Em entrevista ao Impressão Digital, o cientista político Valdemar Araújo (professor da UFBA) analisa como a polarização e a rejeição aos principais grupos políticos devem influenciar as eleições de 2026.
Moisés Azevedo (Instagram)
Em 2026, os brasileiros vão voltar às urnas para escolher presidente da República, governadores, senadores, deputados federais e estaduais. O pleito também poderá ser o último disputado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, marcando o fim de um ciclo político em meio a tensões entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.
Para analisar o atual contexto político brasileiro, o Impressão Digital conversou com o cientista político Valdemar Araújo, professor do Departamento de Ciência Política e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde ele pesquisa Estado, governo, democracia e políticas públicas.
Em 2016, em plena crise política que culminou no impeachment da presidente Dilma Rousseff, o cientista político publicou Presidentes fortes e presidência fraca, obra na qual analisa o presidencialismo brasileiro e a organização da Presidência da República entre 1930, com a ascensão de Getúlio Vargas, e 1989, na primeira eleição presidencial pós-redemocratização.
Na entrevista, Valdemar Araújo analisa o atual cenário político brasileiro, os desafios das eleições de 2026, o futuro da esquerda pós-Lula e a disputa política na Bahia. O cientista político também critica a polarização política e a falta de debate programático: “não se discute mais política no Brasil — o que se discute é a ameaça que o outro lado representa”.
Atualização: A entrevista foi realizada em 29 de abril e, desde então, o cenário político brasileiro sofreu novos desdobramentos. No mesmo dia da entrevista, o Senado rejeitou a indicação do atual ministro da Advocacia Geral da União (AGU) Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF), impondo uma derrota histórica ao governo Luíz Inácio Lula da Silva — os senadores não rejeitavam uma indicação para o STF havia 132 anos. Além disso, em 13 de maio, o portal The Intercept Brasil divulgou um áudio no qual o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro aparece tratando de repasses financeiros com o empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, para custear a produção cinematográfica “Dark Horse”, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, pai do senador, provocando novo desgaste político no campo bolsonarista.
Na terça-feira (19) foi divulgada mais uma pesquisa do instituto AtlasIntel sobre a disputa presidencial. O levantamento, realizado entre os dias 13 e 18 de maio — depois da reportagem do Intercept —, aponta um cenário de segundo turno na qual Lula aparece com 48.9% das intenções de voto contra a 41.8% de Flávio Bolsonaro. A pesquisa anterior, de 28 de abril, apontava empate técnico com vantagem numérica para Flávio Bolsonaro (47,8% a 47,5).
Impressão Digital: Como o senhor avalia o cenário político nacional às vésperas das próximas eleições?Valdemar Araújo: Vem se configurando, nos últimos anos, um cenário de polarização política que envolve vários aspectos políticos, partidários e eleitorais. Há um distanciamento do sistema político da sociedade e a insatisfação social com os sucessivos governos. Então, os candidatos, aproveitando essa tendência de insatisfação com o sistema político, percebem que as massas estão disponibilizadas para um discursos mais radicalizados. Isso será um círculo vicioso, no qual, quanto mais um ator político radicaliza um discurso, mais ele tem a possibilidade de garantir nichos.

ID: E qual o papel que as instituições políticas têm desempenhado nesse cenário?VA: Quem se colocou como contraponto ao processo de radicalização bolsonarista foram as instituições políticas, particularmente o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Senado. A Câmara dos Deputados é muito mais suscetível às pressões do bolsonarismo, enquanto o Senado acaba sendo mais independente.
Um senador tem mandato de oito anos e representa os estados, não diretamente o eleitor. Então, tanto o STF como o Senado tiveram um papel importante em criar obstáculos a um movimento totalitário que buscava excluir as minorias da arena.
“Ele (Lula) já deveria ter indicado um sucessor.”
ID: O senhor citou o período de consenso econômico que marcou 50 anos da história recente do país, inclusive com forte industrialização. Fale mais um pouco desse período.
