Das grandes boates históricas aos eventos alternativos e gratuitos, a cidade vive uma nova configuração em sua vida noturna.
Danilo Roberto (daniloohd) e Júlio César Borges (jul1_u55)
Há alguns anos sair à noite em Salvador significava ocupar as ruas, ir de um bar para outro, atravessar bairros a pé e decidir o rumo da madrugada ali mesmo no improviso. Um comportamento que fazia parte da experiência noturna da cidade. Hoje, a dinâmica parece diferente.
As justificativas para isso são as mais variadas: alguns acreditam que a resposta está na insegurança motivada pelo aumento da criminalidade, outros defendem a ideia de que os custos para manter uma casa de show estão cada vez mais altos, e há quem diga, também, que o comportamento do público mudou. No entanto, afirmar que a noite de Salvador morreu pode ser um equívoco. Trata-se de um novo momento da cidade, onde a cena independente parece se fortalecer, ganhando mais espaço e fazendo a noite acontecer.
A vida noturna alternativa antes
Nas décadas de 80,90, 2000/2010, as regiões da Avenida Carlos Gomes, bairro Dois de Julho, o entorno do Pau da Bandeira, ladeira localizada entre a Rua Chile e a Praça Municipal, os Barris ou Garcia, foram protagonistas na vida noturna alternativa da capital. A cultura eletrônica e alternativa ganhou força nos anos 2000, quando festas independentes e coletivos passaram a ocupar espaços do Rio Vermelho e de outras regiões da cidade. Em 2020, o portal de notícias El Cabong publicou um artigo sobre um panorama da vida noturna em Salvador, dos anos 70 aos anos 2000. No texto, o veículo cita as casas Zanzibar, Boomerangue, Miss Modular e Calypso como símbolos da noite soteropolitana.
O jornalista e editor chefe do portal Dois Terços, Genilson Coutinho, lembra que a cidade possuía uma circulação intensa de pessoas e espaços voltados para a socialização, paquera e apresentações artísticas. “Você tinha uma vida noturna muito intensa naquela região, existiam vários bares, boates e shows transformistas. As pessoas saíam de um lugar para o outro sem o medo constante da violência “, diz. Ele define espaços como a boate Tropical, Beco dos Artistas e Aruba como marcos e pontos de encontro para diferentes gerações da comunidade LGBTQIAPN+. “Hoje a gente percebe uma perda muito grande desses espaços”, lamenta o jornalista.
A Tropical Club, uma das casas noturnas mais antigas da cidade, funcionou por mais de quarenta anos. Na maior parte desse tempo – três décadas -, no Pau da Bandeira. O empresário Marcos Melo, 74, abriu a boate em 1978 e acompanhou diferentes fases da vida noturna soteropolitana. Para ele, o principal motivo de um enfraquecimento de algumas regiões tem a ver com o avanço da insegurança pública: “Hoje as pessoas têm medo de sair na rua. Antigamente você andava pela Carlos Gomes, Campo Grande e Rio Vermelho e tinha outra tranquilidade”.
Insegurança ou falta de investimentos?
De acordo com a última edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado em 2025, no ano de 2024, Salvador registrou taxa de mortes violentas de 52%, ocupando a 20º posição no ranking geral das cidades mais violentas do país. Apesar da insegurança que a cidade vivencia, Marcos Melo acredita que a vida noturna continua viva e pulsante, porém, é um entrave para novos investimentos em casas noturnas. “Se você investir, ninguém vai querer ir pra ser assaltado na porta, correndo risco até de algo pior”, afirma.
Jamira Muniz, coordenadora do Espaço Cultural Alagados, equipamento vinculado à Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (Secult-BA), acredita que a ocupação dos espaços públicos está diretamente ligada à sensação de segurança e ao fortalecimento da vida cultural da cidade. Para ela, a cultura funciona como ferramenta de convivência e prevenção da violência. “Lugar onde você não vê gente se torna inseguro. A cultura faz as pessoas ocuparem a cidade, cria convivência e aproximação entre elas”, afirma.
Para Rodrigo Bouzon, dono do Horto Lounge e idealizador da Sollares, Salvador vive uma combinação de problemas econômicos, urbanos e culturais. “A cidade é cara, as pessoas têm menos ‘grana’ disponível para lazer e os eventos acabam em disputa”, acredita o empresário. Foi justamente observando essa mudança que ele decidiu abrir o Horto Lounge em 2025. Segundo Rodrigo, existia uma “lacuna” na noite de Salvador. Não havia lugares que ofertasse música, convivência e uma programação diversa, em um espaço confortável.
