Copa além da Copa

 Como os adversários do Brasil no Mundial estão conectados com Salvador

 

Kaiky Menezes (@kaiky_menezes) e Lucas Santos (@lucas.csantoss)

 

Em tempo de Copa do Mundo, o futebol rouba a cena e vira o maior assunto não só do Brasil, mas do mundo. Em Salvador não é diferente, de uma forma ou de outra, todo mundo acaba abraçado pelo clima do Mundial. Caçando o hexa, a Seleção Brasileira  encarou Marrocos, Haiti e Escócia na primeira fase, duelos que pareciam apenas mais uma partida dentro do campo, mas que carregaram histórias e ligações com a cidade de Salvador. 

 

De guerras e batalhas até a culinária, são várias as influências desses países na capital baiana, indo muito além de um jogo na Copa do Mundo, mas sim um símbolo de como a história acaba entrelaçando todo um povo. Muitas vezes acaba passando despercebida o tamanho da mistura e diversidade que Salvador tem, porém, aprofundando mais na história da cidade, encontramos ligações com os mais variados países, um ecossistema que potencializa o tamanho cultural da capital. “A mistura significa potencialização. Se você fica apenas com o costume, você não tem diversidade, que é fundamental para o desenvolvimento. A mistura de cultura torna a gente único, dentre as nações globais, sem sombra de dúvidas, uma das que mais receberam imigrantes é o Brasil e a Bahia. Isso nos torna diferentes, a gente termina inserindo novos valores, aprendendo mais coisas, tendo mais elementos culturais”, diz o professor e historiador Murilo Mello.

 

O primeiro adversário do Brasil na fase de grupos do Mundial, o Marrocos, foi semifinalista no Catar em 2022. Localizado na região Norte da África, no Magrebe, o país é conhecido pela criação de um alimento base nos cafés da manhã de qualquer nordestino e, principalmente, soteropolitano: o cuscuz.

 

Com raízes nos povos berberes, nômades que vivem na região até os dias de hoje, o cuscuz marroquino, como é chamado hoje em dia, foi criado por volta do século VIII. Tempos depois, o alimento tradicional foi trazido ao Brasil pelos colonizadores de Portugal, país que expulsou os árabes em 1492, oito anos antes da chegada lusitana à América do Sul. Em terras tupiniquins, o cuscuz passou por mudanças em relação ao original.

 

Cuscuz Marroquino e Cuscuz Nordestino. Créditos: Guia da Cozinha e Reprodução

 

“O cuscuz marroquino é tradicionalmente feito de sêmola de trigo e, atualmente, a versão mais encontrada no mercado já vem pré-cozida, bastando ser hidratada com água quente ou caldo de legumes. Já o nosso cuscuz nordestino é feito à base de milho e passa pelo cozimento a vapor, o que lhe confere textura e sabor característicos. É interessante observar como duas culturas tão distantes desenvolveram preparações que compartilham princípios semelhantes, mas que ganharam identidades próprias ao longo da história”, explica Zeina Chalhub, chef de cozinha, especialista em culinária árabe e proprietária do restaurante Arabesque, localizado na Pituba.

 

A cultura árabe, para além do cuscuz, foi muito fortificada com a chegada dos escravizados muçulmanos, que também viriam a protagonizar a Revolta dos Malês. “Nossa identidade foi construída a partir do encontro entre diferentes povos que trouxeram suas tradições, sua religiosidade, sua música e também sua gastronomia. Vejo essa mistura como algo extremamente positivo, porque ela nos ensina a valorizar nossas origens e, ao mesmo tempo, respeitar e aprender com as tradições dos outros povos”, opinou a chef de cozinha.

 

Haiti

 

Apesar de ser “peixe pequeno” dentro do futebol, o Haiti, segundo adversário da Seleção na Copa, carrega o legado de um dos maiores eventos históricos de todo o continente: a Revolução Haitiana, revolta liderada por escravizados que libertou o país da colonização francesa em 1804. Com início em 1791, o chamado “Haitianismo” se alastrou pelo continente e gerou medo nas colônias européias. Em Salvador, uma das principais revoltas em solo brasileiro, contemporânea à haitiana, foi a Conjuração Baiana, também conhecida como Revolta dos Alfaiates, que ocorreu entre 1798 e 1799, liderada por negros libertos, como Luís Gonzaga das Virgens e Lucas Dantas, e acabou suprimida pelos colonizadores.

 

“A Revolução Haitiana reverberou na América inteira escravista, principalmente na Bahia, que tinha um contingente muito grande. Tem um aumento de repressão, várias proibições em relação à manifestação cultural e ao comportamento social dos escravizados. A Conjuração Baiana, ela começa sendo uma conjuração elitizada, das pessoas que tinham acesso aos livros, o iluminismo. Depois que vai ter uma participação popular de alfaiates e de soldados, muito incentivada pelo o que aconteceu no Haiti”, descreveu o historiador Murilo Mello.

 

Convento de Nossa Senhora da Piedade, em Salvador, local onde foram executados os líderes da Conjuração Baiana. Gravura de Johann Moritz Rugendas, 1835.

