A adaptação de filmes animados para o universo real está em alta nas telonas, mas até que ponto isso realmente é desejado pelo público?
Samara Faria (@s.faria_) e Antonio Marzaro (@antonio.marzaro)
Lançado pela Disney em 1937, “Branca de Neve” foi o primeiro filme longa-metragem produzido em animação. Quase 90 anos depois, em 2025, o live-action desse mesmo filme teve sua estreia em cinemas e plataformas de streaming, com a premissa de resgatar o clássico em um formato mais moderno. Diferentemente do esperado, o filme recebeu diversas críticas mesmo antes de seu lançamento, o que escancarou o descontentamento do público com o remake.
O termo live-action vem do inglês e é traduzido para “ação viva”, ou seja, são filmes que possuem atores e lugares reais em sua produção. Mas isso não significa que a maioria dos filmes são live-actions, pois outro fator importante é a derivação do roteiro de uma obra que antes era animada. Jogos eletrônicos, histórias em quadrinhos, filmes e desenhos animados, são exemplos de mídias que podem dar origem à um live-action.
“Parece que estão com preguiça de criar novas histórias e comprar novos roteiros. Estão apenas repetindo mais do mesmo por ser uma ‘fórmula’ que já funcionou”, afirma Beatriz Moura, estudante do Curso de Cinema e Audiovisual da Unijorge.

Mas bem antes do lançamento do remake de “Branca de Neve”, as telas de cinema já haviam reproduzido dezenas de outros filmes no modelo live-action, que traziam um novo estilo dos filmes antes animados, mas mantendo a história original. “A Bela e a Fera”, “Pinóquio” e “Dumbo” são apenas alguns exemplos dessas adaptações, com uma recorrente divisão na opinião do público: o encanto da nostalgia versus o desânimo pela falta de obras originais.
Fã de animações desde criança, Tâmara Lima, de 19 anos, conta que vê nos live-actions uma perda da magia, que é tão presente nos filmes clássicos. “O modo como boa parte dessas obras têm sido produzidas me passa o sentimento de que ‘remastigaram’ os elementos existentes, tornando a obra vazia e apenas mais do mesmo”.
Saindo do eixo Disney, outras empresas também aproveitam a tendência dos live-actions e tentam transformar diversos tipos de mídia em um produto audiovisual no modelo “real”. Somente no ano de 2026, além dos filmes da Disney, pelo menos outros cinco filmes serão lançados no modelo live-action, derivados de desenhos animados, jogos eletrônicos e histórias em quadrinhos. Títulos como “Mestres do Universo”, lançado em 04 de junho, e “Street Fighter”, previsto para o mês de outubro, chegam para tentar recuperar o público fã das mídias originais, mais uma vez apelando para a nostalgia.
Sucesso ou domínio?
Ao analisar o site Rotten Tomatoes, reconhecido como o mais confiável site de críticas e avaliação de filmes e séries, é notória a diferença de aprovação entre obras originais e live-actions. Com dois tipos de avaliação – uma feita pelos críticos, “Tomatometer”, e outra feita pelo público, “Popcornmeter” – o site, que existe há mais de 25 anos, acumula diversas opiniões sobre diferentes tipos de produções audiovisuais.
À exemplo de “Mestres do Universo”, que possui uma avaliação de 68% de aceitação dos críticos, o desenho animado original “He-Man” possui uma avaliação de 100% de aprovação. Outro exemplo notório é “Branca de Neve”: a animação possui 97% de aprovação, enquanto o remake de 2025 possui apenas 39%.

