Há quem entre na universidade sonhando com a bancada do Jornal Nacional, alguns têm certeza de que vão ganhar a vida viajando e contando histórias interessantes, outros são ficcionados por política e aguardam o dia em que terão acesso aos bastidores mais controversos da ALBA ou do Congresso Nacional. Mas os semestres passam e o entusiasmo diminui. O mercado está cada vez mais precarizado, as remunerações são baixas e as redações enxutas. Tem também a sobrecarga, o estresse, a desinformação, a inteligência artificial… Vamos nos familiarizando com uma lista quase sem fim de problemas que tornam ilusórios os referenciais que nos levaram ao vestibular. Elencar tudo isso pode parecer uma tentativa de desestimular futuros formandos. Mas não é essa a minha intenção. Acho que ainda há espaço, sim, para o otimismo, desde que não ingênuo.
O jornalismo, hoje, existe num cenário de disputa intensa entre a crise de confiança nas instituições, a avalanche de informações nas redes, a captura da atenção por algoritmos e a transformação das relações de trabalho. Fazer jornalismo é também tentar fazer sentido num ambiente cacofônico saturado de versões.
Mas ao mesmo tempo em que as redações encolhem, cresce a demanda por informação qualificada. Enquanto modelos tradicionais se esgotam, outros, mesmo ainda instáveis, tentam nascer. E há muita coisa acontecendo: projetos independentes, veículos hiper-especializados financiados por assinaturas, agências de checagem, newsletters autorais, plataformas voltadas para nichos específicos. Também cresceu o espaço do jornalismo em “áreas híbridas”, como a comunicação pública, as organizações da sociedade civil e as startups. Em muitos desses lugares, o jornalista é o principal tradutor da complexidade atual. É alguém que transforma informação técnica em linguagem acessível, peça central da nossa formação.
A maior parte desses formatos raramente aparece como referência no imaginário inicial do estudante, mas representa um espaço significativo do que, hoje, cresce como produção relevante.
É verdade que nada disso resolve sozinho a crise estrutural da profissão. Ela ainda pesa e precisa ser enfrentada coletivamente. Mas é um erro tratar o jornalismo como uma exceção absoluta num mundo do trabalho que, como um todo, tem se organizado de modo instável e em bases cada vez mais desiguais. Outras profissões também lidam com frustração, insegurança, salários ruins e sobrecarga. Desistir do jornalismo pode não necessariamente te fazer escapar desses problemas, só mudá-los de cenários.
Talvez por isso a insistência e, sobretudo, a resiliência continuam sendo central ao ofício. Não como uma resistência cega à realidade, mas como capacidade de adaptação e de criação. Insistir também pode ser saber desviar, mudar de rota, testar outras frentes e incorporar novas ferramentas, o que exige, inevitavelmente, repensar referenciais. Por isso, é importante retirar a profissão do pedestal, entender que é possível encontrar caminhos do meio, e ver se faz sentido seguir – mesmo quando o percurso não se parece em nada com aquele que a gente imaginou no primeiro semestre.
