Acesso à literatura entra em foco no novo aplicativo do Governo

O aplicativo MEC Livros é uma iniciativa de incentivo à leitura, que busca reverter a queda do número de leitores no Brasil

 

Samara Faria (@s.faria_)

 

No dia 5 de abril de 2026, o Ministério da Educação lançou o aplicativo MEC Livros, uma biblioteca digital que possui um acervo com quase oito mil obras nacionais e internacionais, que estão disponíveis gratuitamente para a população brasileira. Essa foi uma das iniciativas instituídas pelo Governo Federal ao perceber a relação entre a falta de acesso aos livros e a diminuição dos leitores brasileiros.

 

Página inicial do MEC Livros, com recomendações baseadas nos gêneros que mais interessam ao usuário. Captura de tela.

 

Tal relação foi notada principalmente em 2024 após a divulgação da 6ª edição de “Retratos da Literatura”, uma pesquisa realizada pelo Instituto Pró-Livro (IPL) com o intuito de conhecer e identificar o comportamento dos leitores brasileiros. Nesse estudo, percebeu-se uma elevada diminuição no número de leitores na população brasileira, quase sete milhões a menos do que na última pesquisa, em 2019.

 

Dentro desse estudo, além do número de leitores e da frequência do hábito, também ocorreu uma análise acerca das barreiras para leitura. Foi observado que um dos principais motivos que levavam ao afastamento dos brasileiros aos livros estava a falta de acesso, onde 19% dos leitores afirmam que seu distanciamento dos livros ocorre por conta de não ter locais de literatura (bibliotecas e/ou livrarias) por perto ou pelo fator financeiro. 

 

Por isso mesmo, na pesquisa “Panorama do Consumo de Livros”, publicada em 2025 pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), é perceptível que 49% dos leitores que responderam o questionário afirmavam preferir comprar livros online. “Acho melhores preços/promoções”, “É fácil de encontrar o livro que quero” e “É prático” foram alguns dos principais motivos relatados pelos questionados, justificando sua preferência pelas lojas digitais.

 

Relacionado a isso, em 1985, o Governo Federal criou o Programa Nacional do Livro e Material Didático (PNLD), que visava distribuir materiais didáticos para professores e alunos de escolas públicas. Esse foi um dos primeiros incentivos à leitura disponibilizados pelo Estado brasileiro e é até hoje executado pelo Ministério da Educação. Com o passar do tempo, adaptações foram feitas e o PNLD passou também a agregar livros literários e digitais para alunos e professores de escolas públicas, além de ter incluído a distribuição para bibliotecas públicas e comunitárias cadastradas no Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP) do Ministério da Cultura. Essa política pública auxilia o acesso a livros e a materiais didáticos, mas ainda se faz pouco presente na rotina diária da maioria dos brasileiros. 

 

A intersecção de dois mundos

 

Inversamente proporcional ao número de leitores, o valor de um livro no Brasil aumenta a cada ano. Em 2025, uma pesquisa realizada pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) apontou que o preço médio dos livros chegou a R$52,04 durante o primeiro semestre do ano, um custo significativo principalmente para aqueles com menor poder aquisitivo. Em comparação, de acordo com uma pesquisa mais antiga também da SNEL, no ano de 2020 o preço médio de um livro era R$41,69, um aumento de quase 25% em cinco anos.

 

Preço médio dos livros no Brasil de acordo com a SNEL. Imagem feita pelo Canva. Crédito: Samara Faria

 

Visando a democratização do acesso e buscando aproximar o público, principalmente jovem, à literatura, o MEC Livros trouxe diferentes categorias literárias, para abranger ao máximo o tipo de leitura buscada. Poesia, quadrinhos e história são alguns dos gêneros presentes no aplicativo, que tenta expandir seu acervo tanto na área didática quanto na paradidática. “Essa é uma ferramenta sensacional, o acervo é grande e interessante. O layout também chama muita atenção, pela similaridade com o modelo da Amazon [Kindle]. Os livros digitais já estão presentes há um tempo, mas esse aplicativo traz uma nova perspectiva, mais atrativa para os jovens”, enfatizou Rodrigo Lima, professor de Redação e Literatura do Colégio Helyos e do Centro Estadual de Educação Profissional em Tecnologia, Informação e Comunicação de Lauro de Freitas (CEEPTIC). 

