Em entrevista ao Impressão Digital, o cientista político Paulo Fábio Dantas revisita o período carlista e identifica semelhanças entre a hegemonia petista e a que sustentou o grupo político de Antonio Carlos Magalhães.
Moisés Azevedo (@azevedo3788)
A poucos meses da eleição de outubro, pesquisas eleitorais recentes apresentam um cenário político contraditório — ao mesmo tempo em que os governos de Jerônimo Rodrigues e Lula são bem avaliados pela maioria dos baianos e os ex-governadores petistas Jaques Wagner e Rui Costa aparecem bem posicionados na disputa pelo Senado, o ex-prefeito de Salvador Antonio Carlos Magalhães Neto (União Brasil) lidera para a corrida pelo Governo do Estado. Em uma longa entrevista, o cientista político Paulo Fábio Dantas analisa a conjuntura estadual; visita o passado para explicar o esquema político que permitiu a o PT baiano se manter no poder por quase vinte anos e traça paralelos entre as trajetórias políticas de ACM Neto e do avô, ex-senador Antonio Carlos Magalhães.
Há poucas semanas, o professor Paulo Fábio apresentou a defesa do seu memorial de promoção a Professor Titular do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal da Bahia.
Atualmente, ele vem se dedicando a pesquisas sobre o pensamento político brasileiro — “Deixei de acompanhar Jaques Wagner e ACM Neto para me ocupar de Joaquim Nabuco, Raymundo Faoro, Luís Wernek Vianna e Santiago Dantas”, brinca.
Em 2024, o cientista político retornou ao tema da sua tese de doutorado defendida em 2004 ao publicar pela Editora da Universidade Federal da Bahia (EDUFBA) o livro ACM — político baiano – nacional. Cronologia de um fato consumado. Na obra, o cientista político destrincha a trajetória política de Antonio Carlos Magalhães e analisa as transformações da política baiana até a consolidação do ciclo petista que sucedeu o carlismo.
Atualização: A entrevista foi realizada em 10 de junho. Desde então, o senador Jaques Wagner, citado ao longo da conversa, foi um dos alvos da 9ª fase da Operação Compliance Zero, que investiga fraudes financeiras atribuídas ao Banco Master de Daniel Vorcaro. As apurações envolvem um suposto esquema de venda de carteiras de crédito sem lastro real — conjunto de empréstimos que, em tese, representam ativos de um banco porque geram valores a serem recebidos com juros.
A Polícia Federal realizou busca e apreensão na residência do senador em Salvador. Ele é suspeito de ter recebido propina do Banco Master.
Wagner nega as acusações, mas, após uma reunião com o presidente Lula, deixou a liderança do governo no Senado.
Lula oscilou de 66% para 61% no Nordeste em pesquisa BTG/Nexus divulgada na segunda (29). Uma oscilação de cinco pontos para baixo após a operação que mirou seu aliado.
Impressão Digital: As mais recentes pesquisas Genial/Quaest, de abril, e Paraná, de maio, mostraram que o governo Jerônimo Rodrigues tem uma boa avaliação, ao mesmo tempo em que o ex-prefeito de Salvador ACM Neto aparece na frente. Como explicar essa contradição?
Paulo Fábio Dantas: Esse aparente descompasso entre o que seria uma aprovação administrativa e uma rejeição política, na minha percepção, é mais uma aparência que a realidade. Já tem alguns anos que o arranjo de poder do PT se mantém apelando aos recursos tradicionais da política. Esses recursos são a influência relevante de um líder nacional, que é o presidente Luíz Inácio, que sempre teve na Bahia um grande prestígio eleitoral, e que, principalmente em 2022, teve uma influência decisiva. O outro fator, se considerarmos a cultura política da Bahia, é que o esquema de poder governamental sempre teve um poder imenso no estado.
