Como jovens adultos encaram o distanciamento de amizades na era da hiperconectividade digital
Amanda Menezes (@amandamenezes__) e Anna Caroline Santiago (@nacarolinn)
Dezoito é quando brincam que “não pode mais fazer besteira”. Os 19 têm um gosto agridoce, com todas as emoções de adolescente e milhões de vidas possíveis esperando logo ali. Mas, os 20? Os 20 são quando tudo muda. Quando tudo começa. Quando termina. Quando pausa, volta, continua, recomeça e termina de novo. Quando a vida vira de ponta-cabeça e o “jovem” passa a vir acompanhado de “adulto” nas frases.

As mudanças trazidas pela fase dos 20 anos são intensas e plurais: início da faculdade, fim da faculdade, entrada no mercado de trabalho. Nessa idade, muitas pessoas mudam de cidade, estado ou até país. Todas essas mudanças acompanham círculos sociais novos e antigos. As amizades se mantêm, crescem, mudam ou se afastam. Às vezes, sem nenhuma briga ou rompimento explícito.
Em algum momento, aquela rotina que era compartilhada com os amigos acaba e os encontros diários se tornam encontros trimestrais de atualizações sobre a vida de cada um. Quase como se, ao invés de seus amigos fazerem parte da sua vida, agora você tem que constantemente contextualizar eles sobre o que está acontecendo e, no fim, o que resta é uma interação silenciosa nas redes sociais.
Para o estudante de Jornalismo da FACOM , Gabriel Jones, 20, isso é um fenômeno de mudanças de ciclo. “Se você vai pra uma faculdade em outra cidade, muda de bairro ou simplesmente muda de gostos, os amigos tendem a mudar”, opina Gabriel que, como muitos jovens, também viveu esse distanciamento. Um ano depois de entrar na universidade, tentou se reaproximar dos amigos da época do ensino médio. “Eram quase estranhos. Quase lembranças de pessoas que eu já tive algo em comum, mas não sei o que era e nem quando perdi”.
Sabe aqueles posts nas redes sociais, em que a pessoa expressa uma opinião polêmica, mas termina com “mas vocês não estão prontos pra essa conversa”…? É possível encontrar facilmente publicações assim, com relatos sobre como a perda de uma melhor amiga é pior do que a de um namorado. Todo mundo tem uma amizade que se tornou sinônimo de saudade. Alguém que, apesar da distância, física ou emocional, continua ocupando um lugar na memória. Essas relações ajudam a lembrar o ciclo da vida: nascer, viver e morrer. Embora o afastamento entre amigos faça parte das mudanças naturais da vida adulta, ele prova que o luto pode ser vivido também em vida.
Para a psicóloga comportamental Maria Emília Pimentel, o luto em amizades não é tão socialmente validado quanto o luto em outras formas, fazendo com que o impacto emocional dessas perdas nem sempre seja reconhecido. “O luto na amizade existe quando alguém termina um relacionamento ou perde uma pessoa próxima, uma pessoa querida, existe toda uma construção social ao redor que faz com que as pessoas reconheçam a dor e ofereçam apoio”, explica.
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Segundo a profissional, esse luto tende a se intensificar quando não há uma ruptura clara. Sem uma explicação ou um encerramento definitivo, muitas pessoas permanecem cercadas por dúvidas, tentando entender os motivos do distanciamento ou se a relação apenas esfriou com o passar do tempo. Em seus atendimentos, Emília observa que o fenômeno não aparece como queixa principal, mas com outros nomes. “Aparece com falas como ‘eu não tenho mais com quem sair, meus amigos agora tem outras prioridades’, ou existe uma percepção de não se encaixar ali nos ambientes que os amigos frequentam”.
Hiperconectados e solitários

