Salvador segue tendência nacional de falta de acesso à cultura por insegurança

 50% dos moradores das capitais e regiões metropolitanas do país temem assaltos e furtos nas regiões de espaços culturais, indica estudo da Fundação Itaú

 

Luanda Costa (@_luandacosta)

 

A 6ª edição da pesquisa Hábitos Culturais, divulgada em novembro de 2025, revela que a falta de dinheiro e a insegurança são os principais fatores que dificultam o acesso da população brasileira a eventos culturais — uma realidade que  se reflete em Salvador, alinhando a capital baiana à tendência nacional. O levantamento foi realizado pelo Observatório Fundação Itaú, com apoio técnico do Datafolha, e ouviu 2.432 pessoas em todas as regiões do país, sendo 27% no Nordeste.

 

Trinta e nove por cento dos moradores das capitais e regiões metropolitanas do país indicam que violência é um dos principais motivos que os levam a não participar de atividades culturais presenciais. Metade dos mesmos respondentes alegam que a principal situação de insegurança que os desmotiva a integrar esses momentos é a ocorrência de assaltos ou furtos nos bairros de espaços culturais.

 

Em relação às regiões do país, o Nordeste segue a tendência nacional, tendo a insegurança como o principal vetor de afastamento de atividades culturais, seguida de questões financeiras, cansaço e dificuldades no deslocamento.

Foto: gráfico produzido por Luanda Costa

 

Em Salvador, a realidade apontada pelos dados não é distante. Desde 2018, a influenciadora digital Lu Mota não frequenta o Festival da Virada, na Boca do Rio, bairro localizado na orla, – que costuma ser realizado entre a última semana do ano e os primeiros dias do ano seguinte – por conta do medo e dificuldades com o deslocamento. “É muita gente, sempre tem furto. Também é um transtorno voltar para casa”, lembra a moradora do Cabula. 

 

A combinação de um sistema de transporte deficiente nas áreas marginalizadas da capital com a insegurança também a afasta de outras atividades ao longo do ano. “Quando morava nos Barris, no Centro, ia para mais lugares. Gosto muito da região do Pelourinho e Santo Antônio Além do Carmo. Pela distância e violência que ocorrem onde  moro atualmente, tendo a não voltar tarde. O percurso até em casa gera gatilhos, porque eu e um motorista de aplicativo já fomos assaltados quando estávamos presos no engarrafamento na região do Iguatemi”, conta.

 

Foto 1: Festival da Virada em Salvador, 2024 (Foto: Lucas Moura / Secom PMS); Foto 2: Influenciadora no Festival Sangue Novo (2025) (Foto: Reprodução/Redes sociais)

Fora do Centro, fora de rota

 

Em geral, Salvador se configura como um  espaço urbano segregado e  fragmentado. No artigo “Racismo e direito à cidade: Uma análise sobre a Cidade de Salvador”, escrito em 2020 pelos geógrafos Cleide Daiane Sousa da Cruz (UFBA) e Diosmar Marcelino de Santana Filho (UCSal), os autores argumentam que a cidade é dividida em  três  vetores:  a  Orla  Atlântica, enquanto um local privilegiado    da    cidade,    concentrando equipamentos urbanos e investimentos; o “Miolo”,  que foi ocupado por meio de programa governamentais, como o Sistema Financeiro de Habitação (SFH) e posteriores invasões; e o Subúrbio Ferroviário, com loteamentos populares. 

 

Um fator complicador para este cenário é a má distribuição de espaços culturais. Segundo Sérgio Sobreira, professor da área de Públicos e Consumo Cultural na FACOM | UFBA, \Salvador é caracterizada por um apartheid não verbalizado. “Infelizmente, os esforços por parte dos poderes públicos para fomentar políticas de desconcentração do sistema cultural é mínimo”, reflete. Por outro lado, ele critica os empreendedores culturais locais por se acomodarem diante do sistema cultural estruturado. “Os jovens produtores se apequenam diante do mercado. Como canta Milton Nascimento [ na música Nos Bailes da Vida], “Todo artista tem de ir aonde o povo está”. 

 

 “Salvador é caracterizada por um apartheid não verbalizado” (Sérgio Sobreira)

 

Mapa de equipamentos culturais (1) Museus; 2) Bibliotecas; 3) Salas de cinema; 4) Salas de teatro e 5) Cineteatros em Salvador, desenvolvido por Livia Cunha de Oliveira no artigo “Mapeamento dos equipamentos culturais de Salvador”, em 2010.