Se as opiniões acerca dos remakes são tão inferiores às dos filmes originais, por que as empresas continuam investindo nesse modelo?
Uma hipótese é que o retorno financeiro trazido por esses filmes ainda é alto o suficiente para tornar os live-actions essenciais na indústria cinematográfica. A exemplo de “Cinderella”, um dos primeiros filmes readaptados lançados pela Disney, a animação original rendeu em torno de R$490 milhões durante sua estreia, em 1950, segundo o site do IMDb (Internet Movie Database), enquanto o remake de 2015 faturou impressionantes R$2,58 bilhões mundialmente, partindo de um orçamento de R$493 milhões.
Doutora em Ciências da Comunicação com especialidade em Cinema, a professora Regina Gomes, da FACOM, discorre sobre o assunto: “Arrisco dizer que o interesse recente da indústria pelos live-actions vêm de uma memória afetiva do público aliada ao interesse de continuar com ‘aquilo que deu certo’, já que não seria financeiramente viável experimentar novos formatos. Apostar na mesma estética e narrativa é sempre mais seguro”.
Essa hipótese é observada também por estudantes e consumidores assíduos do cinema, que notam a forma como a indústria se aproveita de histórias já vistas antes. “Mesmo que o filme seja criticado em massa, ainda é um tipo de retorno. As pessoas assistem ao filme para criticar e isso gera um retorno para a indústria, tanto financeiro quanto em questão da divulgação. Só iriam parar de produzir [os live-actions] caso os prejuízos fossem em níveis catastróficos, porque são roteiros prontos que só precisam ser adaptados, como um tipo de fast-food do cinema”, opina Beatriz Moura.
Entretanto, a estratégia não possui 100% de garantia. De acordo com a presidente da Liga Acadêmica de Cinema da UFBA (Lacine), Lara Chaves, a escolha pela nostalgia ajuda com o hype do longa, mas não é uma certeza de retorno financeiro:
“Num contexto de crise do cinema, investir na nostalgia é uma forma de evitar a perda de arrecadação. Eles [estúdios] precisam apostar em novas ferramentas para terem público nas salas. Isso é o que realmente influencia a escolha de quais franquias eles vão reviver. Às vezes acertam, às vezes não”.

Com esse pensamento, estreias como Branca de Neve (2025) – que custou R$1,7 bilhões e arrecadou R$1,06 bilhões (prejuízo de R$640 milhões) – seriam consideradas fracassos retumbantes, já que não tiveram retorno financeiro e também não engajaram as pessoas a comparecerem às premières.
“O sucesso é relativo, é muito mais focado nesse financeiro. Não necessariamente no lucro do filme, mas no fluxo de pessoas na sala de cinema”, explica Lara Chaves, que também comentou como os estúdios utilizam a memória para angariar mais vendas: “O cinema tem focado na nostalgia para fazer a pessoa sair de casa e ir até as salas, porque se não for uma grande estreia, não tem por quê. Ela vai ter no streaming em duas, três semanas”.
Quase um século após “Branca de Neve” inaugurar a era de ouro da animação, o cinema tenta reencontrar seu norte olhando para trás. A cultura do live-action escancara um momento de transição em que o realismo técnico nem sempre traduz o encanto do desenho original. Entre o lucro garantido de ontem e as bilheterias incertas de hoje, a indústria audiovisual segue testando os limites da nostalgia. Para os fãs, fica a torcida para que o cinema do futuro não se esqueça de que, antes de se tornarem fórmulas comerciais lucrativas, os clássicos precisaram da coragem de um roteiro original.
Samara Faria é estudante de Jornalismo na FACOM | UFBA. Interessada por temas que perpassam cultura, arte e gastronomia. Busca o conhecimento sobre diferentes temas, e utiliza os textos e fotos como materialização dos sentimentos que a permeiam.
Antonio Marzaro é um forasteiro em Salvador e estuda Jornalismo na FACOM | UFBA. Embora seja apaixonado por esportes, tem um pézinho na cultura nerd: música, animações e videogames são alguns de seus hobbies.
Ambos apaixonados por cinema, o tema surgiu após uma conversa sobre a tendência cada vez maior de adaptações no ambiente cinematográfico e a vontade de entender a razão e comentários por trás desse fenômeno.