Um comportamento frequentemente observado pela psicóloga Maria Emília, a partir desses distanciamentos, é o isolamento social. “Ao invés de buscar novos vínculos, elas recuam. Falhar parece muito mais doloroso do que tentar”, relata. Em 2023, o cirurgião estadunidense Vivek Murthy, representante da Comissão de Conexão Social da Organização Mundial da Saúde (OMS), declarou a solidão e o isolamento social como uma epidemia nos Estados Unidos. Em 2025, a Assembleia Mundial de Saúde adotou a primeira Resolução em Conexão Social (em tradução livre).
De acordo com o relatório de 2025 da Comissão de Conexão Social da OMS, uma em cada seis pessoas ao redor do mundo experienciam a solidão. Apesar de afetar todas as faixas etárias, é um fenômeno mais comumente reportado em adolescentes e jovens adultos. No contexto brasileiro, uma pesquisa de janeiro deste ano, feita pela ONG Family Talks e a Market Analysis, concluiu que quatro em cada dez brasileiros se sentem solitários, especialmente mulheres, jovens e pessoas de baixa renda.
As duas pesquisas vão de encontro direto ao estereótipo de que a solidão era um problema mais comum, ou até exclusivo, de pessoas mais velhas. O fenômeno tem atingido pessoas cada vez mais jovens, e tem marcado presença como uma das grandes mudanças que a geração Z enfrenta na fase dos 20 anos. A pesquisa brasileira considera a crescente digitalização das relações humanas, intensificada pela pandemia de Covid-19, como uma das principais impulsionadoras da epidemia da solidão.
Por outro lado, o psicólogo e pesquisador Ian Ravih Rollemberg de Aragão, pontua que, apesar das transformações no que se entende por conexão e intimidade, e de como as relações ganharam uma nova dimensão ao entrar na atmosfera digital, isso não implica necessariamente em solidão. “Há pessoas que constroem comunidades online genuínas, com amizades virtuais que se transportam para a vida presencial”, afirma. O ponto chave, portanto, não é negar a existência dessas conexões virtuais genuínas apontadas por Ravih, mas, segundo ele, reconhecer que a dinâmica das grandes plataformas tem tornado o estabelecimento desses vínculos profundos progressivamente mais difícil.
Quando a distância aproxima

A mudança de rotina no início da vida adulta causa distanciamentos em amizades há várias gerações. “É um fenômeno antigo”, explica a psicóloga Maria Emília Pimentel. “O que parece diferente nessa geração é a intensidade e a velocidade como as coisas acontecem. E, talvez, ter consciência sobre tudo isso torne o processo mais doloroso”, continua Emília sobre a hiperconectividade inerente à geração Z.
Para Tainá Sousa, também estudante de Jornalismo da FACOM, o impacto das redes sociais nas suas relações é ambíguo, às vezes positivo e às vezes negativo. Tainá nasceu em Iraquara, na Chapada Diamantina, e se mudou sozinha para Salvador para fazer faculdade. A estudante acredita que consegue manter amizades da sua cidade natal exatamente por causa das redes sociais, mas que, geralmente, as conversas são mais superficiais. “Não costuma ser aquela conversa mais profunda, porque pra desabafar sobre alguma coisa que eu tô passando em Salvador, eu preciso explicar muito antes, dar contexto”, explica.

“Uma curtida no story, no máximo. De vez em quando. Aí eu lembro, ‘nossa, tal pessoa. Meu Deus , que saudade’. Era uma pessoa tão próxima, que eu via todo dia” relata Tainá sobre uma amizade da época do Ensino Médio. Esse sentimento não é uma questão individual, mas compartilhado por toda a geração atual de jovens.
De acordo com o psicólogo Ian Ravih, esse cenário de interações fragmentadas marca um contraste. Para ele, as redes sociais não são as vilãs que afastam os jovens adultos de seus amigos. O contato mediado pelas telas pode não ser o formato ideal, mas tem se tornado a alternativa viável e, muitas vezes, a única possível. “O encontro presencial está progressivamente mais custoso e as redes preenchem esse vácuo como podem”, pontua o profissional. Para jovens como Tainá, que deixaram suas cidades natais, o ambiente digital funciona mais como uma ponte de sobrevivência afetiva do que como uma barreira.
Por outro lado, como observa Maria Emília, o acesso contínuo à vida das pessoas próximas, pelas redes sociais, torna a percepção de afastamento mais intensa e visceral. Para ela, assim como percebido por Tainá Sousa, as redes podem tanto contribuir para o afastamento, quanto facilitar a manutenção dos vínculos. Pode existir uma ilusão de conectividade, com as pessoas confundindo a presença digital com conexões emocionais. “Curtir uma foto ou reagir a um story não alimenta um vínculo da mesma forma que uma conversa. O excesso de presença está longe de criar laços duradouros. Na verdade, tem promovido relações cada vez mais superficiais”, comenta a psicóloga.
Escolher ficar
Em uma newsletter publicada na sua conta pessoal do Substack, a estadunidense Quincy Whipple compartilhou sua própria experiência com os distanciamentos afetivos que, na verdade, acabam sendo a mesma vivência compartilhada por milhares de jovens. Com o título “Quando seus amigos não encaixam mais: crescendo e crescendo pra fora de amizades nos seus 20 anos”, o texto de Quincy pontua uma das questões mais importantes em todo esse fenômeno: a percepção de escolha.

