Entre vendedores, consumidores e comerciantes, a reportagem mostra como tradição e adaptação mantêm vivo um dos principais polos comerciais da capital baiana
Bianca Rosario (@b.i.a.bianca_) e Ronne Oliveira (@ronnoliveirajor)
Momentos registrados no Centro de Salvador | Fotos: Bianca Rosario / Impressão Digital
Os gritos se misturam ao fluxo constante de pessoas que circulam pelas avenidas Sete de Setembro, Joana Angélica e Carlos Gomes. Entre vitrines, ambulantes, panfletos e sacolas de compras, o Centro de Salvador mantém uma movimentação que desafia previsões sobre o enfraquecimento dos centros urbanos tradicionais.
“É Claro, Vivo, Tim, Oi””, grita um vendedor de chips de telefonia para os pedestres que atravessam a Avenida Sete. “É exame é?” perguntam outras pessoas, distribuindo panfletos de clínicas médicas e odontológicas. É comum ser abordado por vendedores e anunciantes, sejam de óticas, exames ou serviços.
Em uma cidade marcada pela expansão de shoppings da década de 1970 até os dias atuais, pelo crescimento de novos polos comerciais nos bairros e pelo avanço das compras online, a região continua sendo destino de milhares de consumidores diariamente. Nos becos, vielas e corredores comerciais, convivem lojas históricas, prestadores de serviço, vendedores ambulantes e consumidores de diferentes gerações.
Confira como é andar pelo local:
Quem vive essa realidade?
Entre os becos e vielas, na Rua da Forca, na Rua Maria da Paz e entre dezenas de barracas, se desenrola o cotidiano de quem trabalha, compra e circula pela região.
Explore o mapa da área que os repórteres circularam durante a produção da reportagem. A ferramenta reúne os principais pontos visitados, dicas de locais de compras, contatos de fontes entrevistadas e sugestões de rotas e atalhos para facilitar a circulação entre os locais da reportagem.
Confira no mapa abaixo:
A permanência desse movimento também é percebida por quem vive no comércio diariamente. Entre os estabelecimentos que ajudam a contar a história da região está o Armarinho Suzi, fundado em 1984. Localizada próxima à Rua da Forca, a loja chegou a ser atingida pelos impactos do incêndio que destruiu um casarão vizinho em 2017, mas permaneceu funcionando.
Foto: Camelódromos do Centro. Crédito: Bianca Rosario / Impressão Digital
Para Meury Coutinho, a concorrência com o comércio eletrônico não afastou a clientela construída ao longo dos anos. “Todo mundo vem aqui porque sai mais em conta. Vem gente de todo lugar. Em épocas como Carnaval e São João, chegam clientes até de outros estados. Mesmo com esse negócio da internet, continuo tendo uma clientela muito boa”, afirma.
Lojistas Jeimar e Bianca Ferreira contam suas rotinas | Foto: Crédito: Bianca Rosario / Impressão Digital
Essa percepção é compartilhada por Bianca Ferreira, uma jovem funcionária da loja Multimix. Para ela, a experiência presencial ainda representa uma vantagem importante em relação às compras online. “Acho que é melhor para observar as coisas, os produtos mesmo. Pessoalmente, eu consigo identificar melhor. Acho que o atendimento faz uma diferença muito grande”, afirma.
Com percepção semelhante, Jeimar Ferreira, funcionário há três anos da perfumaria O Perfumista do 2 de Julho, localizada na Avenida Carlos Gomes, explica que muitos ainda procuram coisas específicas em sua loja. Por trabalhar com perfumaria, ele explicou que os clientes preferem ir à loja para experimentar texturas e fragrâncias.
“Agora na Copa vai dar uma melhorada, mas geralmente junho e Dia dos Namorados são legais para nossa área. Natal e Dia das Mães são as melhores épocas. Algumas pessoas precisam, na nossa área de perfumaria, escolher e conhecer nosso trabalho”, explica.

Locais históricos no Centro da cidade | Foto: Crédito: Bianca Rosario / Impressão Digital
Apesar da forte presença do comércio, o Centro de Salvador não depende apenas das lojas para atrair pessoas. Prédios tradicionais, como o histórico Edifício Fundação Politécnica, reúnem clínicas médicas, escritórios de advocacia, farmácias e diversos prestadores de serviço.
Para Renato Ezequiel, presidente do Sindicato de Comerciários de Salvador, essa diversificação ajuda a explicar a permanência do fluxo de pessoas na região. “Hoje temos clínicas, escritórios de contabilidade, advocacia e diversos serviços. Esses locais atraem pessoas para o Centro e muitas delas acabam realizando compras também”, observa.
