Campanhas do Hemoba, projetos de extensão universitária e o engajamento de estudantes buscam ampliar a conscientização sobre a importância da doação de sangue.
A doação de sangue é um compromisso contínuo que sustenta a vida de pacientes em todo o estado, mas a demanda hospitalar por hemocomponentes, frações isoladas do sangue total, como hemácias, plaquetas e plasma torna-se ainda mais crítica em épocas de feriados e festividades, quando o aumento de acidentes nas estradas e outros incidentes pressiona os estoques. Embora o “Junho Vermelho” tenha reforçado a importância dessa causa ao longo das últimas semanas, a necessidade de doadores é uma constante que ultrapassa o calendário, sendo vital para o funcionamento de unidades como o Hospital Universitário Professor Edgard Santos (HUPES).
Em Salvador, uma das principais estratégias utilizadas pela Fundação de Hematologia e Hemoterapia da Bahia (Hemoba) é a descentralização da coleta por meio do Hemóvel, unidade móvel que circula por universidades, shoppings e espaços públicos da capital. A assistente social da Fundação Hemoba, Helen Pereira, explica que o veículo é usado justamente para aproximar o hemocentro da população. “A fundação utiliza o Hemóvel para estar mais próximo da comunidade, para que ela tenha um acesso mais fácil”, explica.
Essa descentralização funciona através de pontos específicos e parcerias consolidadas. “Uma dessas parcerias é com o HUPES (Hospital Universitário Professor Edgard Santos), o hospital das clínicas da Universidade Federal da Bahia, que já existe há um bom tempo. Nós convidamos tanto a comunidade acadêmica quanto a comunidade em geral para participar dessa campanha voluntária e altruísta”, destaca Helen, lembrando um dado pedagógico essencial: “Cada bolsa de sangue salva até quatro vidas”.
Essa estratégia de levar a coleta para perto dos cidadãos é vista por especialistas como um passo fundamental para a saúde pública. Para a médica residente em Hematologia do HUPES/UFBA, Fernanda Montenegro, o ambiente universitário funciona como uma importante ferramenta de formação e informação em saúde. “Dessa forma, é um ambiente estratégico para transformar a doação de sangue em um hábito de cidadania, e não apenas uma resposta a situações de emergência”, ressalta a médica, completando também que os estoques precisam de reposição contínua para garantir a assistência aos pacientes durante todo o ano.
No site do Hemoba, existe um gráfico da posição de estoques sanguíneos que é atualizada quase todos os dias, e que é possível o cidadão observar quais tipos sanguíneos estão em estado “crítico” ou “estável”, ajudando, assim, a democratizar o monitoramento dos estoques de sangue.
O papel pedagógico e a formação humana
Dentro das universidades, o incentivo também vem ganhando força através de ações educativas, projetos de extensão e disciplinas ligadas à área da saúde. Na Faculdade de Farmácia da UFBA, estudantes e professores participam ativamente de campanhas de conscientização e de iniciativas voltadas para educação em saúde, como explica a professora de Hematologia, Elisângela Vitória Amador.
Segundo ela, o ambiente universitário tem buscado ampliar a relação entre os estudantes e a comunidade, pois a formação dos futuros profissionais da saúde precisa ir além do conhecimento técnico. “É importante a gente preparar o estudante para o contato com a comunidade”, ressalta a professora. Ela também explica que o curso de Farmácia ainda possui uma formação muito tecnicista e que a humanização é uma das principais necessidades atuais.
Já a mestranda no Programa de Pós-graduação em Farmácia, Karina Oliveira Mendes, também destaca a importância das campanhas sociais dentro da formação acadêmica. Para ela, o tripé universitário formado por ensino, pesquisa e extensão permite que os estudantes desenvolvam habilidades humanas importantes para o futuro profissional. “A questão da conscientização social hoje em dia também vem aumentando para os estudantes”, declara. “Quando a gente entra no mercado de trabalho, a gente vai utilizar dessas outras habilidades, não só as técnicas”.
Entre os estudantes, o incentivo à doação já faz parte da rotina acadêmica. A graduanda de Farmácia Isadora Santiago relata que as campanhas do Hemoba são frequentemente divulgadas nos grupos da faculdade e incentivadas pelos professores. “Sempre há um incentivo, tanto dos professores quanto de colegas, para que a gente possa doar sangue”, conta. Ela também relembra momentos em que uma ação do Hemoba foi realizada dentro da própria universidade, facilitando o acesso dos estudantes à doação. “Já teve um carrinho que ficou aqui na biblioteca”, diz a estudante.
