O paradoxo de Salvador: cobertura na coleta comum contrasta com lacuna de dados na reciclagem

Salvador alcançou 100% de cobertura na coleta de lixo domiciliar e se tornou referência nacional nesse serviço. Apesar disso, a capital baiana ainda recicla apenas cerca de 5% dos resíduos recolhidos diariamente, revelando os desafios da cidade na ampliação da coleta seletiva e da economia circular.

Brenda da Fonseca (@abrendafonseca) e Gabriel Queiróz (@byyelroz)

 

Salvador frequentemente alcança posições de destaque em indicadores de saneamento gerados por institutos privados – como o Índice de Gestão Municipal Aquila (IGMA) de 2025, que aponta a capital baiana com 100% de cobertura na coleta de lixo domiciliar ordinária. No entanto, o indicador contrasta com a ausência de registros nos canais oficiais do governo federal. Nos dados consolidados do Sistema Nacional de Informações sobre o Saneamento (Sinisa), Salvador não figura no ranking de reciclagem por não ter enviado dados de massa reciclada, omitindo também a quantidade oficial de ecopontos e cooperativas ativas cadastradas no município.

 

Essa lacuna de informações públicas ocorre em paralelo a sucessivas reformas administrativas na estrutura municipal ao longo de duas décadas, a exemplo da reorganização da Secretaria de Sustentabilidade, Resiliência, Bem-Estar e Proteção Animal (Secis) em 2024. Apesar das mudanças institucionais orientadas à resiliência urbana, o modelo operacional predominante na capital baiana permanece concentrado na coleta tradicional e no descarte final dos resíduos sólidos em aterros, distanciando-se do reaproveitamento pleno previsto na Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010).

 

O volume de recursos destinados à manutenção do modelo atual é expressivo. No final de 2025, a Câmara Municipal de Salvador aprovou o orçamento global da Prefeitura para o ano seguinte estimado em R$14,9 bilhões. Desse montante, os serviços de limpeza urbana receberam uma dotação de R$775 milhões. O foco orçamental na zeladoria e na remoção comum sobressai quando comparado aos investimentos estruturais em saneamento básico do município, cujas despesas liquidadas em períodos anteriores orbitaram na casa dos R$34,1 milhões. Suplementações orçamentárias voltadas aos serviços de limpeza e conservação urbana – como os créditos superiores a R$ 36 milhões registrados no Diário Oficial do Município em maio de 2024 – reforçam o custeio da coleta regular e da remediação de vias públicas, enquanto a infraestrutura de triagem para reciclagem doméstica não dispõe de aportes proporcionais equivalentes.

 

A concentração dos esforços públicos na retirada do lixo regular gera percepções distintas entre os moradores da cidade. No Rio Vermelho, bairro de forte apelo comercial e hoteleiro, residentes apontam que a eficiência na coleta comum contrasta com a escassez de alternativas para a destinação correta de recicláveis. “O caminhão de lixo passa aqui todos os dias, o serviço de coleta comum é muito presente. Mas coleta seletiva? Isso eu nunca vi. Se eu quiser separar o plástico e o vidro, não tenho onde entregar perto de casa; acaba indo tudo para o mesmo lugar”, relata Ivanete, moradora do bairro há 15 anos.

 

O cenário de assimetria no serviço acentua-se em áreas periféricas, como no Subúrbio Ferroviário. Em Paripe, moradores relatam que a regularidade da coleta comum é alternada e o acúmulo de resíduos em pontos informais gera focos crônicos de descarte irregular. “Moro perto de onde o pessoal joga lixo e a coleta seletiva eu nunca vi. Até o caminhão tem dificuldade para chegar aqui direito”, afirma Stefany, residente da região. Ela aponta que terrenos na Rua São Raimundo, além de trechos da Rua do Vale e da Rua João Martins, registram descartes recorrentes de materiais e entulho.

 

O descarte de resíduos da construção civil em áreas públicas é um gargalo mapeado por pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Estudos acadêmicos locais sugerem a adoção de plataformas digitais de rastreamento, como o sistema de Controle de Geração, Transporte e Recepção de Resíduos da Construção Civil (CtrlGTR), para fiscalizar o fluxo desses materiais. Contudo, a integração dessas ferramentas tecnológicas de monitoramento na rede de fiscalização pública municipal ainda enfrenta limitações práticas.

 

A atuação de iniciativas privadas na logística reversa

Diante das limitações do atendimento público em coleta seletiva, iniciativas privadas e negócios de impacto socioambiental passaram a estruturar rotas alternativas de captação de recicláveis. A Solos, empresa voltada para a economia circular, opera em Salvador em articulação com cooperativas de catadores e estabelecimentos comerciais.

