Corridas de rua despertam atenção à saúde

Em 2025, número de corredores no Brasil ultrapassou quantidade de habitantes da Bahia 

 

Rodrigo Junior (@rodrigosfjunior) e Vitor Bahia (@ovitorbahia)

 

Com o passar dos anos, a corrida de rua conquistou o coração de quem se exercita diariamente. De acordo com o levantamento “Por dentro do Corre”, realizado pela marca de produtos esportivos Olympikus em parceria com a agência de pesquisa Box1824, em 2025 foi registrado um aumento de dois milhões de corredores, totalizando 15 milhões de atletas. Se comparado ao número de habitantes da Bahia no último indicativo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) do mesmo ano, o índice supera com uma diferença de 129.093. Diferente de academias, para correr na rua uma pessoa comum não precisa responder a questionários com informações médicas que impeçam ou não a prática de exercício físico. No entanto, apenas colocar um tênis e correr pode acarretar o desenvolvimento de problemas de saúde caso o hábito seja realizado sem precauções importantes. 

 

 

 

O contexto da localização é um fator importante a ser considerado na prática desta atividade. A cidade de Salvador, por exemplo, registra altas temperaturas e possui uma elevada umidade do ar, especialmente no Verão. Sendo assim, o risco de desidratação, exaustão pelo calor, queda de rendimento e intercorrências clínicas é maior nos horários mais quentes do dia. O professor de educação física e vice-presidente do Departamento de Educação Física em Cardiologia na Sociedade Brasileira de Cardiologia, seccional Bahia, Marcus Paulo Santos de Brito, recomenda priorizar horários mais amenos, manter adequada hidratação antes, durante e após a atividade e respeitar os sinais emitidos pelo organismo.

 

De acordo com Marcus, as doenças cardiovasculares descompensadas ou sintomas ainda não investigados são contraindicações para as corridas de rua. Apesar disso, quando existe acompanhamento adequado e controle clínico, muitos pacientes cardiopatas podem praticar exercícios  de forma segura e obter benefícios importantes para a saúde, aliás o movimento faz parte do tratamento. 

 

O especialista, no entanto, chamou atenção para um outro aspecto: os fatores psicológicos relacionados à prática esportiva. “Com a popularização das corridas de rua e das redes sociais, muitas pessoas passam a estabelecer metas incompatíveis com sua condição física atual ou tentam acompanhar o desempenho de grupos mais experientes para obter aceitação social e senso de pertencimento”.

 

A busca por ser reconhecido pode levar à negligência dos próprios limites, ao excesso de treinamento e a assumir comportamentos de risco. A evolução no esporte só existe se estiver aliada à individualidade biológica, a experiência prévia e a capacidade de adaptação de cada indivíduo. “A comparação constante com outros praticantes pode comprometer tanto a saúde física quanto o bem-estar psicológico”, alerta Marcus. 

 

O que era apenas uma prática de exercício passou a fazer parte do calendário de eventos corriqueiros que a população se engaja em participar. Quem passa pelas ruas de Salvador, por exemplo, nota que em quase todos os finais de semana, uma corrida de rua acontece. Camisas padronizadas, número no peito. Correr em grupo se tornou um lazer e compromisso marcado por muitos soteropolitanos e baianos. De acordo com dados divulgados pela plataforma de eventos Ticket Sports, dos 40 eventos realizados nos cinco primeiros meses de 2026 na Bahia, 23 foram corridas de rua, o que corresponde a 57,7%. No mesmo período no ano anterior, o percentual era menor, de 55,82%.  

 

 

 

Grupos de corrida ganham força em Salvador e em outras cidades

 

Além das corridas oficiais, atletas começaram a se organizar em grupos de corrida. Esse é o caso de Filipe Andrade, 30, criador da Corrida dos Sedentários. O que era para ser o encontro de amigos e familiares com apoio mútuo para a prática de exercícios, hoje reúne mais de 12 mil pessoas nas ruas de Camaçari (cidade da Região Metropolitana de Salvador) três dias na semana. “Eu acredito que essa popularização aconteceu porque as pessoas se identificaram com a proposta. O Sedentários nasceu de forma muito verdadeira, sem cobrança, sem competição e sem a pressão de ser atleta. Eu era uma pessoa sedentária que decidiu mudar de vida e comecei a compartilhar essa caminhada. Aos poucos, amigos foram chegando, convidando outras pessoas, e o grupo foi crescendo de forma natural”.

 

 

Para o empresário do ramo do entretenimento, o movimento ganhou força principalmente pelo objetivo em comum de viver uma vida mais saudável. Entrar para a tendência e fazer uma verdadeira corrente de incentivo ganhou o apreço da população da cidade da Região Metropolitana de Salvador. Ainda que não seja profissional de Educação Física, Felipe entende que fazer as pessoas se movimentarem vem com uma grande responsabilidade com a integridade física dos corredores e disponibiliza equipes com profissionais de saúde para a aferição de pressão arterial e glicemia, além de profissionais aptos a fazerem primeiros-socorros. Os chamados “Batedores” ficam em pontos estratégicos do percurso, acompanhando os atletas, de prontidão para questões emergenciais. 

 

“Com base nessa avaliação, a equipe orienta cada pessoa sobre o que é mais adequado naquele momento, se ela está apta para correr, caminhar ou até mesmo se precisa procurar uma avaliação médica antes de iniciar a prática. A nossa missão é incentivar a atividade física, mas sempre com responsabilidade e segurança. A saúde das pessoas vem em primeiro lugar”, reitera.

 

Equipe de batedores se dividem em pontos estratégicos do percurso. Foto: Camila Fotografia (cedida por Felipe Andrade)

 

Natália Freitas corre todos os dias pela manhã. Foto: Foco Radical

Mas, além dos grupos de corrida, alguns atletas preferem praticar o esporte sozinhos. Esse é o caso de Natália Freitas, 33, que há quase um ano corre três vezes por semana no Jardim de Alah, em Salvador. O que começou como hobbie por recomendação do personal trainer, para aliar aos treinos de musculação, entrou para rotina e para o gosto pessoal da jornalista. Atualmente, a atleta participa de corridas organizadas e estabelece metas para  a prática. “A primeira corrida que participei foi a Maratona Salvador, para correr 5km. Esse ano volto a correr nela, na modalidade dos 10km e estou me preparando para meia maratona em novembro, 21km”.

 

A prática do esporte entrou em paralelo a um momento de maior atenção com a saúde. Aos 26 anos, Natália descobriu um carcinoma pouco diferenciado tipo três na tireoide, que é um tipo de câncer característico por uma facilidade maior no processo de metástase, nome dado à multiplicação, espalhamento e crescimento celular. Um ano após o tratamento, ela conseguiu entrar em remissão, o processo de redução ou desaparecimento dos sintomas e sinais da doença em pacientes oncológicos, que gerou um cuidado mais atencioso com a saúde. A soteropolitana seguiu às orientações médicas de iniciar exercício físico, acompanhada de um profissional que a instruiu sobre a forma correta de começar a correr. De acordo com ela, o hábito ajudou na melhoria da condição cardiovascular e nas taxas de saúde indicadas em exames, além do desenvolvimento da musculação e fortalecimento do corpo. 

 

“A saúde importa muito. Mas, com o tempo adquiri, gosto pela corrida e encaixei total na minha rotina. Por ser algo simples, apenas sair e correr, consigo praticar mesmo viajando, coisa que nem sempre consigo com academia. E encontrei um hábito saudável que também me faz bem mentalmente”, explica. 

 

Cuidado clínico se torna aliado dos corredores

 

O cuidado antes da prática, como uma alimentação adequada, também é fundamental para correr com segurança. Para a nutricionista Daniela Dantas, os principais objetivos são fornecer energia e evitar desconfortos gastrointestinais antes das corridas. Uma alimentação inadequada pode comprometer tanto a saúde quanto o desempenho esportivo, podendo gerar uma fadiga precoce durante os treinos, redução no rendimento físico, recuperação muscular mais lenta, maior risco de lesões, perda de massa muscular e desidratação.

 

A especialista fez recomendações de formas de se alimentar e, propriamente, os alimentos a serem utilizados antes e depois da atividade física. “Recomendamos uma refeição rica em carboidratos de fácil digestão, com baixo teor de gorduras e fibras, consumida entre uma e três horas antes do exercício, dependendo da tolerância individual, como por exemplo, frutas, pães, tapioca, aveia ou outras fontes de carboidratos”.

 

“Já após a corrida, as necessidades principais são repor os estoques de energia, promover a recuperação muscular e garantir adequada hidratação. Nesse momento, a associação de carboidratos com proteínas costuma ser a estratégia mais indicada, como no caso de frutas com iogurte, sanduíche com alguma proteína magra, leite, ovos ou refeições completas contendo arroz, feijão, carnes, legumes e verduras”, completa.

 

Já o ortopedista e especialista em quadril, Alexandre Meirelles, chama atenção para os riscos que a sobrecarga de corridas podem ocasionar no corpo do praticante. As principais condições que podem ser causadas pela sobrecarga são as tendinites na área do quadril, tendinite glútea, na região dos adutores, canelites, síndrome do joelho corredor, fascite plantar e as fraturas por stress. Estas enfermidades, além do excesso e a falta de cuidado, podem ser consequência da falta de fortalecimento muscular dos membros inferiores e de treinos específicos individualizados que protegem o indivíduo nas corridas.

 

Imagem gerada com auxílio do Gemini.

 

“Um grande ponto de base para um bom desempenho na corrida é um reforço das panturrilhas, reforço do glúteo, do core [grupo interconectado de músculos que inclui todos os seus abdominais] e de toda a musculatura adjacente do joelho. Além disso, um acompanhamento profissional, a parte médica, multiprofissional, a necessidade de um fisioterapeuta, um educador físico. Todas as situações acabam dando uma base para criar um treino em que faz sempre um acompanhamento com reforços musculares. Durante o treino fazer o aquecimento com alongamentos adequados e depois do treino também fazer os alongamentos e as situações que criam um relaxamento adequado”, explica o doutor Alexandre.

 

Ilustração gerada com auxílio do Chat GPT – 5.5.

 

Outro detalhe importante que foi destacado pelo ortopedista, é o uso do tênis. A ferramenta principal da corrida de rua não pode ser negligenciada pelo desleixo, porque influencia diretamente no impacto com o solo. Alexandre Meirelles orienta a realização de avaliações referentes ao tipo de pisada de cada pessoa. A proporção de uso é um ponto que sempre deve despertar atenção, pois um tênis desgastado pode aumentar o risco de lesões. 

 

A presença de um profissional, no caso de Natália Freitas, foi fundamental. O professor além de criar uma rotina de treinos para o fortalecimento dos membros inferiores e da lombar, que mais são impactados na corrida, a orientou sobre o calçado e alimentação ideal para a prática. Após começar a correr, também se consultou com nutricionista e endocrinologista para aumentar o cuidado com a saúde. 

 

“Quem fala que é prazeroso, mente um pouco. Depende muito do seu corpo e de como ele está funcionando, então nem sempre você está em um bom dia para correr. Mas o processo é desafiador e faz com que você muitas vezes queira desistir, mas persiste e vai se adaptando até que chega uma hora que seu corpo meio que está indo só. E o final, sobretudo o final, é a sensação prazerosa de alívio, de você ter conseguido superar o desconforto e ter finalizado seu objetivo”, finaliza a atleta. 

 

Rodrigo Junior é estudante de jornalismo da UFBA | FACOM e atualmente estagia no portal de notícias Destaque1, onde atua como repórter, apresentador e produtor do podcast Destaque da Política, filmaker e fotojornalista. Tem interesses em temas como política, meio ambiente, comportamento e cultura.

 

Vitor Bahia é estudante de jornalismo na UFBA | FACOM e é estagiário de jornalismo na Rádio Metropole, produtor do programa Metropole Saúde, colunista de esportes do Jornal da Metropole. Já atuou na produtora Macaco Gordo, do Grupo Metropole, além de ter sido produtor dos programas Metropole Mais e Bem na Hora. No portal de notícias Taktá No Ar, atuou como repórter.

 

A corrida de rua é uma atividade que ganhou uma massiva adesão popular em Salvador nos últimos anos. Essa popularização proporcionou uma romantização da prática de que, em qualquer circunstância, a saúde física e mental é garantida. No entanto, as corridas de rua, quando não relacionadas a uma série de cuidados prévios e posteriores, pode impactar negativamente na saúde do praticante. É exatamente isso que a reportagem busca evidenciar, ao reconhecer os benefícios, mas elucidar as contraindicações e precauções do exercício.

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