As dificuldades financeiras da noite soteropolitana também ficaram evidentes com o fechamento recente do BOMBAR, no Rio Vermelho. Nas redes sociais, a DJ e empresária Gabi da Oxe afirmou que, mesmo com um espaço frequentemente cheio, os custos para manter a casa ativa continuavam altos. “Um dinheiro de um fim de semana não serve só para um fim de semana, ele serve para uma cadeia”, conta.
Reinventando a noite
As mudanças da cidade também são percebidas por outros produtores e artistas que trabalham diretamente em eventos noturnos. Há 24 anos atuando na cena underground de Salvador, o DJ e produtor Jerônimo Sodré acredita que a noite passou por uma transformação de comportamento, especialmente depois da pandemia, em 2020. Para ele, hoje existe um público mais interessado em experiências alternativas, coletivas e identitárias. “Muita gente busca eventos onde possam se sentir confortáveis para existir. Há uma diversidade de corpos que não se sentem confortáveis em outros lugares da noite”, defende Sodré. Novos modelos vêm ocupando espaços na cidade. Um dos exemplos é a SóShape Tabacaria.
Criada inicialmente como uma tabacaria online em 2017, a SóShape (@Soshape_) é um ponto de encontro cultural criado quase que por acaso.
No coração do Rio Vermelho, o local oferece programação cultural com entrada gratuita todos os dias, além de mesas de sinuca, videogames, lanchonete e uma pista de dança sempre cheia. Para o dono do estabelecimento, Leonardo Lisboa, 28, o sucesso do espaço também está relacionado ao custo acessível. “A gratuidade ajuda a conectar as pessoas aos artistas e faz a galera experimentar coisas novas”, explica.


Jamira Muniz defende que a circulação pela cidade ajuda a construir pertencimento, principalmente entre jovens das periferias. “Os bairros periféricos também são ‘cidade’. O pertencimento começa quando as pessoas conseguem circular, conhecer e ocupar esses espaços”, diz. Ainda segundo ela, os espaços culturais comunitários cumprem um papel que vai além do entretenimento. “Os espaços culturais ajudam a diminuir a violência porque criam pertencimento e fazem as pessoas se reconhecerem como parte da cidade”, explica.
Para Leonardo Lisboa, a violência mudou profundamente a dinâmica da cidade. “Antigamente o Rio Vermelho vivia lotado até de manhã. Hoje muita gente evita ficar na rua por medo. Isso enfraqueceu bastante a vida noturna”, diz.
Outros hábitos
A frequentadora Dalila Ribeiro, 29, diz que sua relação com a noite passou por mudanças por conta da rotina. “Eu não saio muito, e quando saio é para algo mais específico, geralmente vou mais para o Darkão [festa de psy trance aos domingos] na SóShape”. O produtor Rodrigo Bouzon, acredita que há mudança de comportamento entre os frequentadores da noite. “O público vem buscando experiências mais leves, espaços mais confortáveis que não necessariamente durem até às sete da manhã”, afirma.
As mudanças de comportamento do público aparecem não apenas na escolha dos lugares, mas também na forma como as pessoas consomem entretenimento. As redes sociais passam a influenciar diretamente a sobrevivência das casas noturnas. “As redes sociais influenciam completamente a minha escolha. A comunicação é extremamente importante para me atrair. Se a festa não tiver nenhum tipo de divulgação, eu fico receoso em saber se vou gostar ou não”, pontua o estudante de Produção Cultural, Marlon Chagas.
Entre festas independentes, bares híbridos, eventos gratuitos e ocupações culturais, produtores e frequentadores ainda insistem em manter a cidade viva depois que o sol se põe. Ao longo das últimas décadas, a noite de Salvador mudou de endereço, trilha sonora e de comportamento diversas vezes. O que antes girava em torno de grandes boates e ruas lotadas, agora busca abrigo em eventos independentes e com novas formas de aproveitar a madrugada. Enquanto alguns acreditam que a noite de Salvador acabou, ela tem mostrado que encontrou novas formas de permanecer viva e acolher quem a procura.
Danilo Roberto – Estudante de Jornalismo da FACOM | UFBA.
Júlio César Borges – Estudante de Jornalismo da FACOM | UFBA, é repórter estagiário no Caderno de Cultura do Jornal A Tarde e assessor de imprensa estagiário no Ministério Público do Estado da Bahia (MPBA).
A motivação para esta reportagem surgiu a partir das frequentes discussões sobre a “morte” da vida noturna em Salvador nas redes sociais. O debate costuma gerar, muitas vezes de forma exagerada, aos produtores culturais, os gestores do Município e do Estado. A partir disso, surgiu o interesse em entender se a noite soteropolitana realmente enfraqueceu ou apenas passou por transformações.
