Bahia é o 2º estado com maior número de mães-solo do Brasil, segundo IBGE. Impactadas pela pobreza, desemprego e informalidade, mulheres negras representam a maioria.
Deinally Santos (@deinallyst) e Mariana Abreu (@littlejornalista)
Às quatro horas da manhã, Marli já está de pé. A rotina que começa antes do sol nascer e vai até a meia-noite é uma realidade para muitas mães soteropolitanas que chefiam o lar sozinhas. Segundo o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2022, a Bahia ocupava o 2° lugar no ranking de estados com maior número de mães-solo no Brasil, representando 20,4% das cerca de 7,8 milhões de mulheres que cuidam dos filhos sem a presença do cônjuge ou de outros parentes. Em primeiro lugar, ficou o estado de Sergipe (21,61%).
Em Salvador, o número de mulheres sem cônjuge com filhos é de 24,02%, o dobro em relação aos homens, que representam 11,5% na posição de chefes de família. Em números brutos, do total de 197.523 famílias baianas, 22.768 homens ocupam a posição de chefes de família, enquanto 174.755 são mães-solo. Quando destrinchamos esses dados, é possível perceber que as mulheres pretas e pardas são maioria nesse cenário. Enquanto as mulheres brancas representam 86,83% (134.832), as mulheres pretas e pardas representam 88,14% (223.207) e 87,91% (457.452), respectivamente no estado da Bahia.
Ao analisar os números anteriores, a reportagem percebeu que o número de mulheres que são chefes do lar no país aumentou nas últimas três décadas, o que mostra que o crescimento da monoparentalidade feminina não é algo recente, mas uma realidade que vem ganhando força de maneira contínua. No ano de 2000, o índice de mães-solo no país era de 11,6%, saltando para 12,2% em 2010 e atingindo a marca de 13,4% no último Censo de 2022.
Marli Cerqueira faz parte da estatística de soteropolitanas que chefiam a casa. Mãe de uma adolescente de 13 anos, a professora da rede municipal de ensino conta as dificuldades que atravessam o seu cotidiano. “Minha rotina é muito exaustiva, eu acordo 4h20 da manhã, todos os dias. Preciso sair bem cedo porque trabalho bem distante do meu bairro. Pego dois ônibus, dois metrôs, todos os dias para trabalhar no meu primeiro emprego e tenho que deixar tudo antes organizado”, descreve Marli, que no turno da tarde trabalha em uma clínica que atende crianças atípicas.
A correria presente na vida dela se tornou rotineira há 13 anos, momento em que se tornou mãe-solo, sendo responsável pela criação da sua filha mais nova, que na época era um bebê, e a sua filha mais velha, hoje com 24 anos e independente. Para ela, tudo é um desafio, porque, para além do papel de educadora, função que exerce sozinha, tem a administração financeira para dar conta. “Eu tenho que fazer a minha parte e a parte do outro que não está presente, tomar decisões com relação a como educar, qual conselho dar e um dos maiores desafios é manter um equilíbrio nas finanças e nos serviços do dia a dia”, explica a professora.
No dia 28 de outubro de 2025, esse abandono afetivo relatado por Marli por parte do seu ex-cônjuge se tornou, no Brasil, um ilícito civil – conduta que viola uma norma jurídica ou um dever legal, causando dano a outra pessoa – a partir da Lei nº 15.240, promulgada pelo vice-presidente da República, Geraldo Alckmin. A lei do abandono afetivo altera o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), estabelecendo que é de competência dos pais prestar assistência afetiva por meio de convívio ou visitação periódica, que permita o acompanhamento da formação psicológica, moral e social da pessoa em desenvolvimento.
Marli conta que, durante esses treze anos sendo mãe-solo, teve de abrir mão de muita coisa. “De cursos que precisava fazer, de autocuidado, de saúde, lazer… Muita coisa na minha carreira ficou para trás, pois por minhas filhas serem pequenas, as coisas delas tinham que vir primeiro. A questão da saúde mesmo, ficou para trás, e lazer também, muito trabalho e pouco lazer”, relata.
Além dos desafios na educação das filhas, a professora diz que outro grande impacto sofrido por quem é mãe-solo é o financeiro. “Para me organizar financeiramente foi bem difícil, porque ele era o provedor total da casa e eu tive que me dedicar mais tempo para trabalhar, para poder me sustentar, sustentar minhas filhas, todas as demandas de uma casa”.
Sem rede de apoio e sendo responsável pelas contas da casa, Marli diz que já recorreu a programas de assistência social. “Já cheguei a recorrer a ajuda financeira do governo, mas não fui contemplada e depois não tentei mais. Fui em busca do meu sustento, através do meu trabalho mesmo”. Segundo ela, a pressão para quem assume uma família traz uma sobrecarga muito grande e que, além de trabalhar em dois empregos, empreende em mais duas áreas: faxina e aluguel de artigos para festas “para conseguir se manter dignamente”.
