Estilhaços do primeiro centro comercial do Brasil

Declínio empresarial do bairro do Comércio desafia a preservação do Centro Histórico de Salvador. A região histórica tem 75% dos prédios com a infraestrutura comprometida, aponta Defesa Civil


Lucas da Hora (lucas.d.a.h.o.r.a)

 

Ao chegar no Porto do Comércio em 1717, La Gentil de la Barbinais, viajante conhecido por ser uma incógnita na historiografia brasileira, descreveu que “[…] grande era o comércio e enorme o trânsito de mercadorias pela Bahia de Todos os Santos”. Com essa proeminência, destacava-se o bairro do Comércio, à época principal centro comercial do Brasil.

Cenário indiferente para o balconista Antônio Carlos dos Santos, 62, que trabalha há 37 anos no bairro. “Neste momento, há 20 anos atrás eu não conseguia falar com você, estava cheio de gente. O Comércio acabou”, sintetiza. Ele trabalha em uma loja de produtos químicos com funcionamento há mais de 40 anos. “O comércio, as faculdades, fecharam tudo aqui. Não tem uma academia, loja de eletrodoméstico, mercado, não tem nada aqui”, exemplifica.

 

Antônio Carlos dos Santos, balconista. Foto: Lucas da Hora

O esvaziamento empresarial do Comércio perpassa por camadas que afetam a memória e o patrimônio de Salvador. A área mais antiga do bairro é tombada desde 2009 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Essa demarcação reconhece o Comércio como parte do Centro Histórico de Salvador, que começa na Praça Castro Alves, perpassa o Pelourinho sentido Santo Antônio Além do Carmo, estendendo-se até a Barroquinha. Apesar do Comércio ter sido tombado em 2009, o Centro Histórico é uma localidade tombada pelo IPHAN desde 1984, com reconhecimento de Patrimônio da Humanidade pela Unesco a partir de 1985.

Infográfico gerado com o uso de inteligência artificial (Canva e Gemini)

 

Além deste mapeamento, um entrave une todos esses bairros: a deterioração dos prédios antigos e históricos. De acordo com a Defesa Civil de Salvador, a última vistoria realizada no Centro Histórico, em 2026, concluiu que mais de 75% dos imóveis nesta região apresentam algum grau de risco na infraestrutura. Cinquenta e um prédios têm estrutura muito precária, com risco muito alto de desabamento. A análise ainda mostra que 353 edifícios correm risco alto, outros 525 com ameaça média, 277 com perigo baixo e somente 23 estão em condições estáveis. O levantamento foi realizado pela reportagem para esta edição do Impressão Digital.

Moradora do bairro do Comércio há 45 anos, Edileuza Costa, 50, explica que a falta de ônibus dificulta a locomoção dos moradores. “Eu fiquei sem me locomover, aqui só tem ônibus para a Suburbana. Minha filha mora em Pau da Lima, são três ônibus e um metrô. Aqui tinha Colina Azul que fazia os dois, mas eles acharam de tirar”, reclama Costa.

 

Edileuza Costa, moradora do Comércio. Foto: Lucas da Hora

O bairro do Comércio contempla a região anteriormente batizada como bairro da Praia, que se estendia até a Praia da Preguiça. Desde sua fundação, edificações históricas para se pensar a cidade de São Salvador eram erguidas ao longo dos séculos, como a Igreja da Padroeira Conceição da Praia, a Marinha do Brasil e o Elevador Lacerda. Símbolos de cunho religioso, militar e comercial, respectivamente.

 

 


O historiador Rafael Dantas esclarece que a história do Comércio começa com a fundação de Salvador, em 1549. No entanto, a sua escalada comercial só intensifica-se após um século. “No final do século XVII já temos um porto e uma região comercial com trapiches e armazéns. Em meados do século XVIII, era um dos maiores portos em movimentação do mundo”, contextualiza o pesquisador em cultura material e iconografia. 

Moradores e comerciantes deste período jamais poderiam dimensionar a decadência que hoje em dia atravessa o Comércio. A priori, o deslocamento comercial se deu a partir de inúmeros fatores, como a criação de novos portos na década de 1960, para escoar a produção petroquímica, o desaconselhamento da prefeitura para a abertura de novas indústrias na região do Comércio e adjacências, além do marco principal: a criação do Centro Administrativo da Bahia (CAB), na década de 1970.

“Por causa desse deslocamento do eixo econômico em direção ao Acesso Norte e em direção à Paralela. Há uma ideia de se colocar o governo estadual ocupando essa nova região da cidade, que facilitaria a conexão com esse novo centro gravitacional”, analisa Daniel Rebouças, especialista em memória e iconografia.

Novo “coração financeiro de Salvador”

Com um projeto de descentralização de Salvador, pontos comerciais mais modernos são criados na capital, despontando a Avenida Tancredo Neves como a mais atrativa. “A grande virada da Avenida Tancredo Neves se dá com a inauguração do Salvador Shopping [2007], que acaba por solucionar um grande problema que a região tinha, que era um problema de estacionamento”, relata o economista Antônio Carvalho. Ele enfatiza que o local apresenta “prédios mais modernos, mais seguros e bem equipados”.

A reportagem obteve dados com a Junta Comercial da Bahia (Juceb) sobre a quantidade de empresas abertas e fechadas na Avenida Tancredo Neves e bairro do Comércio, entre os anos de 2021 e 2025. Nota-se que a
Avenida Tancredo Neves não perdeu o fôlego, quase triplicando o percentual de empresas abertas nos últimos cinco anos. Em 2021, ainda período pandêmico, cerca de 740 unidades comerciais foram abertas na Tancredo Neves, passando a ser 2.017 novas empresas em 2025. Enquanto o antigo centro comercial e empresarial, o Comércio, saiu de 543 instituições comerciais no ano de 2021,  para 563 em 2025.

