3,6 milhões de visitantes devem circular durante o período na capital, considerada o segundo destino mais procurado para o fim de ano.
Leo Prado (@leopradoxs) e Thyffanny Ellen (@thyffannyellen)
Com a chegada do Verão, a capital baiana vive a expectativa por meses de aquecimento intenso no mercado de turismo. A espera é fruto de um momento de crescimento do setor para a cidade e o estado da Bahia, que parecem ganhar cada vez mais o coração de visitantes nacionais e estrangeiros.
A partir do cenário positivo, que indica uma alta constante, a Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (Secult), por meio do Observatório do Turismo, realizou projeções para o verão 2025/2026. A estimativa é que 3,6 milhões de turistas venham à cidade. Tal número aponta um crescimento de 7% ao mês, valor que, se confirmado, superará o mesmo período de 2025 em mais de 239,6 mil visitantes.

Neste cenário, a receita a ser gerada em 2026 seria de R$8 bilhões, montante superior ao Verão de 2025 em cerca de R$528 milhões. Caso consolidado, o lucro gerado pelos visitantes aos cofres municipais será de R$1,6 bilhão maior do que o verão de 2023/2024.

A “queridinha” do Brasil
Salvador já se mostra um dos destinos mais desejados pelos turistas para passar as festas de fim de ano, que coincidem com o início oficial do Verão. A informação é comprovada pelo relatório do Kayak, um dos principais metabuscadores de viagens do mundo, que coloca a cidade como o segundo destino mais procurado do Brasil para o período, atrás apenas de Recife (PE), superando cidades como Maceió (AL), São Paulo (SP), Fortaleza (CE) e Rio de Janeiro (RJ). Em sétimo lugar ainda figura a cidade de Porto Seguro (BA), que fica na frente de Porto Alegre (RS) e João Pessoa (RS) no “top 10” do ranking. A pesquisa é baseada em buscas realizadas entre janeiro e setembro deste ano, feitas por brasileiros que desejam viajar entre 20 de dezembro e 10 de janeiro de 2026.

De acordo com dados do Observatório, cerca de 8.048.013 pessoas visitaram a cidade até outubro, número 5,1% maior que na mesma época de 2024, quando foram somados 7.656.846 turistas. Este fluxo movimentou aproximadamente R$17,7 bilhões, número também 5,1% maior que o do ano passado, em que a receita turística da cidade somou R$16,8 bilhões.
Segundo a secretária de Cultura e Turismo e vice-prefeita de Salvador, Ana Paula Matos, o crescimento do setor está ligado ao planejamento e à divulgação antecipada das programações, que ajudam o visitante a organizar melhor a viagem. “Salvador vive um momento muito especial, a cidade se organiza melhor, amplia sua oferta cultural e fortalece a sua identidade. O turista de hoje chega mais conectado às narrativas de Salvador e mais interessado em vivências que integrem cultura, afroturismo, gastronomia e natureza”, afirma.
Iniciativas que consolidam a cena cultural como o Festival Salvador Capital Afro, que movimenta a cidade durante o novembro negro e o projeto Viver Salvador, que reúne desde atividades artisticas até esportivas, são atrativos turísticos expandidos neste ano e trazem uma experiência diversificada. “A cidade está sendo vivida de forma mais plural, mais profunda, e isso tem se refletido diretamente no tempo de permanência e na satisfação de quem nos visita”. Além disso, a manutenção de outros espaços também amplia esse cenário, a exemplo da requalificação do Centro Histórico, a consolidação do Espaço Cultural da Barroquinha, a Galeria Mercado, a Cidade da Música, a Casa do Carnaval, além de novos espaços como o Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab) e o Centro de Interpretação da Mata Atlântica (CIMA).
Segundo Ana Paula, o aumento do fluxo turístico traz desafios para o planejamento integrado, mas há o monitoramento diário da manutenção dos espaços públicos, organização do fluxo nos bairros mais procurados, qualificação dos serviços e ampliação da informação ao turista. “Trabalhamos em conjunto com outras secretarias para garantir ordenamento, segurança, limpeza e mobilidade. Nosso objetivo é oferecer uma experiência acolhedora, leve, que traga memórias afetivas e faça com que o turista retorne”, disse.
Para David Costa, diretor da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis da Bahia, o estado e a cidade ainda vivem alguns impasses para uma expansão ainda maior do mercado turístico. “Existem algumas travas. Os vôos ainda são um pouco limitados, e os preços também são altos. Para chegar em Salvador, muitas vezes é difícil, por conta das conexões necessárias. Também tem a questão da segurança, Salvador ainda é vista como uma cidade muito violenta. A vida noturna também não é tão movimentada como já foi no passado. Todas essas questões, se amenizadas ou resolvidas, tornarão esse crescimento ainda mais expressivo”.
Apesar da fase positiva, David também ressalta que os dados, em geral, ainda não superam os valores que atingiam antes da pandemia da Covid-19. “Estamos vindo em uma crescente, ano após ano. Mesmo assim, ainda não chegamos nos números de antes. Estamos perto, temos um potencial grande, então a perspectiva é alcançá-los logo”.
Mesmo com o impasse em relação a vôos, como nota o diretor, o crescimento do mercado se mostra mais significativo se analisada a presença cada vez maior dos turistas internacionais, quesito que rendeu recordes para a Bahia ao longo do ano de 2025. Segundo dados da Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur), o estado recebeu mais de 166 mil visitantes estrangeiros entre janeiro e outubro, superando o recorde, até então, de todo o ano de 2019, quando foram registrados 152 mil. Somente em setembro, a Bahia recebeu 15.940 deles, 29,6% a mais que no nono mês de 2024, quando este número foi de 12.297.

