Do Black Rio à cena black de Salvador

Como o Charme encontrou um novo corpo em Salvador

 

Ana Francisca (@a.annafran) e Júlia Naomi (@vhjulianaomi)

 

No início da noite, as luzes da cidade começam a piscar, misturando-se ao brilho hipnótico dos palcos. Caixas de som ecoam com batidas envolventes do R&B e da Black Music, e convidam os corpos a se moverem em sincronia. Nos bailes Charme, os passos elegantes e instintivos criam coreografias espontâneas, transformam as ruas em pista de dança e celebram a cultura negra em Salvador.

 

Foto: Reprodução / Baile Charme Salvador

 

Era exatamente este movimento que o jornalista Alexandre Simão, procurava, mesmo sem saber.  Ele conta que chegou ao Charme quase por acidente, em busca de algo com que se identificasse. Tentou outras modalidades, até que se deparou com o perfil da professora de dança da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb), Ana Paula Cruz.

 

“Me joguei totalmente no escuro, fui fazer a primeira aula sem saber nada e então me apaixonei”, conta, destacando o acolhimento e pertencimento que sentiu desde o primeiro contato, tanto pela identificação com a música quanto pela naturalidade da dança. 

 

“Eu vi que tinha muita Black Music, que é um gênero com o qual me identifico. Ouço muito hip hop, principalmente. Também vi que os passos eram mais de boas, porque são cíclicos, terminam e começam de novo. Então é mais tranquilo, se você errar consegue pegar [o ritmo novamente] no meio do caminho. Me senti muito representado, acolhido e pertencente àquele espaço”, conta Alexandre.

 


Essa experiência ajuda a entender o impacto do Charme em Salvador. Na cidade, que já é marcada por fortes expressões de cultura negra – como o pagodão, o samba-reggae, os blocos afro e os paredões – o charme chega junto como mais uma camada de música e dança. Nas palavras de Alexandre, “é um movimento de valorização da dança de rua e do povo preto, da cultura e da arte brasileira”.

 

Os bailes Charme são uma importante manifestação cultural brasileira. Nascidos do movimento Black Rio entre as décadas de 1980 e 1990 nas zonas Norte, Oeste e Centro da cidade do Rio de Janeiro, o movimento tem como base a Black Music norte americana, englobando estilos como o Soul, Funk, Jazz e R&B (Rhythm and Blues).

 

O nome “Charme” foi dado por DJ Corello, que implementou o R&B no movimento. Ele reservava os últimos minutos dos bailes do Clube Mackenzie, na capital fluminense, para tocar um ritmo mais lento e compassado, com um movimento corporal elegante, dizendo para as pessoas dançarem com “charme”.

 

Dj Corello,responsável pelo batismo do movimento Charme. Foto: Reprodução via Grande Tijuca

 

A partir dessa base os bailes foram se desenvolvendo e a música classificada em dois eixos:  Flashback, que se refere às músicas mais antigas dos anos 70 e 80, e Midback, criadas a partir dos anos 90 até os dias atuais. O Charme se aproxima muito dos bailes Soul estadunidense dos anos 70, que se caracterizava como um movimento político cultural de afirmação da negritude. 

 

“Naquele momento, havia o anseio de incorporar o lema black is beautiful, lançado pelo movimento negro norte-americano, produzindo um registro contra-hegemônico sobre a cor negra (GIACOMINI, 2006). Nas paredes dos clubes cariocas onde aconteciam os bailes, eram projetadas frases e fotos dos próprios participantes, de atores e líderes políticos negros nacionais e internacionais, vistos como ícones em termos de um novo modelo de posicionamento racial a ser seguido pelos jovens”, descrevem as autoras Fátima Cecchetto, Simone Monteiro e Eliane Vargas, No artigo “Sociabilidade juvenil, cor, gênero e sexualidade no baile charme carioca”.

 

Em uma entrevista ao chargista Carlos Henrique Latuff, Dj Corello destacou a importância do ritmo para o Charme. “O R&B, se fosse uma mulher, seria uma mulher que gosta de flertar. Já flertou com o jazz, reggae, hip hop e o pop. O hibridismo faz com que continue vivo, vigoroso e faz dançar porque se renova sempre. A música é o produto sem ela o resto não permanece.”

 

Nesse sentido, a inserção dos bailes Charme em Salvador, também faz parte dessa tendência à transformação. O movimento ganha força na capital baiana por meio de projetos que buscam difundir e valorizar a estética, como o Baile Black SSA, criado em 2024. A iniciativa convida DJs e realiza aulões de Charme pela cidade. A próxima edição ocorre no dia 19 de dezembro, às 22 horas, no no UTHOPYA Clube RV.