VA: Foi um período de forte consenso entre as elites. Havia uma ampla associação entre industrialização e bem estar social. Industrializar era sinônimo de progresso social em um país que estava emergindo de um perfil socioeconômico agrário e rural. O contexto de competição geopolítica internacional de corrida das potências para construção de hegemonia industrial e militar criou um consenso de que a industrialização era uma prioridade para o Brasil.
Havia uma comunidade política, que não se restringia a atores políticos profissionais de carreira, mas também empresários influentes como donos de jornais. É muito importante para um país dispor de uma comunidade política nacional porque isso impede situações de abismo político.
A partir da crise do estado desenvolvimentista, principalmente nos anos 1980 e início dos anos 1990, essa comunidade política começou a se fragmentar porque a crítica ao estado interventor cooptou muitos industriais que se beneficiaram das políticas da era Vargas. Com o fim do projeto industrializante, não houve um outro à altura.
“Vai ganhar o candidato menos rejeitado.”
ID: A pesquisa do instituto AtlasIntel divulgada em 28 de abril aponta uma maior competitividade entre Lula e Flávio Bolsonaro. Como o senhor vê esse cenário?
VA: A eleição no Brasil é de dois turnos. Nesse quadro polarizado, será uma eleição de rejeição. Vai ganhar o candidato menos rejeitado. Por isso, Flávio Bolsonaro, que vem de uma família radicalizada, está se posicionando como alguém mais moderado, em que pese os conflitos com os próprios irmãos e com a madrasta Michelle Bolsonaro não estejam ajudando muito nesse projeto.
Existe uma lei histórica, secular e testada da ciência política que diz que o eleitor vota mais pelo que rejeita do que pelo que adere. Então, a campanha na mídia vai ser de um candidato pintando o outro como uma ameaça às condições de vida das pessoas. Uma ameaça ao emprego, à família, aos bons costumes. Infelizmente não vai ser programática, nem vai ter nitidez ideológica. Vai ser uma campanha de acusações.
ID: Como o senhor avalia o desempenho do governo Lula?
VA: Eu diria que Lula assumiu um Estado um pouco problemático e em condições adversas do ponto de vista orçamentário, com uma dívida pública elevada, precatórios e muita disputa judicializada. O governo precisou reconstruir instituições e retomar uma agenda de regularização fiscal. A inflação nem está muito alta, mas os preços estão num patamar muito alto para a maioria da população trabalhadora e até para a classe média.
O governo parece não saber se comunicar com o povo. O presidente não se dedicou institucionalmente a isso. Ele está tentando reproduzir as relações que tinha com a sociedade nos seus dois governos anteriores, mas isso já não produz o mesmo efeito. A sociedade hoje está muito mais complexa, fragmentada e desigual.
As condições de vida em geral pioraram muito. Então, são condições de mudanças sociológicas e econômicas estruturais no Brasil e o governo, com uma minoria parlamentar, não tem condições de enfrentar os obstáculos que vêm pela frente.
“Executivo no Brasil está muito debilitado.”
ID: E em relação a governabilidade?
VA: O grande problema do governo Lula — e de qualquer outro governo — é o de governar sem maioria no Congresso. A base parlamentar de Lula é muito fraca desde o início e o Executivo perdeu muito poder diante das mudanças políticas ocorridas no Brasil desde 2015, após a presidência de Eduardo Cunha na Câmara.
Hoje, grande parte do orçamento é capturado pelos deputados e com reduzida transparência. O governo Lula não tem base legislativa para governar. Ele vive de concessões e acordos. Acordos excessivos acabam descaracterizando a coerência da ação administrativa. Isso é um prejuízo terrível em termos de políticas públicas. O executivo hoje no Brasil está muito debilitado.
ID: Lula já demonstrou uma grande capacidade de leitura dos movimentos políticos. O que acontece hoje ?
VA: O contexto mudou. O Congresso foi empoderado. Estamos vivendo algo próximo de um semiparlamentarismo. O (deputado) Pedro Lucas recusou o Ministério das Comunicações. Um deputado hoje tem mais dinheiro e menos desgaste permanecendo no Congresso do que assumindo um ministério.