 

Pensando também na imersão da população brasileira no mundo digital, o aplicativo foi criado unindo a importância da literatura para o povo com o predomínio da tecnologia no dia a dia dos brasileiros. “O que o governo está fazendo é utilizar a tecnologia para criar oportunidades de a população aprender coisas que a gente não conseguia há um tempo. É só se dedicar, ter vontade, porque o MEC está escancarando uma porta para o acesso à educação”, afirmou o presidente da República, Luiz Inácio ‘Lula’ da Silva, ao apresentar o aplicativo em um vídeo publicado no dia 01/04.

 

 

 

 

O primeiro passo de um longo caminho

 

Mas a instituição do MEC Livros não foi aleatória. Esse aplicativo faz parte do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), uma política pública desenvolvida em parceria pelo Ministério da Educação e Ministério da Cultura. Essa política existe desde 2006, instituída durante o primeiro governo do Presidente Lula com o objetivo de construir uma sociedade leitora. Porém, visando atualizar e renovar o conjunto de políticas, programas e ações para cumprir o objetivo original, o Governo iniciou um novo ciclo desse Plano, que ocorrerá em uma década – entre os anos de 2026 e 2036. Para isso, quatro eixos principais foram organizados: democratização do acesso; fomento à leitura e à formação de mediadores; valorização institucional da leitura e de seu valor simbólico; e o fomento à cadeia criativa e produtiva do livro.

 

Com metas de ampliação de bibliotecas públicas, distribuição de livros e incentivo à grupos de leitura, o PNLL é um dos maiores instrumentos de formação da sociedade leitura atualmente, cumprindo exatamente a função que lhe foi pensada quando criado. O MEC Livros se enquadra justamente no primeiro eixo do Plano, e se mostra um grande passo em direção às metas pretendidas.

 

Pop-up do aplicativo MEC Livros quando um novo usuário faz login. Captura de tela.

 

Mas as barreiras para a leitura não se resumem somente ao acesso, e foi isso que a pesquisa do Instituto Pró-Livro mostrou. Dentro desse estudo, além do número de leitores e da frequência do hábito, também ocorreu uma análise acerca das barreiras para leitura. Em 2024, 55% dos leitores que responderam a pesquisa afirmaram que não liam mais por falta de tempo e/ou porque preferiam outras atividades.

 

Essa é uma realidade perceptiva nos dias atuais, onde o domínio dos eletrônicos e de novas tarefas prevalece em todas as idades. “Quinze anos atrás, ir à academia não era uma atividade de adolescente, enquanto atualmente virou parte da rotina dos jovens, principalmente da rede particular. Eles saem da escola e são ‘capturados’ pelos exercícios físicos, sem ter tempo para a leitura”, afirmou o professor Rodrigo Lima.

 

Quando questionada sobre seu hábito de leitura, Vitória Soares, estudante de Fisioterapia no Centro Universitário Universo Salvador, contou que utiliza seu tempo livre para outras atividades, o que a distancia da leitura. “Minha proximidade com livros sempre foi limitada, principalmente por conta do tempo, e os que leio hoje em dia são voltados para o curso que faço. Atualmente trabalho durante o dia e estudo à noite, então nos momentos livres acabo me ocupando com outras atividades, para distrair a mente”.

 

Dessa forma, a renovação do PNLL e as medidas que estão sendo tomadas para avançá-lo, como o lançamento do MEC Livros, mostram a importância que o Governo Federal está dando para a problemática da diminuição dos leitores brasileiros, fazendo o possível para revertê-la. Mas ainda é de suma importância que esses incentivos à literatura continuem tanto por parte do Governo, com auxílio dos Ministérios da Educação e da Cultura ao instituir programas e ações, quanto por parte da própria população, utilizando e conscientizando outras pessoas sobre esses mesmos programas e ações.

 

 

 

 

Samara Faria é estudante de Jornalismo na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Interessada por temas que perpassam cultura, arte e gastronomia.

 

A motivação para a escrita da matéria surgiu de uma percepção própria da diminuição da leitura por prazer, e a vontade de entender como isso se dava na sociedade e os motivos para que acontecesse.

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