 

 

 

Ver essa foto no Instagram

 

Um post compartilhado por uthopyarv (@uthopyarv)

 

Ana Paula Cruz, criadora do grupo e professora de Dança Charme certificada pela escola Rio Charme Social em Madureira, conta que conheceu o Charme por meio de um amigo, também professor de dança, e que este encontro com o movimento já começou de forma afetiva. “A musicalidade do Charme me pegou muito. Eram músicas que eu já ouvia na adolescência”, conta. “Quando conheci a dança, os bailes e a forma como isso acontecia no Rio, eu quis que isso também existisse aqui em Salvador.”

 

Ana Paula Cruz ensina dança Charme em aulão na Casa de Castro Alves, em Salvador. Foto: Reprodução / Instagram @anapaula.danca.charme

 

A profissionalização veio com o ingresso na Funceb, uma das instituições mais tradicionais da cidade, que é responsável pelo gerenciamento cultural no estado. Mas para Ana Paula, o Charme precisava sair da sala de aula. “Eu ensinava, mas os alunos não tinham onde dançar”. Assim, o Baile SSA Black nasce dessa falta e da necessidade de vivenciar na prática o que se aprende em sala.

 

Em Salvador, o Charme mantém sua base estética e musical. Segundo Ana Paula, a intenção nunca foi alterar o movimento, e sim preservá-lo. Os passinhos sociais, a musicalidade e a dinâmica do baile seguem os mesmos do Charme carioca. 

 

Ela acrescenta que a principal adaptação na capital baiana vem da incorporação de artistas locais de R&B, que também vêm impactando a cena original do movimento no Brasil. “Melly, que é uma artista de R&B daqui de Salvador, tem uma coreografia lá no Viaduto de Madureira, no Rio. Então as realidades não são tão distantes, existem artistas daqui que estão por lá também tocando nos bailes do Rio de Janeiro.”

 

 

Mesmo com esse senso de continuidade, Alexandre Simão, aluno de Ana Paula, considera que o crescimento do Charme em Salvador traz novidade e frescor à cidade. “ Tem muita gente que procura algo novo, algo diferente e não acha, por por pensar que só tem mais o mesmo, como boates e barzinhos. Mas não, tem algo novo surgindo na cidade!” 

 

Os bailes têm caído nas graças dos soteropolitanos e se tornaram ainda mais conhecidos depois de edições abertas ao público no Pelourinho, realizadas pelo grupo Baile Charme Salvador e idealizado pela produtora cultural Alice Walê, viralizarem nas redes sociais. Os vídeos mostram a multidão se divertindo, dançando em conjunto e exibindo um looks urbanos com referências dos anos 1990 e 2000.

 

 

 

 

A estética também é parte essencial do baile. Bebendo da cultura Hip Hop, o streetwear se faz presente nos eventos, com roupas coloridas, croppeds, bandanas e cintura baixa. “Eu transito entre o que dizem que é masculino e feminino. Me visto do meu jeito. É liberdade”, conta Alexandre. E essa liberdade, inspirada em referências negras, também é percebida nos outros corpos. “A maioria ali é povo preto. Não tem como não ver. Todo mundo estiloso. Dá pra ver que a galera pensa no look, se produz. Boina, bandana, corrente, calça cargo e sobreposição.”

 

Com o crescimento dos encontros, fica a pergunta: o Charme vai se tornar permanente na Bahia? Alexandre acredita que sim. “É novo, mas veio pra ficar. Talvez não gigantesco como no Rio, mas vai ter noites específicas, festas, eventos. Vai durar.” 

 

Já Ana Paula pondera que o Charme ocorre no Rio há cerca de 45 anos, de modo que já existe uma tradição formada por milhares de coreografias, em que os bailes inteiros dançam. Assim, ela acredita que os soteropolitanos ainda estão se adaptando aos bailes Charme, por serem uma novidade. 

 

“Estamos trazendo agora, então as pessoas ainda estão conhecendo as coreografias, essa corporeidade do Charme, os passinhos, como funciona e tudo mais. Então existe um tempo para [bailes de proporção semelhante aos do Rio] acontecerem aqui em Salvador, mas eu acho que as pessoas que conhecem, que veem o Charme, se identificam e gostam”.

 

Assim, entre passos sincronizados e a liberdade estética, o Charme se encontrou em Salvador. O que começou com pés direitos em sincronia, embaixo de um viaduto carioca, agora se desenvolve nas ruas da cidade mais negra do país. E a Bahia, mais uma vez, dança a seu próprio ritmo.

 

Ana Francisca – Estudante de Jornalismo da Faculdade de Comunicação da UFBA e integrante do Programa de Educação tutorial em Comunicação (PETCOM). Tem como principais interesses o jornalismo cultural e ambiental.

 

Júlia Naomi – Estudante de Jornalismo da Faculdade de Comunicação da UFBA . Escreve para editorias de educação e tecnologia e possui interesse em políticas públicas, jornalismo ambiental e rural.

 

A escolha da pauta foi motivada pelo carinho ao movimento, por  sua importância cultural e por ser uma novidade na cena black de Salvador.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *