União [in]comum entre Recife e Salvador

Ratos e Foveiros: as estéticas que ressignificam identidades marginalizadas a símbolos de orgulho e pertencimento

 

Amanda Menezes (@amandamenezes__) e Anna Caroline Santiago  (@nacarolinn )

 

Enquanto o dicionário diz que rato é um roedor, Recife diz que o Rato é o dono de um bar, o cara que anda “no traje”, brilha na corrente de ouro e domina gírias que já merecem até glossário próprio. Se te chamassem de “Rato Peso” hoje, você saberia se é um elogio ou um insulto? No Recife, ser rato não tem nada a ver com o roedor, mas sim com postura. 

 

Com os Ratos, tudo começou com uma resenha entre amigos no bairro de Casa Forte, Zona Norte do Recife. Eles fundaram o ‘Ratos Bar,’ dentro de um canal de esgoto. O primeiro vídeo viral foi de uma festa dentro do esgoto, com passinho, bebida e água na canela, enquanto uma DJ, do lado de fora, comandava o som com ‘Gera Bactéria’, de Shevchenko e Elloco. 

 

A recém-nascida cultura dos Ratos reflete um processo de identidade muito parecido com o que é ser Foveiro, já bem conhecido por Salvador. Ambos nasceram sob o preconceito, mas transformaram termos depreciativos em símbolos de acolhimento. Quem observa de fora percebe que o fenômeno pernambucano utiliza as redes sociais para transbordar a ‘resenha’ e se firmar como um autêntico estilo de vida urbano, repetindo o sucesso da experiência baiana.

 

A união [in]comum entre Recife e Salvador parte do miolo de como se forma uma subcultura. Enquanto na capital pernambucana o bregafunk dita o ritmo das caixas de som, nas ruas de Salvador é o pagodão. Na moda, o estilo urbano foca na ostentação de marcas esportivas e de luxo, acompanhado por gírias que contam o dia a dia das comunidades. Essa sinergia se reflete até na escolha dos animais de estimação: em Salvador, um bom Foveiro sabe cuidar como ninguém de um Papa-Capim. De lá para cá, o movimento dos “ratosos” e a “foveiragem” podem até não trazer algo novo, mas representam a reafirmação de um espaço que se recusa a ser marginalizado.

 

“É sobre como a juventude quer ser vista, quer se mostrar”, explica Pedro Santana, mestrando no Programa de Comunicação e Cultura Contemporâneas da FACOM | UFBA. Para Pedro, a potência do movimento de reapropriação está na mudança de ótica dessa juventude que se reconhece e assume o protagonismo da própria narrativa, comunicando abertamente na internet os elementos que fazem os Ratos serem Ratos ou os Foveiros serem Foveiros. 

 

 

E o que o Mickey tem a ver?

 

Engana-se quem associa a cultura dos Ratos com aquele ratinho famoso, de voz fina, short vermelho e parque temático. Na verdade, o personagem inspirador de tudo isso é o Mestre Splinter, mentor das Tartarugas Ninja. Nos desenhos, ele é o rato mutante que guia e ensina. Na cultura das ruas, a figura do ‘Coroa’ assume esse papel de sabedoria. Entre ‘Ratas Peso’, ‘Camponesas’ e ‘Ratas Paia’, o que poderia parecer apenas uma lista de personagens é, na verdade, a forma como a comunidade estruturou uma hierarquia própria. É um sistema de respeito e admiração onde cada termo define o status e a postura de quem faz parte do movimento.

 

Para João Pedro Marinho, 25, analista publicitário e morador do Recife não ratoso, as gírias do movimento já furaram a bolha das comunidades. “Já usamos no dia a dia. O termo ‘Peso’ agora é associado a coisas grandiosas, a algo muito massa. As gírias [dos Ratos] estão se tornando as gírias da galera recifense”, explica.

 

Marinho ressalta que a aceitação não é unânime e esbarra em barreiras geracionais e sociais. “Pessoas mais velhas e classes mais elitizadas ainda encaram com menosprezo. São jovens de comunidade, em sua maioria pretos, usando vestimentas que por muito tempo foram criminalizadas pela sociedade”, pontua o analista.

 

O “qui qui qui qui” em um vídeo que obriga qualquer um a parar de rolar o feed para assistir. A repercussão e construção da cultura dos Ratos nas redes sociais é feita através do uso do humor como ferramenta de subversão. Pedro Santana, mestrando de Comunicação e Cultura Contemporânea, entende que a escolha do humor foi uma estratégia de enfrentamento para desconstruir a ideia de violência atribuída às pessoas periféricas. 

 

Da mesma forma, a criadora de conteúdo recifense, Mel Nóbrega, vê no seu trabalho o impacto que essa “memificação” trouxe. “Pararam de ser chamadas de ladrões, agora tão virando meme na internet e a galera tá imitando. Agora todo mundo quer ser Rato”, completa Nóbrega, que viralizou com vídeos de comédia com o “Pernambuquês” e a forma de falar característica do movimento. 