Já para a também professora da rede municipal de ensino, Dejane Nascimento, de 51 anos, ser mãe solteira já a sobrecarregou bastante, mas a sensação era pior antes. Agora, com o filho adolescente, o peso diminuiu. Ela afirma que o pai do seu filho é presente e que, por mais que more com a mãe — a qual ela considera a sua rede de apoio — o pai atua como se estivesse em um regime de “guarda compartilhada”. “Ele é um pai presente e sempre que eu preciso que ele converse com o meu filho, ou que saia com ele, ele consegue dar essa “ajuda”, explica Dejane. Mesmo com o auxílio do ex-cônjuge, ser mãe-solo ainda assim é um desafio para ela. “Mesmo tendo uma fonte de renda, tem meses que aperta um pouco, que não dá para cobrir todas as despesas e aí a gente vai equilibrando uma coisa aqui outra ali”, conta a educadora.
Impactos na saúde mental
O número 174.755, que representa a quantidade de mães-solo em Salvador, pode parecer distante e frio em um primeiro momento, mas para cada mulher que diariamente enfrenta esse peso e sobrecarga, os sintomas podem ser sentidos na pele. Para a psicóloga Vilma Marinho, que atua há quase uma década na área clínica, é comum que o corpo sinta a repercussão do sofrimento emocional.
“Entre as manifestações mais comuns dos sintomas estão insônia, fadiga persistente, dores musculares, cefaleias, alterações gastrointestinais, além da prevalência de sintomas como ansiedade, depressão, estresse crônico e esgotamento parental (parental burnout)”, explica a profissional. Vilma destaca que ser mãe-solo, por si só, não causa transtornos mentais. O risco aumenta quando existem fatores como vulnerabilidade socioeconômica, isolamento social e ausência de apoio.
“Além de elaborar a própria dor pela ausência do outro genitor, muitas mães precisam acolher os questionamentos e o sofrimento dos filhos, o que aumenta ainda mais a carga emocional e pode favorecer o adoecimento psíquico”, ressalta a psicóloga Vitória Xavier. Ela diz que observa em sua prática clínica que muitas mães-solo em Salvador relatam sentimentos de sobrecarga, culpa materna, ansiedade, exaustão emocional, dificuldades financeiras, ausência de rede de apoio e solidão. “Também são frequentes as demandas relacionadas à educação dos filhos, à conciliação entre trabalho e maternidade e ao sofrimento decorrente da ausência paterna”, explica.
Mulheres negras são as mais impactadas
Tendo em vista que a quantidade de mães-solo negras é superior à de mulheres brancas, a assistente social Rebeca Barbosa, coordenadora de mulheres na organização da sociedade civil focada no combate ao racismo, Frente Nacional de Negros e Negras (FNN), afirma ser impossível falar sobre maternidade solo em Salvador sem falar sobre raça e desigualdade social. “Quando observamos quem são as mulheres mais impactadas pela pobreza, pelo desemprego e pela informalidade, encontramos majoritariamente mulheres negras. Na prática, isso significa que muitas mães-solo enfrentam mais barreiras para acessar oportunidades de trabalho, qualificação profissional e autonomia financeira”. Ela explica ainda que grande parte dessas mulheres vivem em territórios periféricos, onde os deslocamentos são longos e o acesso a alguns serviços ainda é mais difícil.
Apesar de não existirem políticas voltadas exclusivamente para mães-solo, Rebeca destaca programas como o Bolsa Família como forma de complementar a renda familiar e benefícios como o Salário-Maternidade e o Programa Primeiro Enxoval, do Governo da Bahia. Segundo ela, os Centros de Referência de Assistência Social (CRAS) de Salvador, com polos nos bairros do Nordeste/Lucaia, Federação e na Suburbana/Plataforma exercem um papel essencial no acesso ao Cadastro Único, aos benefícios sociais e às orientações sobre direitos. “Além disso, a rede de creches, escolas e programas de qualificação profissional também contribuem para ampliar as oportunidades dessas mulheres”, destaca.
Para as mães que vivem uma sobrecarga constante, Vitória orienta que essas mulheres consigam construir momentos de autocuidado e preservação da saúde mental, mesmo diante de uma rotina tão escassa de tempo ou apoio. “O autocuidado não precisa ser algo complexo. Pequenos momentos de descanso, estabelecer limites, reconhecer as próprias necessidades, aceitar ajuda quando possível, fortalecer a rede de apoio e investir em acompanhamento psicológico são estratégias importantes”, recomenda a psicóloga.
Para Vitória Xavier, “cuidar de si não é egoísmo, mas uma necessidade para que a mulher consiga exercer a maternidade de forma mais saudável”, conclui a profissional.
Deinally Santos – Estudante do 6° semestre de Jornalismo na UFBA, estagiária na rádio Metropole, gerente de mídias sociais e soteropolitana de coração. Ouvinte assídua e observadora nata.
Mariana Abreu – Soteropolitana, estudante do 6° semestre de Jornalismo na Facom, assessora de comunicação na Assembleia Legislativa da Bahia e estagiária do Portal A Tarde. Me interesso por histórias cotidianas e acredito que todo mundo tem algo que mereça ser compartilhado.
A motivação para a pauta se deu devido aos dados do último censo do IBGE de 2022 que apontou a Bahia como o 2° estado com mais mães-solo no país, ficando atrás apenas de Sergipe. A partir disso, buscamos entrevistar essas mulheres soteropolitanas e entender o dia a dia e as dificuldades inerentes ao cargo da monoparentalidade.