“Fazer amigos não parecia algo que eu tinha que fazer na cidade em que eu cresci. Eram todas garotas que eu conheço desde quando nasci”, começa ela , que escreve ter aprendido, depois da faculdade, que a amizade se torna uma escolha. “Eu quero mandar mensagem para as meninas que não vejo desde o último verão? Eu desejo feliz aniversário pra aquela amiga? Apesar de parecer que toda a nossa troca de mensagens se resume a isso? Você agora pode decidir manter as relações que formou quando era mais nova. Se aquela amizade foi escolha sua ou não, não importa mais; cabe a você manter o vínculo”. Com essas palavras, Quincy provavelmente traduziu o que tantos jovens tentam entender em terapia.
A vida adulta chega com muitas demandas, rotina corrida, uma constante tentativa de se manter em dia com a saúde, a família, os relacionamentos, o trabalho e os estudos. Não é mais tão fácil manter vínculos como quando sua rotina era a mesma que a de todos os seus amigos. Agora, é preciso escolher, ativamente, marcar de sair com aquela amiga do ensino médio, mandar uma mensagem para o amigo de infância, estar presente para os amigos da faculdade. Gabriel Jones, compartilha essa percepção. “Acho que nunca tive amigos tão verdadeiros quanto agora. Diferente de colegas de escola ou vizinhos de quando era criança, hoje posso sair (da relação) quando bem quiser, mas escolho ficar. Eles também”, relata.
Exatamente por precisarem ser mantidas através de uma escolha, as amizades podem se tornar mais uma demanda no fim de uma lista infinita de demandas. É nesse cenário que surge o conceito, e a polêmica, da “amizade de baixa manutenção”. Motivo de brincadeiras online, o termo muitas vezes esconde um buraco mais embaixo, servindo como uma justificativa gourmetizada para a negligência afetiva.
O psicólogo Ian Ravih, no entanto, relativiza essa visão, apontando que as próprias formas de demonstrar afeto mudaram na era digital. Para ele, o problema está no modo como consumimos o tempo. “Os ambientes digitais, nesse contexto, passam a funcionar menos como espaço de conexão e mais como espaço de consumo: vídeos rápidos, compras impulsivas e estímulos que prometem prazer imediato, aliviando temporariamente um esvaziamento existencial. Paradoxalmente, isso pode tornar as amizades menos urgentes. Afinal, amizades demandam tempo, energia e disposição de doar-se ao outro. E a atenção, hoje, é um dos bens mais disputados”, analisa.
Sem tempo, sem conexões reais?
O jornalista Victor Hernandes defende que a essência do vínculo sobrevive ao ritmo caótico do cotidiano. “Quando temos um carinho especial por alguém, não tem distância e nem outro aspecto que atrapalhe. O gostar é muito maior do que o espaço físico”,diz . Para ele, manter o vínculo não exige presença ininterrupta. “Não precisa se falar sempre, mas pelo menos trocar uma ideia às vezes, mandar um meme, resenhar sobre algo. E, quando a pessoa estiver na mesma cidade, tentar marcar um encontro presencial”.
@bernardoalbz Amizade depois dos 25 vira questão de conciliação de agendas e a vida adulta vai ficando cada vez mais sozinha. #vida #amizade #emprego #psicologia #disciplina ♬ original sound – Bernardo Albernaz
A dinâmica mais espaçada, que para alguns parece insuficiente, é lida por Ravih sob uma perspectiva de respeito às individualidades. O psicólogo conclui que o ponto central está em entender que cada indivíduo possui critérios próprios para definir o que é uma presença relevante. Enquanto algumas pessoas necessitam de encontros físicos frequentes, outras funcionam perfeitamente bem em uma engrenagem esporádica. Em um mundo hiperconectado e cansado, o que deixa de ser produtivo é tentar aplicar uma régua única para medir as formas de se relacionar.
Amanda Menezes – Estudante de Jornalismo na FACOM | UFBA, é estagiária de assessoria de comunicação na Superintendência do Banco do Nordeste da Bahia. Em 2025, atuou como editora-chefe e repórter da 27ª edição da Revista Fraude, no Programa de Educação Tutorial em Comunicação da UFBA (PETCOM).
Anna Caroline Santiago – Estudante de Jornalismo na FACOM | UFBA, é repórter trainee na TV Aratu. Desde 2024, atua na emissora na produção de vídeos, textos e conteúdos para as redes sociais.
A motivação para produzir esta pauta surgiu da vivência das repórteres, junto à percepção de coletivização de um fenômeno que, antes, parecia ser uma questão individual. A reflexão sobre o próprio comportamento e contexto, aliada à atenção ao comportamento das pessoas ao redor e das histórias escondidas no dia a dia, motivou a investigação sobre a forma que a atual geração de jovens adultos lida com seus relacionamentos em uma era digital e hiperconectada.
