Crianças ficam de fora do São João escolar por questões religiosas

Manifestação cultural enfrenta mudanças na terminologia para que haja participação de todas as crianças

 

Gabriel Freitas (@gabrielfreitts)

 

Tradicional festa cristã com força expressiva na Região Nordeste, o São João é comemorado nas praças, igrejas católicas e em colégios, com uma efervescência cultural fortíssima entre a criançada. No entanto, a beleza junina também ganha contornos complexos entre filhos de pais evangélicos, o que pode gerar um saldo prejudicial a essas crianças.

 

Enquanto uma parcela espera ansiosamente para ensaiar a quadrilha, costurar o figurino e comer os quitutes tradicionais, outra prefere não participar devido aos dogmas religiosos. Diferente da Igreja Católica, em que há uma veneração aos santos católicos, os evangélicos consideram idolatria e por isso se isentam das celebrações.

 

O cenário tende a ficar ainda mais evidente, já que os evangélicos têm tido uma crescente significativa no Nordeste. Em 2010, a população protestante representava 16,4% dos nordestinos, já em 2022, os números subiram para 22,5%, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Apesar de não ser feriado nacional, a maioria dos trabalhadores nordestinos é liberada , já que os municípios da região adotam a data como feriado. 

 

A diretora Edna Conceição, mais conhecida como Pró Naná, do Colégio Centro Educacional Duque de Caxias (Ceduca), em Valença, decidiu mudar alguns termos e optou pela retirada do “São João”, passando a adotar “Festa da Colheita”, após os pais evangélicos fazerem reclamações contínuas. Sem destaque ao santo católico, a coordenadora explicou que a festa mantém características tradicionais dos festejos, com as comidas típicas, roupas quadriculadas e um ‘forrozinho’ de fundo, mas sem menção religiosa. 

 

“Como os pais não querem o ‘São João’, por conta dos santos, nós homenageamos os agricultores e trabalhadores rurais, já que é do campo que vem tudo. Deixando os termos São João e São Pedro de lado para focar nos trabalhadores rurais e a colheita do meio do ano”, explicou a profissional que lida com educação há 40 anos. 

 

Pró Naná está à frente do Colégio Ceduca há 40 anos / Foto: Gabriel Freitas

 

Apesar de Pró Naná apontar que a mudança acontece pela colheita dos trabalhadores rurais, a nomenclatura “Festa da Colheita” tem uma referência bíblica. No livro sagrado, a Festa da Colheita, também conhecida como Shavuot ou Pentecostes, era uma celebração agrícola que marcava o fim da colheita do trigo e da cevada. Este era um momento de graças a Deus pela abundância da colheita. A festa também tinha um significado espiritual, pois comemorava a entrega da Lei (Torá) a Moisés no Monte Sinai.

 

A situação é semelhante na escola onde o filho do jornalista Wiliam Falcão, de 32 anos, morador de Salvador, estuda, já que a diretora da unidade de ensino é evangélica. Sem São João, a dinâmica também passou a ser chamada de Festa da Colheita. No entanto, apesar de evangélico desde o nascimento, por ser levado à igreja pela mãe, o comunicador não impede o pequeno Gabriel de participar, por entender a importância do filho estar inteirado nas tradições culturais da região. 

 

“Eu permito [a participação] tranquilamente, já que eu sempre fui. A gente não pode impor, nem privar as pessoas de nada, mesmo sendo pai. É importante que eles conheçam tudo, para que não digam que foram influenciados e siga determinada religião por pressão”, detalha Wiliam, que ainda reforçou se dedicar para explicar todas as dúvidas do filho, sem criar estereótipos de outras religiões. 

 

Prejuízo pedagógico

 

Para a realização da festa com quadrilha, cordel e muito mais, as crianças se reúnem para ensaiar, o que gera uma ansiedade na garotada. Além disso, também há os preparativos da costura do figurino, a apresentação com vários pais e mães, o cuidado em estar bonito e muito mais. No entanto, muitas vezes essas crianças acabam ficando de fora. 

 

A diretora do Ceduca confirmou a dificuldade de lidar com as crianças que ficavam de fora da dinâmica, já que “elas não entendiam”. “As crianças viam as outras animadas, com as roupas, a dança dos casais e se perguntavam: ‘Porque eu não estou aí?’”, relatou. 