O governo Lula é de minoria. O empoderamento do Congresso reduziu a margem de manobra do executivo. Muitas conquistas dos governos anteriores de Lula foram naturalizadas pela população. O Bolsa Família, por exemplo, foi mantido e ampliado durante o governo Bolsonaro. Quando um bem social passa muito tempo vigente, a população percebe aquilo como uma obrigação do Estado, não como uma política de governo.
Há um desgaste de material. Lula está presente em todas as eleições desde 1989. O nome dele está desgastado e a população está cansada. Há certos aspectos em relação a Lula hoje que não tem marqueteiro que faça milagre. Claro que os rumos da campanha vão definir o voto na hora, porém ele está partindo de um patamar de rejeição muito alto. Ele já deveria ter indicado um sucessor. Chega a um ponto em que as pessoas enxergam nele um projeto personalista de poder — e é, independente dos méritos dele como governante.
“Não se discute mais política no Brasil; o que se discute é a ameaça que o outro lado representa.”
ID: Como o senhor vê a reconfiguração do campo político depois de Lula — principalmente a esquerda?
VA: Uma coisa é o PT, outra coisa é o PSB, um outro partido de centro-esquerda. Eu acho que o PT vai demorar algum tempo para afirmar uma liderança nacional que exerça um papel similar ao de Lula. Naturalmente, um candidato a sucessor de Lula é o Haddad. O PT tem problemas internos a resolver porque foi um partido que se consolidou à sombra de um único chefe. Na verdade, o PT tem uma cultura, digamos, caudilhesca. É um partido muito mais verticalizado do que as pessoas pensam.
Quanto aos outros partidos de esquerda, eu acho que eles vão ter mais espaço. Não sei qual vai ser o destino do PDT, que sempre foi um partido fragmentado — parte era de direita, outra parte era de centro-esquerda. O PSB é uma grande promessa, principalmente com o João Campos, que é uma liderança jovem e emergente. Eu acho que vai ser benéfico a médio e longo prazo para a afirmação de uma proposta e de um discurso mais programático. Não se discute mais política no Brasil — o que se discute é a ameaça que o outro lado representa.
ID: Professor, antes de encerrarmos, preciso fazer uma pergunta sobre a Bahia. A pesquisa Quest para o governo do estado, divulgada em 29 de abril, aponta ACM Neto com 41% das intenções de voto e Jerônimo Rodrigues com 37%, em um cenário de empate técnico. Como o senhor avalia o ciclo petista na Bahia após quase vinte anos?
VA: Qualquer partido que permanece muito tempo no governo tende a se desgastar e, por mais inovador que ele seja no início, tende a se tornar um partido do establishment. Eu acho que há um desgaste do PT em certos setores como o funcionalismo público. O governador Rui Costa tomou medidas muito antipáticas como mudanças no Planserv — plano de saúde do funcionalismo estadual — e na política salarial.
A Bahia continua com um alto índice de desemprego. Grande parte da população da região metropolitana de Salvador continua desempregada. O problema é que quem governa tem uma máquina bem estruturada para ganhar eleições. Acho muito difícil a oposição derrotar o grupo governista. É possível — Jerônimo (Rodrigues) não é um governador dos mais populares —, mas a tendência é que o atual governante ganhe a eleição.

ID: Nesse caso, como fica o ex-prefeito de Salvador ACM Neto, já que ele está há muito tempo sem exercer um mandato?VA: Ele continua como uma liderança política da União Brasil. A população associa uma modernização de Salvador a ele e costuma olhar para Bruno Reis (prefeito de Salvador) como um preposto de ACM Neto. Eu acredito que, cedo ou tarde, se persistir, ele será governador da Bahia. Em nada essa eventual derrota em 2026 vai retirá-lo da liderança da direita da Bahia.
Moisés Azevedo é estudante de Jornalismo da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (UFBA).
A motivação para a pauta surgiu do interesse pelo jornalismo político e pela análise do cenário eleitoral, da polarização e seus impactos.
