Movimento além das urnas

Como as eleições impulsionam o mercado de trabalho formal e informal na Bahia em setores como o da comunicação

Humberto Filgueiras (neto.filgueiras) e Jéssica Santos (jessicascanf)

A cada dois anos, santinhos se espalham pelas ruas e propagandas políticas dominam a televisão e as redes sociais. O sinal é claro: é ano eleitoral. No entanto, até o momento do anúncio dos resultados e mesmo depois, todo um ecossistema de trabalhadores se envolve no processo. Além de gráficas, hotelaria e segurança, setores de comunicação e produção audiovisual também turbinam contratações temporárias para dar conta de campanhas políticas intensas e desafiadoras.

 

Com o crescimento do mercado digital e da necessidade de exposição e engajamento dos políticos nas redes sociais, a demanda por social medias, videomakers, designers e outros profissionais é cada vez maior. Esse aumento na procura por mão de obra especializada reflete uma movimentação ainda maior do mercado de trabalho durante os períodos eleitorais.

 

Evento de pré-campanha eleitoral na cidade de Barreiras. Reprodução/Instagram

Um mercado que movimenta milhões

 

O número de contratações neste período passa por diversos setores e chega a números milionários. De acordo com apuração da Folha de S. Paulo em novembro de 2024 – ano das eleições municipais – dados das prestações de contas enviadas pelos candidatos ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) até 20 de novembro daquele ano apontam 1,2 milhão de pessoas contratadas diretamente por campanhas eleitorais no Brasil.

 

Também nas eleições municipais de 2024, o Fundo Especial de Financiamento de Campanha distribuiu cerca de R$4,9 bilhões aos partidos para o financiamento de campanhas. Parte desse recurso é direcionada para contratação de pessoal, produção audiovisual, eventos, transporte e mobilização.

 

Em 2026, embora ainda não se tenha confirmação dos números, os totais de contratações podem ser ainda maiores devido à ampliação de escala das campanhas, que definirão o presidente da República, governadores, senadores, deputados federais e estaduais. Embora os dados nacionais demonstrem a dimensão desse mercado, seus impactos também podem ser percebidos nas estruturas locais.Essa movimentação, contudo, esbarra nos limites fixados pela legislação eleitoral para cada cargo: no último pleito municipal em Salvador, por exemplo, o teto máximo de contratações de pessoal por candidato a prefeito foi de 2.240 pessoas.

 

Pré-campanha já aquece profissionais

 

Na Bahia, profissionais e empresas de comunicação estão entre os mais demandados durante o período eleitoral. Apesar da propaganda eleitoral oficial só ser permitida a partir de 16 agosto – de acordo com o calendário aprovado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em março deste ano – os trabalhos já estão a todo vapor. Eva Serra, produtora de eventos da empresa MochiLab há dez meses, afirma que o período eleitoral amplia significativamente a demanda por profissionais temporários, especialmente em função da dimensão territorial do estado e da intensidade das agendas de campanha.

 

“Quando a gente vai fazer campanha eleitoral, realmente tem uma demanda maior por conta da extensão da Bahia. Esse número de profissionais depende muito de como terá que ser essa cobertura. Se ela é uma cobertura mais intensa, como no caso agora, que é uma pré-campanha, então a gente tem maio, junho e julho dentro do escopo e os trabalhos estão mais pontuais nos finais de semana”.

 

Segundo Eva, a necessidade de reforçar as equipes já é percebida em junho, atual fase de pré-campanha: “A gente teve que contratar pelo menos doze pessoas dentro desse quadro”. Ela ressalta, porém, que o número de contratações pode variar de acordo com o volume de atividades previstas. “Geralmente pode chegar até vinte, vinte e cinco, trinta pessoas, dependendo da agenda”.

Eva Serra durante o Programa de governo Participativo da chapa de Jerônimo Rodrigues. Foto- Lucas Santa Bárbara

Impacto em diferentes setores

 

Para Eva Serra, os impactos das campanhas eleitorais vão muito além das equipes diretamente envolvidas na produção audiovisual e na organização dos eventos. Segundo ela, a realização de atos políticos movimenta diversos setores da economia local, como hotelaria, alimentação, transporte e comércio, em razão do grande fluxo de pessoas que acompanham as agendas dos candidatos pelo interior do estado.

 

Serra ainda enfatiza que a demanda gerada pelos eventos não se restringe aos profissionais contratados para a cobertura e produção. “Muitos restaurantes não têm condições de comportar o número de pessoas que vão, porque aí a gente está falando não só de equipe, a gente está falando de pessoas que são mobilizadas para os eventos. Pessoas de outras cidades, outros municípios, outros distritos vão para o local onde está acontecendo o evento político. Então, realmente, a infraestrutura das cidades fica bem sobrecarregada”.

 

Além dos impactos sobre a economia local, as eleições também transformam a rotina dos profissionais que atuam diretamente na comunicação política.