Nestes dez meses, os aeroportos baianos tiveram um aumento de 56,5% na chegada de turistas de outros países, em comparação com o mesmo período de 2024. No Nordeste, o crescimento foi de 47,4%, enquanto no Brasil ficou em 42,2%. Em número de desembarques, a Bahia superou Pernambuco e Ceará, que registraram 80,7 mil e 90,4 mil, respectivamente.
Referente ao primeiro semestre do ano, ainda de acordo com a Embratur, o número de desembarques internacionais, com total 99.958 turistas, foi o segundo maior na série histórica referente ao período, atrás apenas de 2007, quando o registro ficou em 101.730. O estado também ocupou o terceiro maior crescimento percentual entre as unidades da Federação, com 62% entradas a mais que nos seis primeiros meses de 2024, quando a marca foi de 61.669. Atualmente, a capital possui conexão direta com seis destinos internacionais: Paris, Madri, Lisboa, Buenos Aires e Montevidéu e Cidade do Panamá.
2025 de recordes para Bahia
De dezembro a fevereiro, Salvador vive o auge do turismo, num movimento que só desacelera após o Carnaval – que, este ano, recebeu cerca de 11 milhões de pessoas e entrou para o livro Guinness como o maior Carnaval de trio elétrico do mundo. A programação, geralmente marcada por atividades acessíveis, permite que diferentes públicos aproveitem a cidade.
A época, vista pela secretária como “um grande palco aberto”, reúne diferentes públicos que chegam à cidade em busca dos ensaios, festivais e do clima que antecede o Carnaval. Para ela, esse período consolida a cidade como destino desejado. “Também observamos um perfil cada vez mais diverso, famílias, grupos de jovens, turistas internacionais e brasileiros de todas as regiões. O Verão fortalece a economia, gera empregos e reforça Salvador como destino desejado o ano inteiro”.
No contexto estadual, a expectativa da Secretaria de Turismo do Estado (Setur-BA) confirma a boa fase, com a previsão de que mais de dez milhões de visitantes circulem pela Bahia durante toda a estação. Se alcançado, o número superaria o recorde de 9,4 milhões da alta temporada anterior, entre 2024 e 2025. A pasta ainda informa que, durante esse tempo, a malha aérea estadual vai operar com linhas extras, totalizando 1,6 milhão de assentos em voos nacionais e internacionais, 220 mil a mais do que na última vez. A arrecadação estimada para os cofres do Governo do Estado é de R$24 bilhões ao longo de três meses, como revelou o titular da Setur, Maurício Bacelar, em coletiva de imprensa em novembro deste ano.
Mas os números animadores não se restringem à época veranil. A última pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre o volume das atividades turísticas no país mostra que a Bahia mantém um crescimento acima da média nacional referente ao setor. De janeiro a setembro de 2025, o turismo baiano registrou um aumento de 7,8%, enquanto no Brasil o crescimento foi de 5,7%, em comparação com o mesmo período de 2024. No recorte do mês de setembro, o estado teve alta de 7,2%, no comparativo com o mesmo mês do ano anterior, sendo que no país, o aumento foi de 4,6%. Entre os destinos mais populares, além de Salvador, estão Chapada Diamantina, Porto Seguro e Morro de São Paulo.
A avaliação dos visitantes
A francesa Nadina Hellegouarch, de San Rafael, decidiu voltar ao estado após 16 anos, acompanhada do marido. Desta vez, Salvador foi apenas a primeira parada de uma viagem de cinco semanas pelo Nordeste, voltada para esportes como kitesurf e trilhas. Na capital, onde passou apenas dois dias antes de seguir para a Chapada Diamantina, Nadina dedicou o tempo a visitar igrejas, fazer compras no Mercado Modelo e revisitar lugares que não conseguiu ver completamente na primeira viagem. Ela afirma que não precisava de um motivo especial para retornar: “A gente volta porque gosta. Salvador tem algo único”.

