Gestores, produtores e artistas avaliam o cenário de mercado para essas linguagens artísticas durante a alta temporada em Salvador
Luiza Raposo (@lzu.raposo) e Maria Eduarda Pinto (@madupintoo)
De dezembro a fevereiro, a cidade de Salvador, reconhecida pela Unesco como Cidade da Música, ferve em festas e música, impulsionada pelo turismo em alta. Além das tradicionais festas de largo, como as celebrações ao Senhor do Bonfim e a Iemanjá, os shows, festivais e ensaios de Verão já fazem parte do calendário cultural da cidade.
Entretanto, nesse cenário, fica evidenciada a subdivisão de outras artes cênicas, como o teatro e dança. Mesmo com uma rica tradição em ambas as áreas, o Verão soteropolitano parece não abrir espaço para essas linguagens artísticas
O Verão das artes
É o que Mano Leone, ator e estudante, destaca ao ser questionado sobre o cenário teatral durante essa época do ano. “Durante o Verão, normalmente existe uma lacuna nas produções teatrais”, afirma ele, atribuindo esse fenômeno à falta de interesse do público nessa estação.
Esse mesmo pensamento é compartilhado por Sara Prado, produtora cultural e diretora geral da Funceb (Fundação Cultural do Estado da Bahia). A gestora explica que a maior parte das produções teatrais apoiadas pela entidade não disputam espaços durante a alta temporada, especialmente devido ao perfil do público como um dos fatores determinantes.
“No Verão, em geral, o público busca uma outra dinâmica de eventos que tenham um outro nível de sociabilidade. Vamos dizer, mais soltos de possibilidades de encontrar amigos, conversar, tomar uma cerveja. E, então, determinadas linguagens acabam não tendo tanta procura nesse período, muito por conta do que já é a construção cultural da sociedade baiana”, detalha.
No entanto, há exceções que desafiam essa tendência. O espetáculo Macetando o Apocalipse, do grupo de teatro Los Catedrásticos, atualmente em cartaz no Teatro Módulo, tem registrado sessões lotadas e esgotadas. Na mesma linha, o espetáculo Trago Seu Amor de Volta (@tragoseuamordevolta), apresentado nos dias 16, 17 e 18 de janeiro no Teatro Sesc Pelourinho também atraiu um público expressivo. O ator e publicitário Aldeir Costa se mostrou surpreso com o público do último dia de apresentação e exclamou : “Que bom que eles também estão fazendo teatro no verão!”
No campo da dança, as percepções são similares. A ausência de espetáculos também é notável durante o Verão, mesmo com essa linguagem artística mantendo uma relação direta com a música e os shows. Entretanto, é justamente nesse período que as oficinas e cursos ganham destaque, atraindo até mesmo pessoas de fora da cidade. Um exemplo disso foi o Encontro Baiano de Jazz (@encontrobaianodejazz), realizado nos dias 13 a 19 de janeiro na Funceb, que registrou turmas cheias e entusiasmadas. “Eu acho que a gente vem de uma cultura, a gente da dança vem de uma cultura de ter muitos cursos de Verão. Muitos cursos, aulas, masterclasses, workshops”,.” explica Jorge Souza, co-produtor do evento.
Organizado pelos produtores culturais Eli Pereira, Jorge Souza e Vitor Hugo, o encontro ocorre anualmente em meio ao Verão de Salvador. Mesmo na sua décima edição e com mais de 200 participantes em meio às diversas aulas disponíveis, os organizadores denunciam uma dificuldade comum a todas as artes cênicas: a busca por investimento.
“Acho que o desafio também é o patrocínio. A gente precisa de pessoas que abracem esses eventos de dança. Nós temos uma produção independente, então em dez edições, a gente vem resistindo para colocar esse evento para rodar”, afirmam.
“Uma andorinha só não faz verão”
Para falar sobre os gargalos do mercado de artes, o Impressão Digital, falou com os gestores culturais Fernando Guerreiro, presidente da Fundação Gregório de Mattos (FGM), vinculada à prefeitura; e Sara Prado, diretora-geral da Fundação Cultura da Bahia, vinculada à Secretaria da Cultura do Estado. Para ambos, um dos principais desafios para o teatro e a dança na Bahia é a criação e manutenção dos equipamentos culturais.
“O teatro e a dança são as nossas linguagens das artes cênicas, então os espaços cênicos são importantes e a gente tem uma deficiência desses espaços. O que faz com que os poucos espaços que têm disponíveis tenham uma grande busca de pauta”, afirma Sara. Para a produtora cultural, o impacto da pandemia, entre 2020 e 2022, foi severo para a manutenção destes equipamentos. “A pandemia não foi amiga do das artes cênicas no sentido de que os espaços privados que não fecharam, tiveram que aumentar muito os seus valores. Então, isso dificulta o acesso, dificulta a possibilidade de construção de temporadas em determinados lugares e os próprios serviços da cultura.”
Guerreiro, que atuou por décadas como diretor teatral, reafirma o posicionamento da colega e define o problema como “falta de apoio estrutural”. “Quando eu falo de apoio estrutural, eu falo basicamente espaço para ensaio e espaço para apresentação. Entre esses dois gargalos, eu acho que o espaço para apresentação é mais grave ainda do que o espaço para ensaiar”. Como exemplos, Fernando cita os teatros Jorge Amado e Módulo como os mais procurados da cidade, pelo custo benefício, e o Faresi (antigo Teatro ISBA), como exemplo do aumento de preço. Assim, ele completa: “ Faltam espaços que possam oferecer pautas a preços compatíveis. “Uma outra coisa que as pessoas pedem muito é manter temporadas, tanto que esse edital agora que eu estou abrindo, ele também é um edital de circulação. Então, o espetáculo também pode ser financiado para permanecer em cartaz”, anuncia
A atriz Luciana Souza menciona que a falta de pautas longas também é sintoma de uma sociedade imediatista. “Para você criar um trânsito de público é preciso da manutenção das montagens de espetáculos. A maior parte do suporte não sustenta uma temporada longa e contínua que possa construir o público”. Ela enfatiza que as pautas curtas dificultam a visibilidade das peças até mesmo por outros setores como o cinema.
Ver essa foto no Instagram
Para Fernando Guerreiro, no entanto, não apenas a falta de espaços, a falta de circulação ou até mesmo os financiamentos escassos sedimentam a queda no mercado das artes cênicas. O gestor afirma que a ineficiência do teatro em atrair o público é o principal desafio e ele se dá justamente pela “perda de relevância” deste gênero artístico.
“Então, por que o teatro perdeu a relevância? Muitas peças hoje deixaram de ocupar o espaço da relevância e eu falo muito essa palavra que eu acho interessante, porque na hora que uma peça começa a ser comentada nas redes sociais, na hora que uma peça começa a ser falada, automaticamente vai atrair público e ela automaticamente vai ocupar o espaço do Verão. Então, claro que tem toda a questão do apoio, mas também tem a questão do gênero e do estilo”, pontua.
Janelas de oportunidade
Apesar dos desafios, o que ambos os gestores destacam são as janelas de oportunidade para o crescimento da dança e o teatro em Salvador e na Bahia. No caso da capital, Fernando Guerreiro considera que uma das possíveis pontes para o crescimento das artes cênicas está no incentivo à formação e à fidelização do público.
O presidente da FGM afirma: “É interessante também provocar, no caso eu tenho que provocar a Saltur (Empresa Salvador Turismo) porque é quem faz os eventos da prefeitura, e o estado também tem que ser provocado, para colocar mais teatro nos grandes eventos. Eu acho que é importante. Isso é uma política que precisa ser agora e o teatro também tem que oferecer produtos que possam de alguma maneira se adequar, por exemplo a estes eventos, como os festivais”.
Na visão de Sara Prado, dirigente da Funceb, essa discussão é mais complexa, já que a maior dificuldade destes setores é não somente a formação do público, mas a formação de um público pagante. “Foi feita uma provocação sobre isso, sobre como é que nós vamos ter um público pagante quando o poder público é o principal responsável por oferecer serviços de cultura e arte gratuitos. Mas, ao mesmo tempo, se a gente não ofertar serviços de cultura e artes gratuitos, a gente incorre em uma série de erros: o primeiro deles é não garantir a democratização dos acessos, porque a gente sabe quem é que tem condição de pagar”. Continua Sara: “Muita gente diz que não gosta de dança, não pagaria para ir para o espetáculo de dança, e é essa ideia que se tem, mas se a gente colocar uma apresentação do Balé do Teatro Castro Alves gratuitamente, em praça pública, não tem quem não pare pra poder assistir a beleza e a sincronia. É um espetáculo maravilhoso e não tem quem saia dizendo ‘eu não gostei, não iria’. A gente precisa tentar identificar onde é que tá essa fragilidade de formação dessa galera para entender que aquilo vale o pagamento, vale o bilhete, entendeu?”

No entanto, para alguns artistas, é importante pensar em formas práticas de aproximar o público. O ator Mano Leone também menciona a influência dos horários na formação de público: “Se uma peça termina às 21h ou 22h, não há muitas opções de after em Salvador. Além disso, existem as questões de segurança e a dificuldade com transporte público nesse horário.”
Fernando Guerreiro por sua vez, entende que esse é um retrato da necessidade das artes cênicas passarem a se adaptar à realidade do público. Além de considerar que a maior parte das apresentações de dança e teatro ocorrem no Centro ou em áreas mais “nobres” da cidade, distante das periferias, o horário das apresentações se mostra um novo empecilho.
“Eu acho interessante também que os espetáculos têm que se apresentar mais cedo. Eu considero o horário de 19h excelente, porque dá possibilidade até de você voltar para casa com mais segurança, se você mora no bairro mais distante e você atrai uma população também mais idosa, que tem um certo receio de sair à noite. Até o domingo, por exemplo, porque não fazer às 17h ? Eu acho que isso também atrai um público grande e que tem um receio em ir a uma peça às 21h”.
Cultura é trabalho
Na perspectiva da formação, Sara Prado destaca as ações do governo voltadas à profissionalização de profissionais de dança e teatro, como a Escola de Dança da Funceb e o projeto Gira Cena. No entanto, ela levanta uma reflexão importante sobre a visão atual dos trabalhadores das artes: “Uma pauta que deve ser encarada com seriedade é a necessidade de pensar nesses trabalhadores como detentores de direitos trabalhistas. A arte é frequentemente vista como um hobby, e, por isso, muitas pessoas precisam complementar a renda com uma atividade que seja considerada uma ocupação formal. Nesse contexto, a luta é coletiva, não apenas do poder público”.
Sobre os editais, Fernando Guerreiro aponta que os chamamentos são diversificados e segmentados em diferentes níveis de custo. Ele explica que, nos editais de menor custo, o objetivo é simplificar regras e requisitos, ampliando o acesso dos agentes culturais. “Além disso, oferecemos formações para produtores através do projeto Boca de Brasa e realizamos oficinas para apresentar os editais. Marcamos dia e horário para explicar todo o processo aos agentes culturais”.
Ainda no âmbito dos editais, Sarah Prado reconhece o esforço do governo estadual em estabelecer uma interlocução entre artistas e poder público para desenvolver políticas públicas mais direcionadas. Segundo ela:”Existem espaços que nós, artistas, provocamos, mas também há provocações vindas do campo cultural. E, toda vez que isso acontece, a gestão faz questão de responder a essas demandas”.
A artista de dança e também produtora, Luciene Munekata, do Encontro Baiano de Jazz, questiona a falta de continuidade de eventos importantes, como o Vivadança, festival internacional que foi cancelado em 2023 devido à descontinuidade dos editais de eventos calendarizados do Governo da Bahia, além da carência de incentivos e apoios governamentais.
Ver essa foto no Instagram
Embora não resida mais na Bahia, ela relembra que, anteriormente, havia apoio a grandes eventos, enquanto os pequenos produtores ficavam frequentemente desassistidos. Ainda assim, ela pondera: “Por outro lado, acredito que os artistas de dança precisam pensar em outras formas de atuação para conseguir demonstrar a necessidade de mais editais específicos para a dança.”
___
Maria Eduarda Pinto é técnica em Comunicação Visual e graduanda em Jornalismo na FACOM | UFBA. Interessada em política, cultura e sociedade, Eduarda atua como escritora, comunicadora e pesquisadora iniciante.
Luiza Raposo é comunicadora e graduanda em Jornalismo FACOM | UFBA, com interesses em artes visuais, cultura, tecnologia e sociedade. Atualmente trabalha nas áreas de assessoria de comunicação, produção cultural e social media.
A escolha do tema se deu a partir da observação do perfil de atividades culturais ofertadas durante a alta temporada em Salvador, e a lacuna para opções de teatro e de dança.