mães sozinhas, mães solteiras”, afirmou Marcelo.
“Então a gente pintava, os homens pintavam 40 casas em um final de semana. A gente fez uma programação de um mês de evento, pinta o melhor número de casa, porém gera vários cursos, várias discussões, as mulheres ali dentro desse processo organizando tudo e ficou uma parada muito melhor, muito mais organizada. Todo ano. Acontece no mês de setembro. Que é a data de aniversário do centro cultural”, completou.

Moradora da Ladeira da Preguiça desde 2011, Zenaide Marques participa do “Retintas” todo ano. Nascida em Garanhuns, interior de Pernambuco, sua história na ladeira coincide com o início do centro cultural e do Banho de Mar à Fantasia.
A cozinheira é uma das figuras mais conhecidas do local. Durante a entrevista, Zenaide recebeu vizinhos, netos e demais crianças do bairro. Para ela, o projeto alterou por completo a dinâmica da comunidade.
“Se não fosse o centro cultural, a gente já teria saído faz tempo”, declara Zenaide.
“Nossos pequenos que estão vindo agora já estão mais conscientes. Eles têm aula de formação política, têm mais consciência de que precisam lutar para pertencer ao lugar, senão não adianta. Não adianta você dizer que você mora na Preguiça, que você quer ficar na preguiça e você não lutar por isso, não ir para rua fazer manifestação. Então, eu quero que meus netos sigam isso aí. Quero que eles se lembrem de mim, da avó deles que lutou para eles estarem aqui”, finalizou.

O futuro do Banho de Mar
O Centro Cultural Que Ladeira É Essa? foi o símbolo de resistência para a comunidade da Ladeira da Preguiça nos últimos anos diante da especulação imobiliária. E é justamente dentro do centro que os moradores encontram a esperança de um futuro melhor.
Não só pelas aulas de idiomas, teatro ou esporte, mas também pelas manifestações culturais que o projeto promove. A principal delas, é claro, o Banho de Mar à Fantasia. Afinal, nada mais simbólico para lutar contra a gentrificação e a especulação imobiliária do que colocar milhares de pessoas para ocupar as ruas da comunidade em ritmo de festa.

O público do evento vem se multiplicando a cada ano. Segundo os organizadores, a festa começou com cerca de 200 pessoas e, em 2019, ano pré-pandemia, o número chegou a 50 mil. De acordo Marcelo Teles e Anderson Farias, o evento já conta com uma quantidade considerável de aporte financeiro por parte dos patrocinadores, principalmente de cervejarias, porém os valores não foram revelados.
A partir daí, o Banho de Mar não parou mais até chegar às 200 mil pessoas rotativas no ano passado. E a expectativa é que esse movimento cresça ainda mais em 2025, como projeta Anderson Farias, um dos coordenadores e fundadores do centro cultural, ao lado de Marcelo e Nilma.
“Acho que a gente tá preparado para o crescimento. A gente sempre vai ajustar, cada ano vai aparecer uma novidade. A nossa principal preocupação é com a segurança das pessoas. Acredito que não tem previsão para que o Banho de Mar à Fantasia mude de lugar. A festa vai acontecer na Ladeira da Preguiça, e todo mundo vai ter que se adequar ao processo”, aponta Anderson.
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Giovanna Araújo é graduanda em Jornalismo pela UFBA, estagiária de redes sociais do Grupo A Tarde, e interessada em pautas relacionados à cidade e festejos populares.
Rafael Carmo é jornalista em formação pela FACOM UFBA e é estagiário da Rádio BandNews. Rafael também tem interesse em temas relacionados às manifestações culturais e gentrificação.
A principal motivação para a escolha do tema foi contar a história de uma das principais festas pré-carnaval de Salvador, o Banho de Mar à Fantasia, que também está ligada à luta contra a gentrificação e pelo direito à cidade na Ladeira da Preguiça.