 

Escócia

 

Último adversário do Brasil na fase de grupos da Copa do Mundo, a Escócia não tem uma grande tradição no futebol, mas para a surpresa de muitos, tem fortes ligações com Salvador. No início do século XIX, em 1823, a Bahia lutava pela sua independência, e um nome que participou ativamente desse processo foi o de um almirante escocês, o Thomas Lord Cochrane, que também lutou na Independência do Maranhão, no mesmo ano.

 

“Cochrane tem um valor inestimável. Quando a gente inicia o confronto com Portugal, a gente não tinha um exército formado, não tinha nem um ano de país, era apenas uma extensão de Portugal, com tropas sem noção de batalha. Mas aí o Lord Cochrane, que é uma lenda do mar, vai organizar a nossa força marítima. Ele tinha lutado contra Napoleão, a favor dos ingleses, nas guerras napoleônicas, aí ele começa a lutar aqui pela independência de algumas nações da América do Sul. A gente mandou construir um espaço em homenagem a ele em Pirajá, lá estão os restos mortais dele. Ele é considerado um herói da Bahia”, conta Murilo Mello. O nome do escocês ficou marcado na memória soteropolitana a ponto de nomear uma praça, localizada na Avenida Garibaldi, e uma rua residencial e comercial, localizada no bairro da Barra.

 

 

Thomas ‘Lord’ Cochrane. Crédito: James Ramsay

 

Ainda no século XIX, mas alguns anos depois, a Escócia influenciou em um dos principais símbolos da cidade de Salvador: o Farol de Itapuã. “O Farol de Itapuã, como a gente conhece hoje, foi pré-fabricado, desmontado por navio da Escócia. Contratou-se uma empresa escocesa, a MacLellan, especializada na construção de faróis, em 1873. Houve um grande naufrágio de um navio francês, o que fez com que se acelerasse a construção e o pedido do farol que veio da Escócia e foi alocado na Pedra da Piraboca. No final do século XIX, quando ele foi instalado, Itapuã era muito longe. Ao longo do tempo, a cidade foi crescendo para Itapuã e cada vez mais o farol foi ganhando um significado e identidade com o soteropolitano, sendo um dos maiores símbolos da baianidade”, explica Mello.

 

Farol de Itapuã. Crédito: Divulgação/Sefaz

 

Japão

 

Primeiro rival da Seleção Brasileira no mata-mata da Copa do Mundo, o Japão é uma das maiores potências do mundo atualmente, exportando sua cultura pelo mundo inteiro, incluindo Salvador. Para além do futebol, outro esporte que une a capital baiana com o país asiático é o Judô, criado no Japão em 1882, por Jigoro Kano, como uma adaptação do estilo de luta dos antigos samurais, outro grande símbolo da história japonesa.

 

“O judô forma pessoas, vai muito além da luta. O foco é o desenvolvimento de quem o pratica. Dando auto estima, interação social, autocontrole emocional, dentre outras coisas. É uma metodologia que incentiva bastante a disciplina, algo que vem muito do Japão”, conta o professor de judô Elson Carvalho, líder do projeto Judô Para Todos, com diversas sedes em Salvador.

 

Segundo números da Confederação Brasileira de Judô, o país tupiniquim tem mais de 2 milhões de judocas, um número 12 vezes maior que no Japão, com cerca de 160 mil praticantes. Hoje, o Brasil é uma potência do esporte, possuindo 28 medalhas olímpicas no judô, sendo 5 ouros, 4 pratas e 19 bronzes, com a capital baiana sendo um grande berço da modalidade. 

Delegação Brasileira posa no pódio com o bronze conquistado por equipes mistas nas Olimpíadas de 2024 – Crédito: Miriam Jeske/COB

“O judô vem se mostrando cada vez mais relevante no cenário esportivo da cidade, com jovens disputando campeonatos nacionais e internacionais, conquistando bolsas de 100% em faculdades e outros feitos. Salvador colabora muito no cenário do judô”, finaliza Carvalho.

 

Kaiky Menezes é estudante de Jornalismo na UFBA desde o semestre de 2023.2, mesmo período onde se tornou membro da Liga de Jornalismo Esportivo da UFBA (LJEU), que permaneceu até o início de 2026. Profissionalmente, desde fevereiro de 2025, Kaiky é estagiário do caderno de esportes do Jornal Massa!, além de administrar o perfil debateydebate nas redes sociais desde 2021 e ser um dos apresentadores do podcast esportivo Debate-se, produto da Rádio FACOM, desde 2024.

 

Lucas Santos é estudante de Jornalismo na UFBA desde o semestre 2023.2, onde se tornou membro da Liga de Jornalismo Esportivo da UFBA (LJEU), em que chegou a ocupar o cargo de diretor da área editorial em 2025 e a atuar como comentarista de jogos de futsal. No âmbito profissional, Lucas trabalhou no portal Varela Net em 2025 e, há pouco mais de 1 ano, atua no caderno de esportes do jornal impresso do Massa! Além do trabalho regular, Lucas é um dos apresentadores do podcast esportivo Debate-se, produto da Rádio FACOM, desde 2024.

 

Esta reportagem foi motivada pelo início da Copa do Mundo e pelo desejo dos autores de explicar e entender como a história desses países poderia estar ligada à cultura de Salvador. A abordagem feita foi pensando na questão histórica e gastronômica, pontos fortes da capital baiana e das outras três culturas envolvidas na matéria.

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