Comandado por Edy Mabel, o Espaço Cultural do Bonfim rúune gastronomia, arte e referências afro-brasileiras
Humberto Filgueiras (@neto.filgueiras) e Jéssica Santos (jessicascanf)
Edy Mabel Carvalho da Silva, 63, nasceu e foi criada em um casarão de dois andares nas proximidades da Basílica do Senhor do Bonfim. Caçula de seis filhos, a filha de Edite Bandeira e Edmundo Oliveira desde cedo teve acesso a um bairro repleto de cultura e de forte sincretismo religioso.
Apaixonada por cores e artes plásticas, ela decidiu cursar licenciatura em Desenho e Plástica na UFBA no início da década de 1990. Com a necessidade de um espaço para fazer seus trabalhos da faculdade, sua mãe lhe concedeu a parte de baixo do casarão, onde montou seu ateliê no quarto da frente. Nessa época, ela já apelidava o lugar de “Espaço Cultural do Bonfim”, pois enxergava nele um centro de desenvolvimento artístico e de incentivo cultural.
Quando seu irmão Artur deixou a carreira no futebol em Fortaleza e voltou para Salvador, Edite pediu à filha que cedesse o espaço a ele. Motivado a ganhar dinheiro, ele decidiu transformar a parte de baixo em um bar com o mesmo nome criado pela irmã, o que a deixou chateada na época. Mabel se formou, casou, teve dois filhos e, em 1999, começou a atuar como professora de Artes do Ensino Médio na rede pública estadual.
Pouco tempo depois, Artur abandonou o empreendimento, e a irmã decidiu assumir o lugar, com a autorização da mãe. Com o passar dos anos, ela transformou o Espaço Cultural do Bonfim em um bar e restaurante de circulação artística e cultural, com exposições de obras de arte e eventos musicais, atravessado pelas referências afro-brasileiras que permeiam a história do território e pela sua atuação como artista e educadora. “Como é um lugar turístico visitado por muita gente de todo o mundo, esse restaurante vem trazendo essa tradição: Não só do católico, mas do ‘povo de santo’”, afirma Mabel.
Explore a localização do Espaço Cultural do Bonfim:
Arte, educação e visibilidade
A partir de resultados da sua metodologia de ensino, produções artísticas dos alunos de Edy Mabel – que antes acumulavam pastas em sua residência – passaram a preencher as paredes do Espaço Cultural. Inspirada na abordagem triangular no ensino da arte, a professora fazia com eles releituras de obras de artistas consagrados, como Vincent van Gogh e Pablo Picasso. Esse método, que articula contextualização histórica, apreciação e produção artística, se tornou uma alternativa para estimular o interesse dos alunos pelo conteúdo e história da arte a partir da expressão criativa.










A percepção de Mabel sobre os impactos da arte na educação encontra respaldo em dados recentes. De acordo com o estudo nacional “Arte e Cultura nas Escolas”, de 2025, realizado pelo Observatório Fundação Itaú em parceria com a Equidade.Info, 80% dos estudantes de escolas públicas e privadas acreditam que atividades artísticas impactam positivamente o desempenho escolar. Esses dados evidenciam, segundo a professora, a importância do ensino de arte na escola, que por muito tempo foi tratado como “banal”. Quanto à afeição dos alunos pela disciplina, ela destaca ser motivada por poderem participar ativamente das aulas.
“Essa metodologia que só faz o aluno escrever, apenas depositando conteúdo. É diferente quando você pergunta: ‘O que foi que você viu?’, ‘O que você entende disso?’, ‘Sua colega falou isso, você discorda ou concorda com o que ela disse?’. Então, você cria uma dinâmica em que o aluno passa a se perceber como um ator do processo.”
Além do Ensino Médio, Mabel também leciona na Escola Municipal de Cadetes Mirins, em Lauro de Freitas. O diretor de Cultura do município, Leandro Santolli, 39, trabalhou cerca de nove anos como professor de História da Arte. Ele acredita que a articulação entre produção e exposição artística no Espaço Cultural também estimula no aluno o sentimento de autoestima: “Quando o estudante percebe que sua produção pode ocupar um espaço de visibilidade, ele passa a compreender sua criação como algo legítimo. Isso fortalece a autoestima, pertencimento e incentivo à continuidade artística”.
As referências artísticas trazidas por Mabel não se prendem somente a obras renomadas europeias, assuntos como o empoderamento negro também tem destaque em sala de aula. Quando a Lei n° 10.639/2003 determinou a obrigatoriedade do ensino de Arte e História Afro-brasileira nas escolas, ela já dedicava uma unidade inteira para o ensino relacionado a essa temática.
A professora cita que, quando ensinava no Colégio Estadual de Praia Grande, no Subúrbio Ferroviário de Salvador, levava seus alunos para fazer visitas a terreiros, como o Ilê Axé Opô Afonjá, com a intenção de fomentar o contato intercultural e combater a intolerância religiosa. “Eu levava meus alunos para terreiros. O Ilê Axé Opô Afonjá nos recebia lá. Levei os alunos de Praia Grande, do colégio em que ensinava na Suburbana. E foi bom, porque desmistificou a ideia de que macumba é coisa do diabo”.
