Aliadas ou inimigas?

O que dizem os professores sobre uso de tecnologias na sala de aula pelas novas gerações

Deinally Santos (@deinallyst) e Mariana Abreu (@littlejornalista)

No decorrer dos anos, a sala de aula se modificou e deu espaço a novas estruturas. O giz foi perdendo espaço, os cadernos deram vez aos tablets e laptops, e o quadro, que antes era preenchido com palavras, agora é objeto de apoio para projetores. Essa mudança, além de não ser somente física, é reflexo da chegada de novas gerações — como a Geração Z, que abrange os nascidos entre 1997 e 2010, e a Alfa, geração que começou em 2010 — que moldaram o ambiente de ensino com o acesso facilitado à internet.

 

Dados da pesquisa Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) Kids Online 2025, que investiga o uso da internet por crianças e adolescentes no Brasil, revelaram que o acesso à internet por esse público dentro do ambiente escolar apresentou uma oscilação significativa nos últimos três anos. A análise feita pela reportagem observa que, após atingir um pico de 51% em 2024 (frente aos 44% registrados em 2023), o índice de conectividade nas escolas sofreu uma queda em 2025, ao recuar para 37%. Esse declínio acende o debate sobre as recentes políticas de restrição ao uso de aparelhos celulares dentro das salas de aula.

Gráfico gerado com Inteligência Artificial | Chat GPT

Em janeiro de 2025, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sancionou a Lei 15.100/25, que proíbe alunos de usarem telefone celular e outros aparelhos eletrônicos em escolas públicas e particulares, inclusive no recreio e intervalo entre as aulas.

Banner gerado por Inteligência Artificial | Gemini

Segundo a professora de português e redação do colégio Sartre, Iranildes Cerqueira, com a promulgação da nova norma, o ritmo das aulas se tornou mais interessante, devido as buscas feitas em casa pelos alunos, “com a pausa necessária, para mediar a transformação da informação solta em conhecimento”, defende a educadora. 

A utilização de plataformas como o Canva, para a produção de conteúdos, do Spotify para a criação de playlists dos projetos de leitura e do Chat GPT para elaborar imagens, são algumas das ferramentas utilizadas pela professora para dinamizar as aulas e se aproximar da realidade dos estudantes. 

Ela acredita que uma aula com recursos audiovisuais “seduz” os alunos por um tempo, mas que é necessário dosar esse uso, devido a rápida perda de atenção e de interesse. “Antes, os estudantes conseguiam ouvir uma música de 5 minutos, hoje já pedem para acelerar. Comportamento esse típico de uma geração ansiosa”. A sua estratégia, portanto, é mesclar os estímulos, com uso do quadro, slides e recursos do audiovisual. “Isso ajuda a manter a atenção e convocar o estudante a manter o conteúdo na memória de longo prazo”, reflete Iranildes.

O psicólogo social, Jonathan Haidt, no seu livro “A geração ansiosa: Como a infância hiperconectada está causando uma epidemia de transtornos mentais”, discorre sobre os efeitos da hiperconectividade no desenvolvimento social e neurológico dos jovens e o que os pais, professores, empresas de tecnologia, escolas e governos podem fazer para reverter esse cenário e evitar danos psicológicos ainda mais profundos.

Para o professor de matemática do 3° ano do colégio Concept, Rodrigo Schiefler, o imediatismo dos tempos atuais influenciam na perda de atenção dos alunos. Na sua visão, os estudantes, influenciados pelas redes sociais, enxergam o ensino como algo prático e rápido, não se dedicando a obter o conhecimento propriamente dito. “Os alunos, ao invés de investirem mais tempo e energia para construir um conhecimento, melhorar a bagagem e o repertório cultural, acham que é um processo mais rápido, fluido, e não a coisa do suor”, destaca o professor. 

Por dar aula a estudantes que já estão no final do período escolar, Rodrigo acredita que sua relação com as ferramentas tecnológicas é um pouco mais distante, com ressalvas ao Chat GPT e o Gemini, que utiliza como apoio para a elaboração de provas. “Você coloca o assunto na ferramenta, dá uma sugestão, uma contextualização, informa o nível de dificuldade que deseja… Isso tem ajudado na elaboração dos itens”, explica o professor. 


Dificuldades e entraves no uso das tecnologias no ambiente escolar


A pesquisa “O que pensam os professores sobre o uso de tecnologia em sala de aula”, realizada em 2017 pelo movimento Todos pela Educação, entrevistou 4000 professores do ensino fundamental (1° ao 5° ano); dos anos finais do ensino fundamental (6° ao 9° ano), do ensino médio e da educação para jovens adultos (EJA). Dos entrevistados, 42% declararam buscar apoio na sua rede de relacionamentos para tirar dúvidas acerca do uso das ferramentas tecnológicas, já que o papel do coordenador pedagógico era muito limitado. 

Dentre os maiores entraves do acesso à internet, 66% correspondiam ao número insuficiente de equipamentos, 60% aos computadores desatualizados ou com defeitos, 64% à velocidade insuficiente de internet e 52% à falta de materiais adequados. Porém, mesmo com uma infraestrutura adequada, 54% dos professores admitiram que só utilizariam as ferramentas se a carga de trabalho não aumentasse.