A última vez que um governador foi eleito na Bahia sem o apoio do Governo Federal ou do Governo Estadual foi antes de 1964. A partir de 1982, quando as eleições para governador voltaram a ocorrer, não temos um exemplo de alguém que tenha se elegido sem apoio de um dos dois governos. O único que esteve mais próximo de uma situação foi o próprio Antonio Carlos (Magalhães) em 1990, quando ele era oposição no estado e, no plano federal, embora ele tivesse influência no governo Collor, os seus adversários também tinham — Nilo Coelho era o governador da Bahia e também era articulado com o governo Collor. Então, essa é uma realidade da Bahia que os vinte anos de governos do PT não alteraram.
A eleição de 2022 foi uma expressão disso. A Bahia é um estado imenso, com um grande número de pequenos municípios com um eleitorado pequeno; com uma arrecadação pequena, portanto, extremamente dependentes e, mesmo depois do Bolsa Família, do Sistema Público de Saúde (SUS), é tudo que fez com que diminuísse a influência do poder estadual, ainda assim é da tradição política baiana que as prefeituras dependem da rede de articulação política do poder estadual. A maior evidência disso foi em 2006, quando (Jaques) Wagner venceu e, semanas antes, a imensa maioria dos prefeitos apoiavam o governador Paulo Souto. Só que eles não conseguiam comandar os seus eleitores e no final das contas terminaram aderindo à onda que veio de baixo.
“Já tem alguns anos que o arranjo de poder do PT se mantém apelando aos recursos tradicionais da política”
“Ele (ACM Neto) construiu uma imagem política através de referências distintas das do avô”
Impressão Digital: ACM Neto está sem mandato desde 2021. Há um mês, entrevistei o professor Valdemar Araújoe ele disse que, mesmo com o desgaste de vintes anos de governo, acredita que, pelo uso da máquina pública, o PT tende a se manter no Governo da Bahia nas próximas eleições. O que uma nova derrota política poderia significar para sua trajetória política?
PFD: Analisar a trajetória de ACM Neto requer voltar lá atrás, em 2008, quando ele foi candidato a prefeito de Salvador pela primeira vez e ficou em terceiro lugar; depois, eleito prefeito em 2012 e reeleito em 2016, com o mandato encerrado em 2020. Quando analisamos essa trajetória — do deputado federal candidato a prefeito em 2008 até o ex-prefeito, que não disputou a eleição em 2018 e disputou em 2022, vemos um político que construiu uma imagem através de referências distintas da do avô (o senador Antonio Carlos Magalhães). Isso não quer dizer um rompimento com a memória do avô, pelo contrário — em muitos momentos, ele cultivava o lado positivo dessa memória, como a imagem do administrador competente; do homem que amava a Bahia. Mas ele trabalhou num diapasão completamente diferente do avô no campo da política.
ACM buscava consolidar o poder no Estado para ter influência nacional, ao mesmo tempo que buscava uma mínima influência nacional para se consolidar no Estado — a dialética baiano-nacional —, tanto que ele insistiu em Luís Eduardo (Magalhães; deputado federal morto em 1998) para que ele disputasse o Governo da Bahia para aspirar alguma coisa nacional. Esse era o esquema do Antonio Carlos e ele tinha um elemento diferencial que levava os governos a negociarem com ele sempre antes do partido, porque ele tinha um peso especial — a Bahia.
A trajetória de Neto foi totalmente diferente, até porque ele não tinha opção (ele já não tinha o Governo da Bahia). Ele se ligou, organicamente, à oposição ao PT no plano nacional. Ele fez um discurso liberal em economia, mas também liberal em costumes e, com um discurso moderado, conseguiu amealhar segmentos em Salvador que até votavam na esquerda.
A ascensão de ACM Neto foi toda nessa direção até o momento em que essa polarização extrema se estabeleceu na política nacional a partir de 2018 e começou a cobrar dos atores estaduais um alinhamento com um lado ou o outro. Ele resistiu a esse alinhamento o quanto pôde.
Então, quando você me pergunta sobre o futuro de ACM Neto, eu digo que as chances que ele tem de ser uma liderança nacional de peso estão em uma alternativa de terceira via nacional. Caso essa polarização estéril permaneça até 2030 na política brasileira, acho que a tendência é ele ser ultrapassado por gente com posição mais extremista que a dele.