Desmistificando o processo e a genética
Embora o Hemóvel facilite o acesso à doação de sangue em shoppings e campi universitários por meio de sua rota itinerante – cujo roteiro completo pode ser consultado no site da instituição – , a equipe de captação ainda enfrenta diversos mitos difundidos entre a população. No entanto, a assistente social Helen Pereira garante que o processo é simples e transparente. “Doar sangue não dói, é um processo rápido e tranquilo. A pessoa vem, faz um cadastro e passa por uma triagem clínica e hematológica. Se estiver apta, realiza a doação. Existem os mitos, mas quando chegam aqui e passam pela triagem, eles são desmistificados”, atesta.
Para subir no ônibus e doar, os critérios básicos de saúde são fáceis de cumprir: é preciso ter entre 16 e 69 anos (sendo que a primeira doação deve ser feita até os 60 anos, e menores de 16 e 17 anos precisam estar acompanhados pelos pais ou responsável legal), estar bem alimentado, em boas condições de saúde e ter descansado no mínimo seis horas na noite anterior.
Essa conscientização diária ajuda o hemocentro a alcançar doadores de diferentes perfis genéticos, um desafio constante para manter os estoques equilibrados. De acordo com a hematologista Fernanda Montenegro, os tipos sanguíneos mais frequentes na nossa população são o O positivo e o A positivo, enquanto os mais raros são os tipos com fator RH negativo, especialmente o AB negativo.
“Os estoques RH negativo entram em nível crítico com mais rapidez por ser mais raro, logo menos pessoas aptas para doar”, informa Fernanda. Além disso, ela destaca o peso do sangue O negativo, que gera um impacto direto nas redes de urgência: “O O negativo pode ser utilizado em situações de emergência, quando não temos tempo para identificar o tipo sanguíneo do paciente, aumentando ainda mais a demanda”.
Na ponta final dessa engrenagem, dentro de um hospital de ensino como o HUPES, a falta dessas bolsas traduz-se em um impacto direto na vida de quem luta contra o tempo. Falando especificamente sobre o paciente onco-hematológico (pessoa em tratamento de câncer que afeta o sangue, como leucemias e linfomas), Fernanda Montenegro observa que a demanda por transfusões é alta e contínua para manter o tratamento e a estabilidade de quem está internado.
“Quando os estoques estão críticos, procedimentos eletivos podem ser suspensos e o uso dos hemocomponentes (frações isoladas do sangue total, como hemácias, plaquetas e plasma) passa a ser ainda mais criterioso”, alerta a médica. Para ela, o entendimento desse impacto hospitalar é a maior lição de empatia e cidadania: “Por isso, cada doação faz diferença e ajuda a garantir que nenhum paciente deixe de receber o tratamento de que precisa”.
Para a assistente social Helen Pereira, a informação que mais precisa ser massificada na sociedade é o foco no altruísmo preventivo, quebrando o hábito de doar apenas em casos de necessidade familiar. “O que toca mais as pessoas é quando vem alguém próximo da gente necessitar. Mas a gente tem que pensar no próximo antes disso. Temos que doar sangue com frequência, justamente para manter o nosso estoque sempre em alta”, conclama.
Enquanto o Hemoba segue tentando aproximar a população dos pontos de coleta, professores, pesquisadores, profissionais de saúde e estudantes ajudam a transformar a conscientização em prática, formando profissionais mais humanos e uma sociedade muito mais preparada para salvar vidas. Vale ressaltar que muitos dos impedimentos que afastavam voluntários no passado já não são mais realidade. Um exemplo clássico é o da tatuagem ou colocação de piercing: ao contrário do que muitos ainda acreditam, esses procedimentos não impedem a doação definitivamente; hoje, basta aguardar um período de 6 meses após a realização para estar apto novamente. O objetivo dessas diretrizes é garantir a máxima segurança tanto para quem doa quanto para quem recebe, sempre com foco em salvar vidas.
Brenda da Fonseca – Estudante finalista de Comunicação Social – Jornalismo da UFES, fazendo mobilidade acadêmica na FACOM | UFBA, Atualmente trabalha de maneira autônoma como analista de mídias sociais e marketing de conteúdo. Tem interesse em temas ligados à comunicação, redes sociais, redação, marketing de conteúdo, comunicação de marcas.
Gabriel Queiróz é estudante de Jornalismo da Facom | UFBA. Integra a Produtora Júnior, empresa vinculada à Rede Brasil Júnior, atuando atualmente no Conselho Administrativo. Tem interesse em temas ligados à comunicação, cultura, cinema, tecnologia, política, meio ambiente e Moda.
A motivação para esta reportagem surgiu da repercussão da informação divulgada pelo IBGE, de que Salvador ocupa a segunda posição entre as capitais menos arborizadas do Brasil. O maior objetivo ao longo da construção da pauta foi mostrar quais os impactos desse dado alarmante no meio ambiente e na vida das pessoas, e quais soluções podem ser aplicadas para contornar essa realidade ou, ao menos, amenizá-la.