Referência da cultura afro-brasileira
As referências afro-brasileiras presentes nas aulas e nas obras expostas também atravessam o funcionamento do Espaço Cultural do Bonfim. Com a presença de pratos como feijoada, caruru e sarapatel, o local – palco da tradicional Feijoada de Caneca – incorpora referências ligadas à formação da comida baiana e aos processos de resistência da população negra. Para Mabel, esses pratos carregam marcas da influência africana e da resistência cultural de um povo que preservou saberes, temperos e tradições mesmo durante o período da escravidão.
“ Eu vejo também um olhar científico nessa percepção que eles (povos africanos) têm sobre a natureza e na forma como conduzem a própria vida, até mesmo a partir da alimentação. Cada preparo possui um jeito específico, mesmo utilizando os mesmos recursos.”
A localização do casarão, no Alto do Bonfim, carrega um significado especial para a gestora, pois pessoas do mundo inteiro visitam a região para pagar promessas e ter contato com a forte espiritualidade presente na Basílica. Ivone da Silva, 54, trabalha nos arredores da Igreja do Senhor do Bonfim há 24 anos como vendedora ambulante. Ela relata que tirou seu sustento e o de seus filhos do trabalho como vendedora de fitinhas e chaveiros, motivada pela fé no Senhor do Bonfim, ou Oxalá, como também é chamado.
A baiana enxerga na área uma mistura de ritos religiosos e destaca que o respeito é a principal ferramenta para a convivência inter-religiosa e cultural: “Eu mesma sou baiana, legítima. Meu anjo de guarda é Iansã. Cada um com sua religião, né? Eu com a minha, os crentes com a deles, e todo mundo bem.”.
Para o antropólogo e pesquisador Vilson Caetano, 54 – autor do livro Santos, Devotos & Orixás na Baía de todos os Santos – a península itapagipana é um território com uma importante herança civilizatória africana. Nela, está situada a colina onde foi construída a Igreja do Bonfim, que, com o passar do tempo, foi ressignificada por afrodescendentes. Então, apesar dos conflitos derivados da intolerância religiosa, a relevância africana para o bairro e para a cidade reside na sua própria essência.
“A alma de Salvador é sincrética, é africana. Ela se diferencia de outros locais porque nós somos herdeiros e herdeiras desse catolicismo negro, que tem as suas particularidades”.
O Espaço Cultural do Bonfim corrobora a mistura de religiões e reforça a diversidade como um ponto de encontro, apreciação e difusão do fazer artístico e cultural. Mabel ainda enfatiza que o local celebra a força e a sobrevivência do povo negro, que hoje se mostra mais fortalecido e orgulhoso de suas crenças e tradições. “Essa cultura significativa para todos nós brasileiros, acredito eu, é o marco da vida de um povo que viveu a escravidão, mas que foi forte, que sobreviveu a toda essa discriminação e que hoje você percebe que está mais fortalecido, se mostrando mais como um povo de axé”.
Leandro Santolli destaca ainda a importância do Espaço Cultural no combate a apagamentos históricos relacionados à identidade soteropolitana, que é marcada pelas contribuições africanas na música, na culinária, na religiosidade e nas formas de viver. “Quando um espaço promove diálogo entre arte, cultura afro-brasileira e convivência social, ele ajuda a naturalizar o respeito às diferenças. O preconceito nasce muitas vezes da ignorância e da ausência do contato”.
Com o desejo de ampliar esse papel cultural e comunitário do espaço, Mabel almeja, com a aposentadoria prevista para o fim de 2027, dedicar-se ainda mais ao bar, que atualmente funciona apenas aos fins de semana para se adaptar à sua rotina de trabalho. A intenção é continuar fomentando o crescimento do local: “Seria massa fazer uma oficina de pintura para pessoas idosas e também para crianças. Depois, a gente poderia aproveitar os próprios trabalhos produzidos por eles para montar uma exposição na praça”.
Serviço
Espaço Cultural do Bonfim
Localização: Largo do Bonfim, 17 – Bonfim, Salvador – BA, 40415-475
Funcionamento: sábados e domingos, das 11h às 16
Informações e reservas: @carvalhoedymabel
Humberto Filgueiras – Estudante de Jornalismo da Faculdade de Comunicação da UFBA. Estagiário no SESI Cultura Bahia, tem como principais interesses cultura, música e entretenimento. Curioso por natureza, ama conhecer novos lugares e histórias interessantes.
Jéssica Santos – Estudante de Jornalismo da Faculdade de Comunicação da UFBA e Bacharel em Humanidades pelo Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos (IHAC/UFBA). Atua no mercado do audiovisual baiano, com experiência voltada para política.
A motivação desta reportagem surgiu durante uma visita de um dos repórteres ao Espaço Cultural do Bonfim. Na ocasião, o repórter conversou informalmente com Mabel Carvalho, que falou sobre as obras expostas e seu trabalho como professora de Arte. Encantado com a atmosfera cultural do lugar, ele percebeu ali o potencial para uma reportagem.