ACM Neto prepara-se para mais um enfrentamento ao PT. Foto: Instagram.
“A partir de 2011, o PT passou a montar na Bahia um esquema de domínio equivalente ao que o carlismo havia tido uma década antes”
O senador Antonio Carlos Magalhães e o deputado Luís Eduardo Magalhães. Fotos: Arquivo.
ID: O senhor é autor da biografia sobre o senador Antonio Carlos Magalhães. Quais lições o período final do carlismo, ainda com o senador ACM, deixou para grupos que se mantêm por longos ciclos no poder?
PFD: O que eu chamei de carlismo pós-carlista no livro, que é o período da crise do painel do Senado, quando Antonio Carlos teve que renunciar, perdeu os seus cargos no Governo Federal (governo Fernando Henrique Cardoso) e perdeu a sua influência na política estadual por causa disso, até a vitória do PT em 2006. O domínio da política estadual era do grupo carlista, mas não era somente ACM.
Você tinha Paulo Souto, José Carlos Aleluia e (Antonio) Imbassahy procurando caminhos de diferenciação sem romper com ele, mas tentando seguir o script lá de trás do Luís Eduardo. Esse grupo buscava renovar o carlismo para além da figura pessoal do Antonio Carlos — e conseguiram isso, ganharam as eleições de 2002 — e trabalhavam isso dentro do governo.
Mas ACM trabalhou contra isso. Ele tentou se aproximar do PT — no começo do governo Lula, mas foi rechaçado — e obrigou que esse grupo aceitasse uma candidatura ao Senado do bolso dele; obrigou um candidato a prefeito (César Borges), que não tinha nenhuma relação com Salvador.
Então, havia ACM de um lado e, do outro, Lula se articulando com Jaques Wagner para ganhar uma parte dos setores que esse grupo (Souto, Aleluia e Imbassahy) queria ganhar para si. Com isso, o projeto desse grupo político dentro do carlismo foi por água abaixo, perdendo as eleições de 2006.
Aí acaba o carlismo pós-carlista e entra o pós-carlismo, com Wagner e o PT já no governo cooptando um bocado de gente pelo interior; os partidos do grupo carlista apoiando o governo.
Quando Wagner se reelege em 2010, derrotando Geddel (Vieira Lima) — com quem havia rompido — e Paulo Souto, e trazendo Otto Alencar como vice, fundando um novo partido (PSD) e pegando todos os prefeitos que antes o PT tinha passado para o MDB, acabou o grupo carlista na Bahia e o PT passou montar, a partir de 2011, um esquema de domínio equivalente ao que o carlismo havia tido uma década antes e só não prosseguiu assim — ao ponto de não ter nem adversário — por causa da crise nacional, que levou ao impeachment de Dilma e a todo um esvaziamento do PT.
ID: Mas, me refiro ao desgaste político acumulado por anos de poder. Existem semelhanças entre o período que levou a derrota do carlismo para o PT em 2006 e o PT governando a Bahia há quase vinte anos?
PFD: Há duas diferenças que eu considero muito importantes. A primeira é que o PT contou com o apoio federal para derrubar o carlismo — ACM Neto não tem isso. O esquema do PT, por mais desgastado que esteja, está com o poder federal. Talvez isso explique o prognóstico de Valdemar (Araújo; cientista político e professor da UFBA, que foi o entrevistado na primeira edição do IMPRESSÃO DIGITAL deste semestre) sobre a possibilidade de continuidade do PT.
A segunda diferença é que o grupo carlista em 2006 foi derrotado apesar do crescimento que vinha obtendo desde 2002. O carlismo não estava em processo de derretimento quando perdeu o governo em 2006; era a imagem pessoal do Antonio Carlos que derretia.
O que vemos hoje: as imagens pessoais de Jaques Wagner e Rui Costa não estão derretendo — eles estão bem colocados para a eleição no Senado.
