Coletivo Ratos da Pista reúne milhares de integrantes na luta por direitos e melhores condições de trabalho
Danilo Roberto (daniloohd) e Júlio César Borges (jul1_u55)
Ao andar pelas ruas de Salvador, é comum observar, nas traseiras dos veículos ou nos capacetes das motos, o adesivo “Ratos da Pista”. O adesivo, que custa apenas R$10,00, é um instrumento de identificação de um coletivo, de mesmo nome, criado por seis amigos motoristas de aplicativo, em maio de 2025. Pensado inicialmente para prestação de apoio mútuo, hoje, o grupo reúne mais de sete mil membros na Bahia, Sergipe, Rio de Janeiro e São Paulo e oferece mais de 50 benefícios para seus membros, dentre eles: descontos em serviços de saúde, educação, mecânica e assessoria jurídica gratuita. Para vincular-se ao grupo basta contacta-los pelo número do whatsapp e enviar uma comprovação do trabalho por aplicativo.

As redes sociais do grupo, além de funcionarem como canal de comunicação e apoio, também são responsáveis por mobilizar a categoria no que diz respeito à reivindicação por direitos dos motoristas. Em março deste ano, o grupo realizou uma série de protestos contra o aumento nos preços dos combustíveis e a carga tributária sobre o setor. Na perfil do instagram (@ratosapista), que reúne mais de 42 mil seguidores, são divulgados, diariamente, informações sobre o trânsito, veículos roubados e parcerias. A página também serve como plataforma para ações de solidariedade, mobilizando os seguidores para campanhas sociais, a exemplo do mutirão de doação de sangue em apoio aos Obras Sociais Irmã Dulce, realizado no dia 17 de junho.
Apesar do forte compromisso com a luta por melhores condições de trabalho, Alex Fagundes, um dos idealizadores do grupo, deixa claro que o grupo não tem cunho político ou sindical. “Não pretendemos representar a categoria nem politicamente, nem como sindicato, só queremos representar o próprio grupo”, ele diz. De acordo com Alex, as principais queixas da classe se referem às taxas cobradas pelas plataformas de aplicativos e as condições de trabalho impostas. “Queremos direito de resposta e ser ouvido pela plataforma” , defende. As reivindicações também se estendem ao poder público, especialmente em relação ao fortalecimento da segurança para os motoristas e à redução da cobrança do Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA).
A regulamentação do trabalho por aplicativos também está entre as pautas acompanhadas pelo grupo. O Projeto de Lei Complementar (PLP) 152/2025, que propõe a criação de uma categoria específica para motoristas de transporte por aplicativo, garante direitos previdenciários, como contribuição ao INSS, aposentadoria e cobertura em casos de afastamento por acidente, além de estabelecer uma remuneração mínima por hora trabalhada.
A proposta, no entanto, tem gerado resistência entre os motoristas de aplicativo. Segundo Alex Fagundes, os integrantes do Ratos da Pista reconhecem a importância da regulamentação, mas consideram que o texto não oferece garantias suficientes sobre a renda dos trabalhadores.
“A gente acredita que a regulamentação é muito importante para garantir alguns direitos como o INSS do motorista, o recolhimento para a aposentadoria ou acidentes. Porém queremos da forma correta. O projeto não tem garantia sobre ganhos”. Alex complementa: “Nossa posição é: nós queremos regulamentar, porém garantindo taxa mínima ou quilometragem mínima”.
Para a categoria, o projeto deixa em aberto questões consideradas fundamentais, como a definição de uma tarifa mínima por corrida ou de um valor mínimo por quilômetro rodado, o que, na avaliação dos motoristas, pode resultar em direitos previdenciários sem a contrapartida de uma remuneração adequada.
Flexibilização ou precarização?
Para Tatiane Araújo, doutora em Enfermagem pela UFBA e especialista em Saúde do Trabalhador, o que define o trabalho de motoristas por aplicativo como precarizado é justamente a ausência de direitos trabalhistas e a total transferência de custos e riscos para o trabalhador. “Embora as plataformas neguem a existência de vínculo, submetem o trabalhador ao controle do algoritmo e não proporcionam nenhuma seguridade social. Além disso, todos os riscos (acidentes e adoecimentos) e custos (quebra do carro, manutenção) são dos trabalhadores”, ela explica.
O trabalho por aplicativo, ao submeter o trabalhador a uma carga horária de trabalho extenuante, é responsável, segundo Tatiane Araújo, pelo adoecimento físico e mental de motoristas.
Como o valor recebido por corrida precisa cobrir tanto os custos de operação do veículo quanto as despesas pessoais e familiares, muitos motoristas acabam se submetendo a jornadas de trabalho entre 10 e 12 horas diárias. Essa carga horária supera, inclusive, os limites estabelecidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), que prevê jornada padrão de até oito horas por dia e 44 horas semanais, admitindo, de forma excepcional, a realização de até duas horas extras diárias mediante acordo individual ou coletivo.
Essa é a realidade que Wellington Pereira, que trabalha há 3 anos como motorista nas plataformas Uber e 99pop enfrenta cotidianamente. “Trabalho em média 10 horas por dia, de segunda à sábado”, ele conta. Ele ainda complementa: “há mais de 5 anos que a Uber e 99pop não atualizam o preço da corrida, diante muitas vezes precisamos cancelar a corrida pois a distância não compensa, já que arcamos com todos os gastos de manutenção do carro. O ideal seria ter um valor mínimo e um valor definido por quilometragem”.
“A flutuação de ganho e falta de seguridade social levam o trabalhador a desenvolver quadros de ansiedade, depressão e outros transtornos mentais. Cabe ressaltar que o trânsito é um local de muito estresse e que demanda atenção constante, o que já predispõe ao adoecimento mental”, afirma Tatiane Araújo.
A especialista acredita que movimentos coletivos de trabalhadores ajudam a reduzir a assimetria entre o empregador – nesse caso, as plataformas digitais e o empregado. Para ela, dessa forma é possível traçar estratégias para o alcance dos direitos básicos, além de construir e fortalecer uma identidade coletiva.
“O exemplo do grupo Ratos da Pista, motoristas que se identificam pelos adesivos, constroem a solidariedade de grupo e juntos tentam ofertar o suporte que a plataforma não oferece. Para tal constroem pontos de apoio físico, facilitam o acesso a serviços com desconto para quem é membro. É a nova forma de solidariedade da classe-que-vive-do-trabalho”.
Quando o apoio vem da própria categoria
Reflexo desse movimento de solidariedade e organização coletiva, o grupo está implantando uma sede na orla de Salvador. O espaço foi concebido para oferecer infraestrutura e serviços voltados às necessidades dos motoristas, incluindo restaurante, lanchonete, duas baias para lavagem de veículos, banheiros com chuveiros, barbearia e pontos de recarga para carros elétricos. A iniciativa busca proporcionar mais conforto, conveniência e suporte aos profissionais durante a jornada de trabalho.