Mesmo com a estadia curta, ela percebeu mudanças na cidade. Diz ter gostado da música, da comida e, principalmente, das pessoas, que descreve como “mais calorosas do que na França”. Na primeira noite, caminhou pelo Centro e ficou surpresa com o movimento intenso, mas sem sensação de violência. Também notou a forte presença policial, algo que, segundo ela, reforça a tranquilidade para turistas. Por outro lado, criticou a experiência na pousada onde ficou: “O prédio é bonito e antigo, mas a cama era desconfortável e faltava serviço de quarto. Para os europeus, o serviço é muito importante”. Ainda assim, Nadina afirma que a experiência foi positiva e que vê Salvador como um destino que pretende voltar.
A falta de cuidado com os espaços públicos também é uma reclamação aparente, como relata o argentino Carlo Bianciotti, de Córdoba. “O que não me agrada é que as pessoas sejam desordenadas. Vejo lixo no chão e praias sujas. São lugares muito lindos, mas às vezes não são cuidados”, observa. Ainda assim, ele destaca que a cidade “é linda, rica em cultura, cheia de gente muito boa” e afirma que voltaria a Salvador: “Superou minhas expectativas, me encanta muito”.

A curiosidade pela história da cidade foi que trouxe o Bianciotti para uma estadia de uma semana. Ele conta que decidiu viajar depois de acompanhar conteúdos nas redes e descobrir “um lugar muito rico em cultura religiosa e histórica, com esse choque entre africanos, portugueses e os baianos do próprio lugar”. Para ele, a combinação entre praias, arquitetura e diversidade cultural fez a viagem valer o percurso de seis mil quilômetros até o Brasil. “É linda, tem praias divinas e uma história que me encanta”.
Segundo David Costa, a previsão é de que, durante a estação, a ocupação hoteleira na capital baiana ultrapasse os 80%, mas com picos de 100% em empreendimentos do Centro Histórico e Orla. Ele ainda afirma que, apesar dos meses de maior força se concentrarem entre dezembro e janeiro, o crescimento vem gerando a expectativa para meses considerados “fracos”. “Em março tem o aniversário da cidade, por exemplo, que traz uma movimentação devido a grade de eventos promovidos. Em abril terá o show do Guns n’ Roses na Fonte Nova, tudo isso influencia”, comenta.
Costa explica que os números positivos e o crescimento, principalmente de estrangeiros, podem ser atribuídos a um trabalho de promoção dos destinos turísticos do estado. “É um trabalho muito forte de ‘bastidores’, levando a imagem de Salvador e da Bahia para o mundo. Nós, juntamente ao Governo do Estado e à Prefeitura, vamos para eventos fora do estado e do Brasil para ‘vender’ a nossa região”.
Ele ainda observa que as visitas não costumam se limitar a um único local. “Recebemos muitos turistas que fazem um tour pelas cidades do estado. Chegam na capital, passam uns dois dias, depois seguem para Morro de Chapéu, depois Porto Seguro, e assim por diante. Eles vêm em busca de conhecer a nossa cultura, a música, a dança, a gastronomia. A Chapada Diamantina também, por exemplo, recebe turistas do mundo inteiro, em busca de atrações como as trilhas na natureza e os esportes radicais”, diz.

Outra visitante, Yvonne Iseli é sueca e decidiu emendar o passeio na capital baiana com uma ida à Brasília (DF) após conhecer a cidade através das redes sociais, atraída pela cultura e natureza local, como diz. “Estava navegando nos serviços de turismo online e me deparei com a cidade. Logo de cara, achei o lugar lindo e decidi vir, queria ver de perto”.
Nos sete dias que passou em Salvador, ela destaca o Centro Histórico como um de seus passeios prediletos. “Eu realmente aprecio a cultura daqui. Eu acho que a cidade passa uma mensagem muito importante, pela história que possui”.

O local também foi o que atraiu Renan Iegoroff, de São Paulo (SP), que veio acompanhado da esposa e da filha ainda bebê. Ao todo, ele ficou dez dias na capital, e, além do Pelourinho, conheceu locais como o Farol da Barra, Ondina e as praias do Litoral Norte. “Escolhemos como o nosso lugar do passeio familiar de férias, por termos interesse na história que o local carrega. Chegamos até a montar um roteiro de viagem todo pela internet”, conta.
“Gostamos bastante, principalmente pela gastronomia e por essa parte histórica. O pessoal é bem educado, receptivo com nós turistas. Uma ou outra abordagem acaba sendo um pouco mais chata, mas de forma geral é bem tranquilo”, completa, avaliando a estadia.
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Leo Prado é de Salvador (BA) e estuda Jornalismo na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. Atualmente estagia na assessoria de comunicação da Secretaria da Segurança Pública da Bahia (SSP/BA), e já atuou como repórter do jornal A Tarde na editoria Salvador.
Thyffanny Ellen é de Livramento de Nossa Senhora (BA) e estuda Jornalismo na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. Atualmente estagia como repórter do jornal A Tarde na editoria Salvador.
A ideia desta pauta surgiu a partir da percepção de um bom momento vivido pelo turismo na cidade de Salvador, tanto em números, quanto midiaticamente. A partir disso, a reportagem buscou comprovar essa hipótese a partir dos números e dados revelados. Mas para além disso, entender quem são os visitantes que vêm para a capital e quais as principais impressões sobre o local, analisando quais entraves ainda existem para maior expansão do setor.




