Salvador em evidência

Nesta primeira edição, a turma do sexto semestre questiona o que a cidade insiste em normalizar. As reportagens atravessam as cinco editorias do veículo – Cotidiano, Comportamento, Meio Ambiente, Cultura e Entretenimento, e Educação -, além da seção de Entrevista, e revelam uma capital em movimento, contraditória e urgente.

 

Thays Lavor (@thayslavor)


Há quem caminhe por Salvador e se deixe levar pelo ritmo da cidade sem questionar a engenharia invisível que a sustenta — ou que a deixa ruir. É confortável viver na superfície. O problema é que a superfície, aqui, frequentemente encobre fissuras: nos prédios, nas políticas, nas praias, nas festas, nas salas de aula. O papel do jornalismo é descer um andar e acender a luz.

 

É sob essa premissa que se consolida esta primeira edição de 2026 do Impressão Digital, jornal laboratório da turma do sexto semestre de Jornalismo da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (FACOM/UFBA), produzido na disciplina Jornalismo Integrado V. Sob a orientação das professoras Suzana Barbosa e Lívia Vieira, e com a participação da doutoranda Thays Lavor como tirocinista, esses futuros jornalistas percorreram Salvador, exploraram os espaços que a cidade frequentemente esquece de olhar, mergulharam em bases de dados públicas e estruturaram análises próprias. O resultado está nas seções a seguir e revela, antes de qualquer pauta específica, uma escolha editorial coletiva: cobrir a cidade como ela é, não como se gostaria que fosse.

 

Salvador aparece aqui em toda a sua complexidade. Uma cidade com mais da metade das praias impróprias para banho, e que sua população frequenta de qualquer jeito, não por descuido, mas porque o transporte público falha, a infraestrutura não alcança e o lazer não tem substituto. Uma cidade que recolhe o lixo de todas as casas, mas recicla menos de 5% do que coleta. Uma cidade onde prédios históricos ameaçam desabar no antigo coração financeiro do Brasil, enquanto hotéis de luxo ocupam o espaço de movimentos sociais a poucos quarteirões dali. Esses dados são o resultado de um jornalismo que cruzou documentos, sistematizou levantamentos próprios e foi a campo.

 

Esta edição é feita também de escuta. É nessa camada que Salvador revela o que os dados sozinhos não alcançam. O samba que resiste no Garcia há 110 anos e ainda encontra formas de dizer o que a cidade prefere calar. As mãos que ensinam arte no Alto do Bonfim e preservam, junto com os pincéis, a memória afro-brasileira que o cânone insiste em marginalizar. As vozes de pacientes com fibromialgia que vivem num limbo cruel entre uma lei que as reconhece e um sistema público que as ignora. As editoras independentes que publicam o que o mercado concentrado no Sudeste recusa: autores negros, indígenas, periféricos, LGBTQIAPN+. E que chegam aos leitores apesar do frete, dos algoritmos e da indiferença.

 

Há também, nesta edição, o desconforto necessário. A festa junina que se renomeia para sobreviver ao crescimento evangélico nas escolas. A noite soteropolitana que se reinventa após o fechamento das grandes boates. A sala de aula que proibiu o celular e agora precisa descobrir o que fazer com a atenção que recuperou. O pleito de 2026 que se aproxima sem debate programático, definido menos por propostas do que por taxas de rejeição.

 

São tensões reais e nomeá-las é função do jornalismo. Os estudantes que assinam as páginas a seguir ainda estão em processo de formação. Mas já entendem que o jornalista não cobre a cidade de fora: ele pertence a ela. Qual Salvador, afinal, estamos dispostos a enxergar? Boa leitura.

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