 

Hierarquia do “Peso”

 

Foto: Redes Sociais / @favelatalks

Por trás da narrativa moldada pelo humor, o movimento revela uma articulação de lideranças, onde os integrantes se consolidam como personas de respeito. A hierarquia dentro dessas culturas, apesar de informal, é bem estruturada. Para Pedro Santana, títulos como “rato peso”, “rato tonelada” e “mestre Splinter” revelam um sistema que se sustenta pelo domínio dos códigos compartilhados pelo grupo. Quanto mais intensamente a pessoa incorpora e performa esses códigos, mais reconhecimento ela conquista. O olhar para os que já foram legitimados é o que move a reprodução da estética, da linguagem e do padrão de consumo característicos de cada uma das culturas. 

 

A questão da hierarquia interna opera dentro de uma lógica de inversão de poder. O que a cultura dominante despreza, como a estética exagerada e linguagem característica, é o material que os Ratos e Foveiros usam para construir seus principais critérios de valor. Na questão de gênero, por exemplo, João Marinho relembra que o termo ‘rata’ era carregado de machismo e usado para rotular, diminuir mulheres pobres. “A menina solteira, que ficava com boyzinhos por aí… Tinha um machismo por trás”, completa. Hoje, ser Rata no Recife se tornou símbolo de identidade e autoestima, desvinculado da intenção pejorativa de antes.

 

Vou de Cyclone

 

“Cyclone não é marca de ladrão, é a moda do gueto, mas com toda discriminação, eu imponho respeito. ‘Cap’ para o lado, camiseta, bermudão, é de Cyclone. Vou de Cyclone”

 

Os versos da banda A Bronkka em 2010, já mostravam como em Salvador, a percepção cultural seguiu um roteiro semelhante ao do Recife, em que um percurso que emerge da inferiorização para, anos depois, alcançar a ressignificação. O termo “Foveiro”, historicamente utilizado na Bahia para descrever a pele negra ressecada e de aspecto esbranquiçado, transmitia uma carga pejorativa de “falta de zelo”. Hoje, o que se convencionou chamar de “foveiragem” movimenta-se como uma afirmação estética e política do que antes era motivo de exclusão.

 

Para o estudante de Jornalismo da FACOM Júlio César, de 25 anos, morador do bairro de Mussurunga, a estética foveira sempre foi vizinha. Apesar da vontade, ele nunca chegou a performar o estilo, de fato. “Eu tinha pais mais controladores. Não queriam que eu me misturasse. Como eu era um menino negro, tentavam me afastar disso”, conta o estudante.  

 

A limitação não o impediu de perceber como essa identidade estava presente na escola e no bairro. Entre as lembranças, nomes que pavimentaram o caminho da ostentação e que são lembrados até hoje. Kelly Cyclone, conhecida como a primeira influenciadora digital da Bahia, em uma época em que o termo sequer existia. Ela foi morta em 2011, aos 23 anos.

 

Kelly Cyclone / Foto: Reprodução

 

“Ela era a ‘it girl’ de Salvador na era do Orkut. Foi a primeira influencer do estado porque se apropriava das marcas de desejo, como a Cyclone, e arrastava uma legião de fãs que buscavam nela um espelho”, explica Júlio. Conhecida por apelidos como “Kelly Doçura”, ela viveu no limite entre o estrelato das ruas e a marginalidade. Reconhecida por seus códigos visuais, como a tatuagem do coelho da Playboy no abdômen e a combinação da camisa da Seleção Argentina com saias de veludo. 

 

O comunicólogo, Pedro Santana, usa o exemplo de Kelly Cyclone para reforçar que a jovem estava à mercê da mídia definir se ela era “mocinha ou bandida”. “Ela seria uma figura de afirmação cultural. É uma pena que isso tenha ocorrido nos anos 2000, na época do Orkut, mas, ainda assim, conseguimos ver até hoje o seu impacto como uma figura cultural”, reflete Santana.

 

Presente ou ainda que vista de longe, assim como por Júlio, em Salvador, João Pedro, no Recife, ou por estudiosos do tema, a estética dos Ratos e Foveiros prova que o sentimento de pertencimento fala mais alto diante da marginalização  da periferia. “É assumir o protagonismo e poder comunicar os elementos que fazem os ratos serem os ratos ou foveiros serem foveiros”, concluiu o mestrando. 

 

 

Amanda MenezesEstudante de Jornalismo na FACOM | UFBA, é estagiária de assessoria de comunicação na Superintendência do Banco do Nordeste da Bahia. Em 2025, atuou como editora-chefe e repórter da 27ª edição da Revista Fraude, no Programa de Educação Tutorial em Comunicação da UFBA (PETCOM). 

 

Anna Caroline Santiago –  Estudante de Jornalismo na FACOM | UFBA, é repórter trainee na TV Aratu. Desde 2024, atua na emissora na produção de vídeos, textos e conteúdos para as redes sociais.

 

A motivação para produzir esta pauta surgiu da repercussão da cultura dos Ratos como conteúdo de humor nas redes sociais, iniciando um movimento de ressignificação do estigma sobre comunidades periféricas. De forma muito semelhante, a popularização da estética Foveira, em Salvador, tem contribuído para a transformação de uma imagem “violenta” para uma humorística de pertencimento e identidade. 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *