Entre o algoritmo e o asfalto, as tensões de uma cidade que resiste

Nesta segunda edição, o Impressão Digital mergulha em uma Salvador tensionada entre a frieza dos códigos e a urgência das ruas, onde o afeto e a sobrevivência insistem em hackear a indiferença dos dados.

 

 

Há uma engenharia invisível que tenta, a todo custo, traduzir a vida em dados, códigos e métricas de engajamento. Em 2026, Salvador equilibra-se nesse fio: de um lado, a velocidade fria das telas; do outro, o calor humano e a fricção inevitável das ruas. É confortável se perder na ilusão de uma conectividade absoluta e esquecer que, por trás de cada notificação reluzente, há corpos cansados, conexões históricas profundas e uma busca incessante por sobrevivência. O papel do jornalismo que move esta edição é justamente este: rasgar a película dessas telas para tatear a pulsação da capital baiana.

 

É sob esse olhar aguçado que se consolida esta segunda edição do Impressão Digital, jornal laboratório da turma do sexto semestre de Jornalismo da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (FACOM | UFBA). Sob a orientação das professoras Suzana Barbosa e Lívia Vieira, e com a participação da doutoranda Thays Lavor como tirocinista, esses futuros jornalistas percorreram Salvador e não se deixaram seduzir pelas respostas fáceis. O resultado está nas páginas a seguir e revela o encontro com os contrastes de uma cidade que se recusa a ser domesticada por fórmulas prontas ou silenciada pela indiferença.

 

O eco que cruza as Avenidas Sete e Joana Angélica não deixa mentir: “É Claro, Vivo, Tim, Oi! É exame é?”. Enquanto o comércio globalizado migra para a frieza dos aplicativos, o Centro comercial mais tradicional de Salvador resiste pelo toque, pelo cheiro, pelo olho no olho. Mas essa efervescência esconde uma linha tênue: a informalidade surge como único refúgio para mais da metade dos trabalhadores ocupados na Bahia, são 52,8% que encontram no asfalto o sustento de suas famílias.

 

Essa mesma corda bamba socioeconômica sobrecarrega os lares soteropolitanos. Salvador carrega o peso de ser o reflexo de um estado com índices alarmantes de abandono: aqui, quase um quarto das famílias são chefiadas exclusivamente por mães-solo. São mulheres pretas e pardas que enfrentam diariamente o esgotamento invisível do parental burnout, equilibrando a urgência do prato na mesa com a ausência de uma rede de apoio.

 

Nas pistas, a sobrevivência ganha tração sobre duas ou quatro rodas. Diante da tirania dos algoritmos que esticam as jornadas de trabalho para até 12 horas diárias, o coletivo “Ratos da Pista” surge como um manifesto de solidariedade. Onde as grandes plataformas multinacionais oferecem desamparo e taxas predatórias, os motoristas de aplicativo criam redes humanas de apoio jurídico, mecânico e de saúde. A tecnologia aqui não é um mestre benevolente; é um sistema que eles precisam hackear coletivamente para não sucumbir.

Essa mesma tecnologia redesenha as estruturas de poder e afeto, trazendo dilemas éticos profundos. As eleições de 2026 batem à porta sob o signo da Inteligência Artificial. Se por um lado o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) corre contra o tempo para caçar deepfakes em uma fiscalização técnica quase hercúlea, por outro, o impacto real está no espírito do eleitor, fazendo com que o cidadão duvide até mesmo da própria verdade.

 

A desconfiança fabricada, contudo, não opera no vácuo; ela serve a engrenagens políticas muito bem consolidadas. Afinal, a disputa pelo voto na Bahia evoca velhas lógicas de dominação, como destrincha a entrevista desta edição, que joga luz sobre como o Partido dos Trabalhadores (PT) montou no estado um esquema de poder semelhante ao do carlismo, perpetuando uma hegemonia que agora precisa se readequar aos tempos de guerra digital. Para azeitar essa máquina e tentar moldar a opinião pública, move-se um mercado milionário que pulsa no movimento além das urnas: um exército invisível de social medias, videomakers e designers que enfrentam rotinas exaustivas para conter boatos e gerar engajamento. Para esses profissionais, o ano eleitoral é a chance de um respiro financeiro, para o sistema, trata-se de uma mão de obra temporária, descartada sem qualquer vínculo permanente assim que o último voto é computado. 

 

Quando o barulho desse engajamento artificial finalmente cessa e as telas se apagam, o que sobra é o esvaziamento de uma sociedade hiperconectada, mas profundamente isolada. Vivemos uma epidemia silenciosa de solidão, na qual quatro em cada dez jovens brasileiros admitem o sentimento de desamparo emocional. Esse isolamento se reflete diretamente na intimidade. Curtidas e interações casuais criaram um simulacro de conexão que não preenche o vazio da presença. Descobrimos, na marra, que manter laços na vida adulta exige uma escolha deliberada e corajosa em meio ao caos cotidiano. Até mesmo a busca pelo bem-estar físico nas corridas de rua foi capturada pela urgência de aprovação nas redes sociais, onde a pressão por performance muitas vezes silencia os limites do próprio corpo.

 

Ainda assim, esta edição pulsa resiliência. Ela celebra os avanços históricos na alfabetização infantil da Bahia, que atingiu a marca de 55% de crianças alfabetizadas na idade certa, embora nos lembre do compromisso inadiável com a equidade antirracista. Ela mostra a força silenciosa do Hemóvel, cruzando universidades para lembrar que a vida de quem luta contra o câncer ou aguarda uma cirurgia depende de um hábito simples de cidadania.

 

E, para compreender quem somos, este jornalismo viaja além do Atlântico, reconectando as linhas de DNA de Salvador com o mundo. Redescobrimos as matrizes norte-africanas no cuscuz que alimenta nossas manhãs, o espelho da Revolução Haitiana que inspirou a nossa Conjuração Baiana, e até a engenharia escocesa cravada no ferro do Farol de Itapuã.

 

Das telas de cinema, saturadas pela reciclagem nostálgica dos live-actions, às esquinas barulhentas do comércio popular, o que os estudantes entregam nestas reportagens é um espelho multifacetado. Uma Salvador complexa, por vezes exausta, mas profundamente viva. Cabe a nós decidir se continuaremos deslizando o dedo pela superfície da tela ou se estamos prontos para descer o andar e encarar a realidade de frente.

 

Boa leitura!

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