Atividade informal
As transformações do Centro de Salvador também podem ser percebidas nas formas de trabalho que passaram a ocupar a região. No Beco do Mucambinho, entre as avenidas Carlos Gomes e Sete de Setembro, a maquiadora e designer de sobrancelhas Mary Ferreira trabalha há oito anos, depois de perder o emprego formal.
“Fiquei desempregada e encontrei aqui uma forma de recomeçar. Sou mãe solteira e foi nesse espaço que consegui garantir o sustento da minha família. Ao mesmo tempo, vejo cada vez mais pessoas entrando nesse tipo de atividade porque não conseguem emprego formal”, relata.
Conheça o local:
Conhecido popularmente como “Beco da Beleza”, o local reúne diversos profissionais que oferecem serviços de maquiagem, manicure, sobrancelhas e estética. Segundo Mary, muitos deles trabalhavam anteriormente na Praça do Relógio de São Pedro, mas migraram para o beco ao longo dos anos. A presença de prestadores de serviços não se restringe ao local: pelo Centro também é possível encontrar sapateiros, relojoeiros e trabalhadores que oferecem serviços como aferição de pressão arterial e glicemia.
Essa diversidade de atividades acompanha um cenário em que a informalidade continua tendo peso na economia baiana. Embora a informalidade tenha apresentado redução nos últimos anos — passando de 53,7% em 2022 para 51,4% em 2024 —, o índice voltou a crescer em 2025, alcançando 52,8% dos trabalhadores ocupados, como apontam dados da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI) .
Essa oscilação evidencia que, mesmo com a queda do desemprego e o aumento da ocupação, a geração de postos de trabalho ainda ocorre, em grande medida, fora das relações formais de emprego.
Confira o gráfico:
As mudanças imparáveis
A diversidade de atividades encontrada hoje no Centro de Salvador é resultado de um processo de transformação que atravessa gerações. Segundo o historiador Mário Santos, professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), a mudança começou ainda na segunda metade do século XIX, quando áreas antes predominantemente residenciais passaram a ser ocupadas pelo comércio.
“Em certas áreas da cidade, deu-se uma expulsão contínua dos moradores em favor do comércio. Muitas unidades prediais deixaram de ser residências para se tornarem estabelecimentos de negócios”, explica o historiador em sua pesquisa.

Praça da Piedade vista de cima | Foto: Crédito: Revista Illustração Brasileira (N.2, ano XII), editora O Malho
Tal movimento contribuiu para o esvaziamento populacional de certas regiões e ajuda a explicar as tensões observadas atualmente entre a preservação da memória urbana e os sucessivos projetos de modernização da cidade. É o caso do bairro do Comércio, tema de uma reportagem publicada na primeira edição do Impressão Digital.
Em entrevista ao Impressão Digital, o economista e docente Carlos Drumond, que leciona no Departamento de Economia da UESC, caracteriza a dinâmica como parte do próprio ciclo de desenvolvimento das cidades. Ele compara os centros urbanos a uma fênix: podem perder força em determinado momento, mas renascem.
“Os centros urbanos mudam constantemente. Isso acontece em Salvador, São Paulo ou Rio de Janeiro. Os centros morrem, mas surgem em outros locais, seja pelo comércio eletrônico ou não. […] O comércio de rua? Esse se adapta, se move para outro local”, contextualiza.
As compras online e a taxa das blusinhas
Entre as transformações mais recentes enfrentadas pelo comércio tradicional está o avanço das plataformas de comércio eletrônico,que passaram a disputar consumidores que antes recorriam exclusivamente às lojas físicas para realizar suas compras.
Essa medida foi incluída na Lei nº 14.902, de 27 de junho de 2024, que alterou regras do regime simplificado de tributação para remessas internacionais. A legislação estabeleceu uma alíquota de 20% para compras de até US$ 50.
Em 2026, ano eleitoral, em meio ao desgaste enfrentado pelo governo federal e às críticas à tributação das compras internacionais, foi publicada a Medida Provisória nº 1.357, que autorizou a redução para zero da alíquota do Imposto de Importação incidente sobre remessas de até US$ 50, revogando, na prática, a cobrança federal criada em 2024.
Para o economista Carlos Drumond, porém, os impactos das plataformas digitais sobre o comércio vão além das mudanças tributárias.
“Afetou as pessoas, sem dúvida. Setores de varejo, como sapatos, vestuário e outros, foram diretamente afetados. Tem nuances porque esses empresários jogam um jogo diferente das grandes corporações. Agora, sejamos francos, existem setores que não são afetados, como o alimentício”, explica.