Os entraves não se limitam apenas a questões técnicas, abrangem também a falta de preparação dos educadores para lidar com essas tecnologias. A professora de ciências Núbia Amorim trabalha há 30 anos na rede municipal de Nilo Peçanha (BA), onde leciona para o ensino fundamental II e, apesar de fazer uso de tecnologias para inovar na sala de aula, ela reconhece que há uma limitação. “Eu tenho usado algumas dessas tecnologias. Gostaria de explorar mais, mas não fui treinada pra isso; me sinto às vezes bem ultrapassada e os métodos tradicionais não atrai os alunos atuais”, conta a educadora.

Embora o uso dos eletrônicos em sala possa auxiliar no processo de aprendizagem — como para a realização de pesquisas ou acesso rápido a informações e bases de dados — a docente acredita que os estudantes utilizam esses aparelhos para atividades que fogem da proposta da aula. “A maioria só acessa redes sociais, onde passam a maior parte do tempo. Nossos alunos não têm interesse, infelizmente, em usar toda a tecnologia disponível para aumentar seu conhecimento”, destaca Núbia.

Devido aos desafios estruturais e a falta de direcionamento adequado, a professora considera o cenário como “um dilema”. Ela diz que esse distanciamento do uso da tecnologia resulta em uma desconexão entre o educador e os alunos. “Não conseguimos mais falar a linguagem dos alunos e prosseguimos tentando usar o que está ao nosso alcance no uso da tecnologia, visto que temos até alguns outros recursos, mas não fomos treinados” enfatiza a professora que relata ainda a pressão que existe para que as ferramentas sejam utilizadas em sala. “Esperam de nós, os nossos superiores, que modifiquemos os nossos métodos de ensinar, mas não nos é dado as condições para isso”, conclui Núbia.

Apesar dos desafios com o uso dessas ferramentas, educadores como Rodrigo, reconhecem haver um maior engajamento dos alunos no processo de aprendizado quando utilizados esses artifícios. Porém, o professor alerta para uma falta de tato por parte dos discentes quando se trata do uso das inteligências artificiais, por exemplo.

“Há, muitas vezes, uma falta de sensibilidade por parte dos estudantes quando, ao fazerem um questionamento e serem respondidos, sentem a necessidade de pesquisar no Chat GPT para validar a nossa resposta, o que nos deixa nesse conflito entre o que o professor fala e o que a IA vai falar”, desabafa Rodrigo.


Desafios e consequências da docência


A tentativa de se adaptar a uma nova forma de ensinar para captar a atenção dos estudantes, mantendo a relevância do conteúdo, é atravessada por desafios que vão além de simplesmente incorporar tecnologias ou “falar a língua” da nova geração.

Com as transformações na maneira de ensinar, levando em consideração que os professores buscam fugir da forma de ensino tradicional — na qual são vistos como personagem principal — Milena (nome fictício dado pela reportagem a uma professora que atua no Ensino Médio no município de Itapetinga e escolheu não se identificar) reconhece que o contexto educacional é dinâmico, e trabalhar com pessoas é ocupar um lugar de mudança constante. Ela destaca, porém, que “a consequência das mudanças não têm alterado a autoestima do professor, mas levado ao adoecimento.” Para a professora, “pouco se fala da apatia, indisciplina, violência psicológica presentes no chão da sala de aula”, questão que, segundo  ela, é um dos motivos do constante afastamento de docentes para cuidar da saúde física e mental.

Em um cenário de descredibilização e desvalorização acerca do papel desempenhado pelos professores, Rodrigo evidencia a necessidade de se manter firme e acreditando nos princípios fundamentais que regem a profissão. “Independente das redes sociais, da inteligência artificial, das novas tecnologias, a escolha de ser professor é feita cada vez menos pelos jovens. Até por uma desvalorização social e financeira, mas o nosso desafio é manter o foco e tentar enxergar a beleza da profissão”, destaca Schiefler, ressaltando que as ferramentas tecnológicas são aliadas e que os docentes precisam se adaptar a essa realidade.

Deinally Santos – Estudante do 6° semestre de Jornalismo na UFBA, estagiária na rádio Metropole, gerente de mídias sociais e soteropolitana de coração. Ouvinte assídua e observadora nata.

 

Mariana Abreu – Soteropolitana, estudante do 6° semestre de Jornalismo na Facom, assessora de comunicação na Assembleia Legislativa da Bahia e estagiária do Portal A Tarde.  Me interesso por histórias cotidianas e acredito que todo mundo tem algo que mereça ser compartilhado.

 

A escolha da pauta foi motivada pela necessidade de compreender a dinâmica atual, na qual professores enfrentam o desafio de ensinar para gerações hiperconectadas (Z e Alfa). A reportagem busca compreender como essa hiperconexão tem modificado o ensino-aprendizagem, como os professores têm se adaptado a esse cenário e quais as mudanças notadas após a sanção da lei 15.100/2025 que prevê a proibição do uso de celulares nas salas de aulas de escolas públicas e privadas.

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