 

A lua não é mais dos namorados

 

Mas, enquanto as periferias não são contempladas por uma oferta cultural abrangente, resta aos soteropolitanos atravessarem a cidade para encontrar lazer. Um morador do bairro de Nordeste de Amaralina, que preferiu não se identificar, já deixou de frequentar festas e museus diversas vezes devido à deflagração de operações policiais na região onde mora. 

 

Durante a entrevista, ressaltou que precisava falar baixo, porque estava a caminho de casa. Sussurrando, contou que, certa vez, tinha um encontro marcado com uma moça que se interessava romanticamente. A programação duraria o dia todo, começando pelo Museu da Misericórdia, no Centro Histórico. “Aconteceu uma ação aqui, decorrente do asssasinato de um policial, que os meninos de “sangue bom” mataram. Fecharam todo o Nordeste, ficou tudo trancado, os ônibus não entravam”, lembra.

 

Museu da Misericórdia (Foto: Valter Pontes/ Secom PMS)

 

Apesar de o encontro  ter sido remarcado para alguns dias depois – pois a ação policial durou quase uma semana –, o constrangimento marcou o jovem. “Eu me senti envergonhado e frustrado, porque esse é um tipo de imprevisto totalmente fora de controle”, lamenta. Mas esta não foi a única ocasião em que a violência o fez ficar em casa. “Eu já deixei de ir para a faculdade por conta de operação aqui. Fiquei trabalhando em home office por conta disso também. Não tem muito o que fazer, é a violência de Salvador no dia a dia”. 

 

O medo do morador se reflete nos dados. De acordo com o Instituto Fogo Cruzado, Nordeste de Amaralina foi o bairro mais afetado pela violência armada em novembro. Foram 5 tiroteios, 6 mortos e 1 ferido. Salvador se destacou entre as cidades baianas, tendo as maiores métricas do estado: 63 tiroteios, 51 mortos e 15 feridos.

 

Fronteira de ação 

 

A falta de uma legislação que proponha acessibilidade cultural não é o maior problema deste cenário, segundo o especialista em direito à cidade, Lucas Rêgo. “O problema está na fronteira entre o que a lei orienta – e não obriga – e  o modo como os gestores se comportam”, pontua. Ele argumenta que existem duas esferas relevantes para a promoção do direito à cultura: a União e o Município.

 

“A União trabalha com a Política Nacional de Cultura, orientadora das políticas públicas dos demais entes da federação. Os municípios observam e devem também constituir suas políticas que possam se integrar à política da cultura nacional”, destaca. Em escala nacional, ele cita o artigo 215 da Constituição Federal, propondo que o Estado deve garantir a todos o acesso às fontes de cultura e o Estatuto da Cidade, que estabelece diretrizes gerais para a política urbana, regulamentando o uso da propriedade e desenvolvimento.

 

Em escala municipal, a disputa pelo Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU) segue sendo um dos principais entraves para a democratização do acesso à cultura, argumenta Rêgo. “A cada oito anos, quando ele é revisado, os agentes econômicos se mobilizam para tentar intervir e direcionar o planejamento urbano de modo a atender seus interesses particulares, acentuando a produção das desigualdades socioespaciais”, critica.

 

Para ele, a  inclusão da população nos processos decisórios do poder é crucial para que este cenário seja aprimorado. “A cidade é um espaço marcado por disputas políticas e por influências de diversos grupos, como o capital imobiliário, cujos interesses econômicos muitas vezes não correspondem às necessidades dos cidadãos. Por isso, é essencial democratizar o planejamento e a gestão urbana, tornando as decisões mais sensíveis às demandas sociais”, analisa.

 

Na última semana, a Prefeitura de Salvador, em conjunto com a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano (Sedur), lançaram o site oficial do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU). A plataforma reúne informações sobre o conteúdo do instrumento e sua serventia. Na aba “Audiência Pública do Plano Diretor”, inserida no final do site, há uma cartilha que explica de que maneira os cidadãos poderiam participar ativamente do processo – mas o arquivo não abre. Ao clicar no link, o site carrega a mesma página do portal. Ou seja, apesar da disponibilização de um instrumento para democratizar o acesso e participação da revisão da lei, esse recurso não é funcional.

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Luanda Costa estuda Jornalismo na Facom | UFBA.  Atua como repórter freelancer e social media. Apaixonada por contar histórias, tem interesse em temas como desinformação, direito à cidade e cultura.

 

O ponto de partida da pauta foi o lançamento da 6ª edição da pesquisa Hábitos Culturais,  realizado pelo Observatório Fundação Itaú, com apoio técnico do Datafolha.

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