 

Infográfico gerado com o uso de Inteligência Artificial (Gemini)

“Então a Avenida Tancredo Neves acabou se tornando o endereço do coração financeiro de Salvador. Você está na Tancredo Neves hoje é sinônimo de status.  Na década de 80, o Comércio pulsava. A maioria dos órgãos públicos estava por ali, entre a Praça Municipal e o Comércio. Então, o INPI estava ali, o Senac, a Receita Federal e o Banco do Brasil. Se a Receita Federal veio para Tancredo Neves, veio todo mundo”, analisa o economista Carvalho.

 

Nas esquinas do abandono

O arquiteto e colaborador do IPHAN, Luiz Vivaz, revisita a história para relembrar que a decadência do Centro Histórico de Salvador tem motivações seculares. “No Centro Histórico, a decadência tem início com o final da escravidão. Os escravos eram a força de trabalho responsável pela manutenção daquelas casas enormes”, avalia o também arqueólogo. “As dificuldades de manutenção do casario são várias. Sobre muitos imóveis, não se sabe quem é o proprietário. O IPAC realiza um trabalho de pesquisa da cadeia sucessória demonstrando isso. Sem um proprietário para responsabilizar, fica difícil exigir a manutenção dos prédios. O poder público não pode investir recursos em imóveis particulares”, defende.

Em contrapartida, Rafael Dantas acredita que a descentralização comercial, ao mesmo tempo que abriu portas para o abandono, também favoreceu a preservação do Centro Histórico, na medida em que “se aquela região tivesse ainda no norte dos interesses imobiliários de uma Salvador moderna, muito daquele patrimônio teria se perdido mesmo com os tombamentos feitos em meados do século XX”, afirma o historiador.

“O processo de uma nova criação do centro financeiro, apesar de ter representado um esvaziamento ou mesmo um declínio da região, porque as pessoas começam a sair daquela área para ir para outro lugar, também representa quase que um fechamento daquela área, possibilitando que outras obras em um viés modernizante não destruíssem aquele espaço”, ressalta Dantas.

A Rua Chile – revitalização ou gentrificação?

Em meio a inúmeros prédios degradados, a Rua Chile tem materializado um projeto que gera discordância. O que alguns classificam como revitalização, para outros se trata de gentrificação do Centro Histórico, devido à presença de hotéis de alto padrão como Fasano e o Palacete Tira Chápeu. Na segunda edição do Impressão Digital 2025.2 a reportagem “Gente sem teto e teto sem gente” abordou a desapropriação do antigo prédio da Embasa, anteriormente ocupado pelo Movimento de Lutas em Bairros, Vilas e Favelas (MLB). O edifício está localizado próximo ao Hotel Fasano, e em abril deste ano, o governo do estado da Bahia anunciou o uso da propriedade para fins turísticos.

“O poder público literalmente deixou de lado os investimentos na área da Rua Chile. Esqueça projetos da prefeitura ou do governo do estado. Ninguém ia na rua nos anos 2000. Começa a mudar a partir de 2017”, indica Rafael Dantas. A partir deste momento, a rua passa a ser ocupada por mais de dez empreendimentos, que passam a reforçar a imagem de Salvador como uma capital de possíveis investimentos.

Acima tem-se a Rua Chile fotografada no século XX. Foto: Arquivo Correio. A foto abaixo trata-se de uma fotografia da Rua Chile em 2026. Foto: Lucas da Hora.


Integrante do MLB, Matheus Portela ressalta que não há um processo de revitalização. Na avaliação dele, o termo correto é gentrificação. “Eles utilizam a justificativa de revitalização para expulsar cada vez mais as pessoas pobres do Centro da cidade. Isso acontece há muito tempo e tem se intensificado. As casas são desapropriadas, para [favorecer] a especulação imobiliária”, denuncia Portela.

Como citado anteriormente, a  gentrificação ou revitalização do Centro Histórico não é uma novidade. O geógrafo Milton Santos, cujo centenário de nascimento é comemorado neste ano de 2026, investigou essa articulação em sua tese de doutorado, na década de 1950. “Uma grande intervenção realizada pela Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia (Conder), inaugurada em 1993, promoveu a mudança forçada de centenas de moradores de baixa renda residentes nos quarteirões recuperados”, relembra o arquiteto Luiz Vivaz.

Ele defende a recuperação do Centro Histórico, mas acende um alerta sobre esses investimentos de entidades privadas em espaços públicos, o que exime os órgãos públicos da responsabilidade. “Sempre há caminhos para a construção de uma cidade amigável aos seus cidadãos e o primeiro passo é compreender as necessidades das pessoas que moram e utilizam a cidade. A visão de que tudo o que é antigo merece ou deve ter apenas um uso “cultural”, como museus, ou destinado a eventos, é um dos equívocos que resultam na “nova” decadência do Centro Histórico, após as reformas dos anos 1990”, enfatiza Vivaz.


Boxe da transparência: https://drive.google.com/drive/folders/1PQrfU1Yvc1VxA5OQDIX4EOlxLatO9N2x?usp=drive_link

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Lucas da Hora é estudante de jornalismo na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e estagiário na TV Bahia. Antes de pensar em ser jornalista, a história e a geografia sempre disputaram a sua percepção sobre o mundo. Nesse sentido, ao chegar em Salvador há três anos, o jornalista em formação se deparou com a riqueza dos prédios do Centro Histórico da cidade, esse que julga ser o mais importante do Brasil, devido ao fato de que aqui se firmou a primeira capital desta terra a qual chamamos de Brasil. O seu abandono sempre causou espanto, por isso, resolveu investigar como o esvaziamento do bairro do Comércio tem ditado os rumos do Centro Histórico de Salvador.

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