Experimentações e novas formas de noticiar

Acredito que o jornalismo sempre se beneficiará da conexão entre áreas. Nossa maior ferramenta é a escrita, mas precisamos seguir atentos às variadas formas de leitura.

 

*Ícaro Lima

 

Fui um adolescente fascinado por tecnologia, daqueles que se perguntavam como são feitos os programas que criam programas. Durante um tempo, pensei até em cursar ciência da computação. Apesar disso, o jornalismo sempre falou mais alto.

 

Cresci à base de documentários, programas esportivos e reportagens especiais que cansavam o scroll do mouse. Resultado: durante a graduação, tive um apego especial às disciplinas que misturavam essas paixões – alô, Comunicação e Tecnologia e Oficina de Jornalismo Digital!

 

Meu primeiro estágio foi bem caseiro. Passei quase um ano na Agenda Arte e Cultura da UFBA. Foi lá que, entre acertos e erros típicos de um calouro empolgado, pude iniciar minha experiência com escrita para sites.

 

Depois, fui para o iBahia e pude perceber em uma nova escala o poder da comunicação na internet. Após o período de estágio, já formado, fui efetivado, e passei a atuar também como social media. A partir desse momento, notei como o ambiente mercadológico do jornalismo estava sendo remodelado.

 

Trabalhar com mídias sociais nunca esteve entre meus objetivos, mas notei que ali existia uma oportunidade de utilizar ainda mais o que conhecia de tecnologia. Pude observar de perto as reações dos leitores, entender métricas de engajamento, explorar formatos de áudio e vídeo… Tudo isso expandiu meu entendimento sobre os novos jeitos de consumir notícias. Não só escrevia, mas também compreendia como meu texto poderia assumir outras configurações e os motivos de cada uma delas. 

 

Após seis anos no iBahia, decidi sair em busca de outros lugares em que pudesse seguir com essa mescla. Hoje, atuo como repórter freelancer, presto consultoria digital para um veículo e também sou instrutor de ferramentas Google para jornalistas. E é a partir dessa última atividade que quero deixar um conselho.

 

Faço esse trabalho no Instituto FALA, organização de jornalismo de causas sediada em São Paulo. A minha função é apresentar e discutir o uso ético e responsável de recursos digitais em redações, faculdades ou coletivos de comunicação. É um tipo de cargo que eu jamais imaginei ocupar, o que só reforça, para mim, o quão mutável está nossa área. 

 

Essa conturbação tem seu lado necessário. É preciso seguir discutindo o poder das Big Techs, o uso de IAs, o enxugamento das redações, o acúmulo de funções e outros pontos urgentes. Ao mesmo tempo, acredito que é nesse ambiente que novas formas de atuação surgem, e para abraçá-las, é preciso tornar algo rotineiro: a experimentação.

 

Testar plataformas, aplicativos e formatos multimídia me fizeram perceber a capacidade da comunicação digital de maneira mais ampla. Como as últimas edições do Digital News Report bem demonstram, o consumo de notícias por meio de mídias sociais segue crescendo, e entender o funcionamento delas e as maneiras como são utilizadas é fundamental. 

 

Por isso, experimente. Nem que seja de forma anônima, garantindo a privacidade dos seus dados. Leia os comentários e note qual a profundidade de informação que as pessoas esperam daquela publicação. Peça ao seu editor para mostrar a audiência do site e veja como as pessoas têm chegado à sua matéria. Observe como os buscadores têm sido utilizados. Converse com o editor de vídeo para entender o motivo pelo qual seu texto precisou de uma frase de impacto logo nos primeiros segundos. 

 

A principal vantagem ao desenvolver essa bagagem é olhar para o que escrevo e considerar ajustes para diferentes públicos, mas sem ignorar qualquer base de integridade.

 

Acredito que o jornalismo sempre se beneficiará da conexão entre áreas. Nossa maior ferramenta é a escrita, mas precisamos seguir atentos às variadas formas de leitura. É a partir dessa junção que conseguiremos compreender melhor as mudanças que vêm acontecendo e ter argumentos bem definidos para construir iniciativas que retomem o reconhecimento, a segurança e o prazer da nossa profissão.

 

*Ícaro Lima é jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Tem experiências em reportagem e gestão de mídias sociais. Foi repórter e social media no portal iBahia e colaborou em cadernos especiais no jornal A Tarde. Interessado pelas coberturas de cultura e tecnologia.

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