O grupo que governa a Bahia atualmente está em uma situação de refluxo em comparação ao carlismo em 2006. Além disso, em 2006, os esquemas estaduais gozavam de uma autonomia para serem montados, que hoje não gozam mais por causa dessa extrema polarização da política nacional, que estreita o caminho através do qual lideranças hábeis, como o próprio Wagner no campo petista e o próprio ACM Neto nos primeiros anos. É como assistir hoje a um jogo da Copa de 70 e ver o Gérson (meio-campista da Seleção Brasileira de 1970) receber a bola; ter tempo de matá-la no peito; olhar para os lados para ver onde lançar; e fazer aqueles lançamentos geniais. Você fica admirando aquilo, como você pode admirar a estratégia montada por Jaques Wagner para se tornar governador ou como foi a estratégia do próprio ACM para passar para o campo democrático. Não sei como seria um jogador como Gérson hoje — assim que a bola chegasse nele, já tinha três em cima. Esse é o problema dessa extrema polarização. Os atores políticos ficaram menores.
“O que sabíamos era do plano para tornar Luís Eduardo governador da Bahia e, possivelmente, presidente em 2002. Houve a possibilidade de Lula enfrentar um candidato do PFL em 2002 — além de José Serra pelo PSDB”
ID: O deputado Luís Eduardo Magalhães apontava para uma renovação, mas, com ele, o carlismo teria se adaptado melhor às mudanças políticas dos anos 2000?
PFD: Eu tive um professor no IUPERJ (Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro) , chamado Renato Lessa, um importante cientista político, que dizia que em política não existe o futuro do pretérito. O que sabíamos era o plano para tornar Luís Eduardo governador da Bahia e, possivelmente, presidente em 2002. Houve a possibilidade de Lula enfrentar um candidato do PFL em 2002 — além de José Serra pelo PSDB…
“ACM teve dificuldades em cumprir a promessa que fez diante do caixão do filho. Ele usou a imagem do candomblé, dizendo que, naquele momento, iria incorporar o filho e se transformaria em dois — teria, ao mesmo tempo, a força que sempre teve somada à habilidade política de Luís Eduardo”
ID: O senhor, inclusive, menciona no livro a pré-candidatura da ex-senadora Roseana Sarney pelo PFL…
PFD: Sim, havia dois projetos no PFL — um de Antonio Carlos, que eu não sei se também era do PFL, e outro que foi a Roseana Sarney, que foi implodido meses antes das eleições. Então, se consolidou em 2002, a polarização PT-PSDB.
É impossível adivinhar isso. O carlismo, como grupo político, mesmo com ACM, e com Luís Eduardo, se adaptou muito à realidade do Brasil. O carlismo nos anos 90 não operava do jeito que operou na ditadura. Ele usava o capital político que o Antonio Carlos tinha acumulado durante a ditadura e passou a jogar dentro das regras do jogo democrático.
Depois que o Luís Eduardo morreu — e isso é minha interpretação — ACM teve dificuldades em cumprir a promessa que fez diante do caixão do filho. Ele usou a imagem do candomblé, dizendo que, naquele momento, iria incorporar o filho e se transformaria em dois — teria, ao mesmo tempo, a força que sempre teve somada à habilidade política de Luís Eduardo. Ele não teve isso a partir do momento em que se perdeu em uma série de confrontos com (o senador) Jader Barbalho aqui; com o ministério do Fernando Henrique Cardoso ali; e isso culminou no processo que o despojou da influência política nacional que tinha antes da eleição de Lula em 2002.
Então, o que sabemos é, em primeiro lugar: Luís Eduardo morreu; segundo: Antônio Carlos teve dificuldade em levar o processo de adaptação do carlismo ao jogo democrático; e terceiro: o grupo que tentou dar continuidade a essa adaptação (Paulo Souto, Imbassahy e José Carlos Aleluia) não conseguiu porque, do lado oposto, uma outra estratégia política, também muito hábil, foi articulada, tendo Jaques Wagner como figura central. Passou então a haver um outro grupo político com articulação nacional. Antônio Carlos se destacava dos outros porque ele era o único com influência nacional.
Moisés Azevedo – Estudante de Jornalismo da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (UFBA).
A motivação para a pauta surgiu do interesse pelo jornalismo político e pela análise do cenário eleitoral, da polarização e seus impactos.