 

Desafios e oportunidades

 

Na área da comunicação, o período eleitoral costuma ampliar a demanda por profissionais e exigir atenção redobrada das equipes envolvidas. Para Eduarda Gomes, que atua no setor há dez anos, a rotina de trabalho segue a mesma dinâmica ao longo do ano, mas ganha mais intensidade durante as eleições devido ao aumento das atividades e da necessidade de acompanhamento constante dos eventos.

 

Segundo ela, um dos principais desafios desse tipo de trabalho é lidar com a baixa margem para erros. A presença de autoridades, lideranças políticas, representantes da sociedade civil e do público em geral exige que os profissionais estejam atentos a todos os detalhes, desde a produção de vídeos e fotografias até o cumprimento dos protocolos estabelecidos para cada evento. 

Para Carícia Temporal, assessora de comunicação da Casa Civil da Presidência da República que possui vasta experiência como coordenadora de redes sociais em campanhas eleitorais, o maior desafio é conquistar a audiência do eleitor, pois a época eleitoral envolve muitos conteúdos políticos nas redes. Além disso, combater boatos também é uma tarefa árdua no período.

“Essa é uma época em que ele está sendo bombardeado de conteúdo político e na maioria das vezes não está interessado nisso. Então é preciso chamar a atenção dele e dar um bom motivo para ele ouvir o que o seu candidato tem a dizer. As eleições também ampliam o volume de boatos, conteúdos manipulados e narrativas falsas. Combatê-los é uma das tarefas mais difíceis”.

Carícia Temporal trabalha com assessoria de comunicação política há cerca de 12 anos. Foto- Arquivo pessoal

 

Mesmo com os obstáculos, Carícia afirma que trabalhar em uma campanha política gera muito aprendizado rápido devido à comum necessidade de realizar diferentes demandas ao mesmo tempo. Como a comunicação envolve muitas pessoas, ela ainda acrescenta que a rede de contatos adquirida no trabalho é “uma excelente oportunidade de expandir seus contatos para oportunidades no futuro”. 

 

Além da experiência profissional, o período eleitoral também representa um incremento na renda para quem já atua no segmento. Embora não dependa exclusivamente das eleições para trabalhar, a produtora Eduarda Gomes avalia que o aumento da demanda gera ganhos financeiros importantes.

 

“Eu acho que tem um aumento financeiro neste período, um aumento significativo, aumenta mais, então acaba que com certeza ajuda. É um período que é pra fazer um pezinho de meia, é bem importante, é bem interessante”.

E depois das eleições?

 

Com o encerramento do período eleitoral, a intensa movimentação econômica gerada pelas campanhas tende a diminuir gradualmente. Setores que registram aumento na demanda durante as eleições, como os citados por Eva Serra, retornam aos níveis habituais de atividade à medida que as agendas políticas são encerradas.

 

Nesse contexto, parte dos profissionais contratados para atender às demandas das campanhas deixa de atuar nos projetos eleitorais, já que muitas contratações são feitas para atividades específicas e com prazo determinado. Essa falta de vínculo a longo prazo é respaldada pelo Artigo 100 da Lei nº 9.504/1997 (Lei das Eleições), que estabelece que a contratação de pessoal para prestação de serviços em campanhas eleitorais não gera vínculo empregatício com os candidatos ou partidos. A permanência desses trabalhadores depende de fatores como a necessidade da empresa e a existência de novos trabalhos após as eleições.

 

“Depende do tempo da cobertura, depende do profissional, depende da necessidade da empresa daquele profissional para outros eventos, para outras coberturas. A gente tem freelancers que são contratados para um trabalho específico, mas que, a depender dos trabalhos futuros da empresa, terminam ficando conosco”, explica Eva Serra.

 

Ela ressalta que a maioria das contratações realizadas durante a pré-campanha e a campanha é temporária. “Agora, por exemplo, a gente contratou doze. Não vão ficar doze profissionais a mais na empresa. Um grande percentual desses profissionais realmente é contratado para um projeto específico”. Ainda assim, alguns trabalhadores podem ser incorporados de forma permanente às equipes: “Alguns que têm disponibilidade também podem ser contratados e ficar full time na empresa”.

 

O cenário mostra que, embora as eleições gerem oportunidades temporárias de emprego e renda em diversos setores, a continuidade dessas vagas após o pleito depende da capacidade das empresas de absorver parte dessa mão de obra em novos projetos e demandas do mercado.

Humberto Filgueiras – Estudante de Jornalismo da Faculdade de Comunicação da UFBA. Estagiário no SESI Cultura Bahia, tem como principais interesses cultura, música e entretenimento. Curioso por natureza, ama conhecer novos lugares e histórias interessantes.

 

Jéssica Santos – Estudante de Jornalismo da Faculdade de Comunicação da UFBA e Bacharel em Humanidades pelo Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos (IHAC/UFBA). Atua no mercado do audiovisual baiano, com experiência voltada para política.

 

A motivação desta reportagem surgiu durante uma visita de um dos repórteres ao Espaço Cultural do Bonfim. Na ocasião, o repórter conversou informalmente com Mabel Carvalho, que falou sobre as obras expostas e seu trabalho como professora de Arte. Encantado com a atmosfera cultural do lugar, ele percebeu ali o potencial para uma reportagem.

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