Apesar da concorrência das plataformas digitais, comerciantes afirmam que o atendimento presencial, a possibilidade de comparar produtos e a compra imediata continuam sendo diferenciais do comércio de rua. É o que defende o presidente do Sindicomércio, Renato Ezequiel. “Ainda há pessoas que preferem pegar os produtos, além da falta de habilidade de parte da população com as plataformas digitais”, afirma.
A percepção é compartilhada pelos consumidores. Recém-chegado à Avenida Sete, Rodrigo Santos buscava produtos para mobiliar a nova casa. “Aqui o preço é mais em conta. Tem de tudo para casa e eu super indicaria vir”, conta. Para outros frequentadores, o vínculo com o Centro vai além da economia. Moradora da região, Aurora Carvalho frequenta o comércio local há cerca de 40 anos.
“Toda vez que preciso de alguma coisa venho aqui. Compro pela internet também, mas aqui a gente vê a qualidade dos produtos. Mudou muito ao longo dos anos, mas continua tendo muitas lojas com pechinchas, do jeito que eu gosto”, relata.
Moradora Aurora conta seus motivos. Veja abaixo:
Carla Silva também mantém uma relação antiga com a região. “Eu venho desde criança com minha mãe. Hoje resolvo tudo por aqui: faço exames, vou à farmácia e faço compras. Compensa muito mais”, diz.
Embora o comércio eletrônico represente um desafio para parte dos lojistas, ele não é apontado como o principal obstáculo enfrentado pelo comércio popular. Para Renato Ezequiel, presidente do Sindicomércio, e Paulo Motta, presidente do Sindilojas, a concorrência com o comércio ambulante continua sendo uma das maiores preocupações do setor.
Segundo eles, a disputa entre o comércio formal e o informal ocorre em condições desiguais e se soma a outro problema recorrente: a segurança pública. Para Paulo Motta, a revitalização da região e o reforço do policiamento são medidas fundamentais para fortalecer o comércio local.
Renato Ezequiel destaca ainda um fator que ajuda a explicar a resistência do Centro de Salvador: a facilidade de acesso. Diferentemente de outras áreas tradicionais da cidade, como o Comércio, a Barroquinha e a Baixa dos Sapateiros, o Centro é atendido por diferentes modais de transporte, concentrados na Estação da Lapa, que integra metrô, BRT e linhas de ônibus urbanos. Essa estrutura, segundo ele, mantém o fluxo diário de consumidores e trabalhadores na região.
O que dizem as pessoas sobre as compras?
A reportagem realizou uma pesquisa para saber como as pessoas compram no Centro ou por que não compram. Foi elaborado um levantamento exploratório na plataforma Google Forms para mapear a forma de consumo das pessoas.
O formulário foi enviado para grupos de WhatsApp de estudantes da Universidade Federal da Bahia, além de grupos com pessoas do convívio dos repórteres. Ao todo, foram mais de 10 grupos, com mais de 100 pessoas cada.
Ao todo, 57 pessoas responderam à pesquisa. Destas, 63% disseram que fazem compras na Avenida Sete. Entre os principais motivos para não realizar compras no Centro estão a distância e a preferência por shoppings e plataformas digitais. Já entre os fatores que motivam as compras na região, o preço foi o mais citado.
Veja as preferências relatadas:
A equipe entrou em contato com a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) para solicitar dados sobre a quantidade de comerciantes e vendedores atuando na região. Até o fechamento desta reportagem, não houve retorno.
A reportagem também procurou a Secretaria Municipal de Mobilidade (Semob) para obter informações sobre o fluxo diário de pessoas e o número de linhas de transporte que atendem à região central. Em resposta por e-mail, o órgão confirmou o recebimento da solicitação, mas informou que não conseguiria fornecer os dados dentro do prazo de fechamento da matéria.
Bianca Rosario – Estudante de Jornalismo na FACOM | UFBA e estagiária na Rede Bahia, com atuação voltada para a Rádio Bahia FM.
Ronne Oliveira – Estudante de Jornalismo na FACOM | UFBA, repórter da equipe de política no site Bahia Notícias, com atuação voltada para a editoria de Homepage.
Motivação: A pauta surgiu do interesse dos repórteres em explorar, por meio da observação de campo, uma região presente em seu cotidiano. Frequentadores das avenidas Sete de Setembro, Joana Angélica e Carlos Gomes, ambos identificaram nesses espaços uma oportunidade de compreender como consumidores, comerciantes e trabalhadores vivenciam a dinâmica de um dos principais corredores comerciais de Salvador.