 

Jaci Cruz atua na área de psicopedagogia clínica / Foto: Acervo Pessoal

 

Esse sentimento de não se sentir ligado ao local gera um problema pedagógico na construção da criança, na visão da psicopedagoga clínica Jaci Cruz. A profissional pontuou a importância de haver “pertencimento, interação social e participação em experiências coletivas” no período da infância. Ela também salientou que tais festas não são feitas para adesão religiosa, já que o enfoque é ter um trabalho pedagógico, cultural e social. 

 

No entanto, se a decisão familiar é de que a criança não participe, Jaci aconselhou que haja alguns cuidados como: 

 

➡️ Explicar a decisão de forma tranquila;
➡️ Buscar equilíbrio entre os valores religiosos e a convivência social;
➡️ Evitar comparações, exposições ou constrangimentos;
➡️ Oferecer alternativas de participação e integração;
➡️ Trabalhar o respeito à diversidade cultural e às diferentes crenças no ambiente escolar.

 

Crianças se fantasiam com figurinos característicos do São João / Reprodução/Assembleia Legislativa da Paraíba

 

Visão protestante

Pastor da Primeira Igreja Batista (SIB) Fabrício Moreira, teólogo e graduando em Psicologia, diz não orientar os fiéis sobre a participação ou não dessas crianças nos eventos juninos, mas contou que seus filhos optam por não participar, pelo que aprenderam em casa sobre o significado da data.

 

“Não há uma orientação direta, no entanto, quem chega até a mim e pergunta a minha opinião pessoal, eu dou. Os meus filhos foram ensinados, desde pequenos, sobre o significado da festa e entenderam que nós [evangélicos] não comemoramos. Então, eles, naturalmente, abdicaram de participar”, disse o pastor. 

 

Pastor Fabrício Moreira dirige a SIB há 12 anos / Foto: Reprodução/Instagram/@sibvalenca

 

Contudo, o pastor Fabrício fez questão de salientar que observa as atividades escolares como uma ferramenta de manutenção da cultural local. O teólogo pontuou que a festa católica celebra a vida de João Batista, mas carrega tradições oriundas de povos pagãos. 

 

Quando sai da discussão pedagógica e vai para festas juninas espalhadas pelas praças das cidades, o teólogo pontuou que faz uma pergunta provocativa: “É lícito participar?”, já que tem cantores seculares, bebida e forró. 

 

“Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém”, disse o pastor Fabrício Moreira baseado na passagem bíblica em 1 Coríntios 6:12.

 

Herança da colonização 

 

Antes da chegada dos portugueses, não havia festa de São João. A partir da consolidação do que se entende por Brasil, tradições católicas-europeias se tornaram parte do calendário brasileiro, segundo o Professor de História da Bahia, na Faculdade Católica de Salvador (UCSAL), Murilo Mello. 

 

Mello ainda salienta que a vinda da festa traz muitos elementos culturais da França, como a expressão “quadrilha”. No entanto, apesar de advir da Europa, no Brasil a festa católica ganha elementos próprios, principalmente na Região Nordeste, com a junção de características indígenas e africanas. 

 

Apesar de ser atrelada ao São João, o professor de História explica que o dia 24 de junho tem um peso para além do santo católico. “A data tem uma simbologia muito forte para além dos católicos. O 24 de junho é um dia de solstício. Um dia importante para colheita, para o clima e calendário. Já era uma data comemorada antes do catolicismo”, detalha.

 

Já nas escolas, a celebração ganha força na segunda metade do século XX, conforme explica o professor. Já com contornos típicos da região Nordeste, a comunidade escolar passou a ensaiar os passos da quadrilha, pintar o dente de preto e fazer os casamentos caipiras. 

 

Gabriel Freitas, 22 anos, é estudante de Jornalismo na Faculdade Comunicação (Facom) da Universidade Federal da Bahia (UFBA). É estagiário no Portal MASSA!, veículo do Grupo A TARDE. Tem experiência em coberturas esportivas e culturais, além de já ter produzido reportagens de cotidiano e comportamento.

 

A pauta surge a partir de uma observação da crescente evangélica no país e o efeito sociocultural que tem gerado na população brasileira, com uma atenção maior à Região Nordeste. 

 

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