 

Atuação da equipe SOLOS (Foto: Time SOLOS)

 

Uma das ações integradas é o projeto RODA – A Reciclagem na Sua Porta, focado na coleta seletiva porta a porta no Centro Histórico e arredores, abrangendo áreas como Santo Antônio Além do Carmo, Pelourinho, Rua Chile, Avenida Sete de Setembro e Largo Dois de Julho. A operação utiliza veículos de pequeno porte e triagem sob demanda gerenciada por canais digitais. “O RODA é um delivery da reciclagem. Você acessa o nosso sistema, faz o cadastro e, se estiver na região atendida hoje, fazemos essa coleta gratuita na sua porta. Ou seja, você não precisa se deslocar para levar o seu material”, explica a cofundadora da empresa, Saville Alves.

 

Outra iniciativa implementada em cooperação com o município é o programa Recicla Capital, que disponibiliza 20 estações de entrega voluntária de resíduos pela cidade. O sistema oferece pontuações aos usuários que realizam o descarte correto, permitindo a conversão dos créditos em benefícios e descontos comerciais.

 

Saville Alves pontua que o uso de incentivos econômicos é uma estratégia necessária para gerar engajamento em cenários urbanos marcados por disparidades sociais. “A gente entende que boa parte das pessoas que vão até ali entregar seus resíduos não fazem isso porque são ativistas ou porque entendem que a reciclagem vai mudar o planeta, mas porque elas têm uma relação positiva com aquilo. Elas percebem que determinada atitude vai gerar um estímulo positivo, que é a possibilidade de ter um desconto. A gente está numa sociedade do capital, numa sociedade onde as trocas monetárias são muito relevantes. Então, a gente vai entendendo como estimular mais ou menos a participação das pessoas”, analisa.

 

A especialista ressalta que políticas socioambientais eficazes na capital baiana dependem de modelos que considerem as vulnerabilidades financeiras e de mobilidade da população periférica. “Salvador é uma cidade empobrecida, muito desigual, e precisamos levar em consideração as limitações de escolha, tempo e meios de locomoção que a maior parte da população tem. Quando falamos de soluções que atendam toda a cidade, precisamos pensar primeiro nas soluções que atendam as pessoas mais vulnerabilizadas”.

Mapa produzido com auxílio de inteligência artificial a partir de dados informados pela equipe da reportagem.

 

Desafios regulatórios e ausência de respostas

A fragilidade na consolidação dos dados de reciclagem em Salvador ocorre em um cenário no qual as diretrizes federais estipulam metas progressivas de reaproveitamento de materiais recicláveis para os municípios até 2040. Para além da coleta domiciliar, analistas do setor apontam que o avanço da economia circular na cidade depende da aplicação efetiva da legislação sobre Grandes Geradores comerciais – obrigando estabelecimentos de grande porte a assumirem os custos financeiros pelo gerenciamento e destinação final de seus resíduos -, além da fiscalização rigorosa dos acordos setoriais de logística reversa junto aos fabricantes e distribuidores de embalagens.

 

A reportagem entrou em contato formal com a Empresa de Limpeza Urbana de Salvador (Limpurb) e com a Secretaria de Sustentabilidade (Secis) para solicitar esclarecimentos sobre a ausência de envio dos dados consolidados de reciclagem ao Sinisa nos anos de 2023 e 2024. Também foram questionados o andamento da regulamentação fiscalizatória voltada aos Grandes Geradores e o cronograma de implementação dos planos locais de logística reversa. Até o fechamento desta edição, não houve retorno por parte das assessorias dos órgãos municipais.

 

Brenda da Fonseca – Estudante finalista de Comunicação Social – Jornalismo da UFES, fazendo mobilidade acadêmica na FACOM | UFBA, Atualmente trabalha de maneira autônoma como analista de mídias sociais e marketing de conteúdo. Tem interesse em temas ligados à comunicação, redes sociais, redação, marketing de conteúdo, comunicação de marcas.

 

Gabriel Queiróz é estudante de Jornalismo da Facom | UFBA. Integra a Produtora Júnior, empresa vinculada à Rede Brasil Júnior, atuando atualmente no Conselho Administrativo. Tem interesse em temas ligados à comunicação, cultura, cinema, tecnologia, política, meio ambiente e Moda.

 

A motivação para esta reportagem surgiu da repercussão da informação divulgada pelo IBGE, de que Salvador ocupa a segunda posição entre as capitais menos arborizadas do Brasil. O maior objetivo ao longo da construção da pauta foi mostrar quais os impactos desse dado alarmante no meio ambiente e na vida das pessoas, e quais soluções podem ser aplicadas para contornar essa realidade ou, ao menos, amenizá-la. 

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