Organização dos trabalhadores na era das plataformas
A criação do Grupo Ratos da Pista também impulsiona o debate sobre a governança das plataformas digitais. Segundo André Lemos, professor titular da FACOM e membro fundador da Associação Brasileira de Pesquisadores em Cibercultura (ABCIBER), as plataformas alteram as relações tradicionais de trabalho. Segundo ele, é possível distinguir três modalidades de relação: o trabalho para a plataforma, realizado por funcionários contratados pelas empresas; o trabalho por meio da plataforma, quando profissionais utilizam essas ferramentas para divulgar e viabilizar suas atividades; e o trabalho de plataforma, característico de motoristas e entregadores que dependem diretamente dos aplicativos para obter renda.
“A sociedade contemporânea é uma sociedade na qual a economia migrou para as plataformas digitais. É um conjunto de hardware e software que funciona conectando pessoas, quem oferece o serviço e quem vai pagar o serviço, a partir de uma monetização dos dados dessa relação. Isso toma uma dimensão gigantesca. Portanto, temos hoje uma redefinição do mundo do trabalho a partir do surgimento dessa sociedade de plataformas”, explica André Lemos.
O surgimento de grupos como Ratos da Pista, para André, é uma consequência natural de suporte a trabalhadores precários. “Acho que essa forma de apoio é um reflexo da precariedade mesmo, porque eles estão sós e não têm o apoio mínimo da plataforma, além de ser um desenvolvimento natural de tentar criar laços de suporte entre as pessoas”, afirma o especialista.
Solidariedade como resposta
A experiência dos Ratos da Pista não é um caso isolado. Em diferentes partes do Brasil e do mundo, trabalhadores de plataformas digitais têm criado organizações coletivas para reivindicar melhores condições de trabalho e enfrentar a assimetria de poder em relação às empresas de tecnologia.

No estado de Pernambuco, o coletivo Falcões Elétricos reúne motoristas de aplicativos que dirigem carros elétricos. Em maio deste ano, o grupo ganhou notoriedade após protagonizarem a retomada de um carro roubado, que agrupou mais de 30 BYDS Dolphin nas ruas de Recife.
Na Itália, entregadores fundaram grupos como o Riders Union Bologna, em Bolonha, o Deliverance Project, em Turim, e o Deliverance Milan, em Milão. Formados a partir de 2016, esses coletivos organizam mobilizações, greves e negociações por melhores remunerações e maior proteção social para os trabalhadores. Já nos Países Baixos, entregadores da Deliveroo criaram a FNV Riders Union, organização apoiada pelo sindicato juvenil FNV Jong, que atua na defesa dos direitos dos ciclistas entregadores, reivindicando mais segurança, qualidade nas condições de trabalho e cobertura por acordos coletivos. Para André Lemos, grupos como esses apontam para uma possível tendência para o futuro.
Em comum, essas iniciativas demonstram como trabalhadores de plataformas digitais têm recorrido à organização coletiva para construir redes de apoio, fortalecer sua representação política e reivindicar direitos diante da gestão algorítmica. Enquanto o Brasil não avança na pauta de regularização do trabalho de motoristas de aplicativos, os Ratos da Pistas encontraram uma maneira de garantir o mínimo de seguridade social, através da solidariedade e do senso de coletividade, para enfrentar as péssimas condições de trabalho vividas.
Danilo Roberto – Estudante de Jornalismo da FACOM | UFBA.
Júlio César Borges – Estudante de Jornalismo da FACOM | UFBA, é repórter estagiário no Caderno de Cultura do Jornal A Tarde e assessor de imprensa estagiário no Ministério Público do Estado da Bahia (MPBA).
A motivação para esta reportagem surgiu, pois, ao andar pelas ruas de Salvador, ou olhar de forma mais atenta para o trânsito, é possível observar, de forma corriqueira, nas traseiras dos veículos, ou no capacete dos motociclistas, um brasão adesivo intitulado “Ratos da Pista”. A partir daí, surgiram as inquientações do que se tratava o coletivo e de como
