O samba vive no Garcia

Em seu aniversário de 110 anos, o samba segue resistindo e existindo no bairro do Garcia

 

Kaiky Menezes (@kaiky_menezes) e Lucas Santos (@lucas.csantoss)

 

Quando perguntamos o que mais representa o Brasil, duas respostas costumam ser unânimes: o futebol e o samba. Mais do que símbolos nacionais, ambos carregam sentimentos, memórias e formas de viver que atravessam gerações. Nascido no Recôncavo Baiano, segundo a UNESCO, o samba completa 110 anos em 2026, marcados pela gravação de “Pelo Telefone”, registrada em 1916 por Donga e Mauro de Almeida e creditada como o marco inicial do samba. Atualmente, o gênero, que é patrimônio imaterial do país, segundo declaração da própria UNESCO, em 2005, representa cultura, povos, memória e pertencimento. 

 

Vivíssimo no coração do baiano, o samba segue muito presente em Salvador, principalmente no bairro do Garcia, onde segue movimentando multidões e corações, sendo parte fundamental da identidade do bairro. De Riachão à Mudança do Garcia, valorizar quem valoriza o samba na capital baiana se torna uma missão de cada soteropolitano, que tem a cultura como parte fundamental da sua história.  “O bairro do Garcia sempre foi um reduto do samba. Hoje, ainda é um local de grande movimentação de sambistas de variadas vertentes”, afirma o pesquisador Gustavo José Jaques de Melo, autor da dissertação de mestrado  “O samba duro: O Samba Junino e o São João de Salvador”, defendida em 2017, no Programa de Pós-Graduação em Música da Universidade Federal da Bahia. 

 

Pelo Telefone (1916)

Música “Pelo telefone”, composta por Donga e Mauro de Almeida

 

Um aspecto importante da relação entre o bairro e o samba aparece no samba junino, manifestação cultural bastante presente em Salvador e especialmente forte em bairros populares. O samba junino mistura elementos do samba duro, da percussão afro-baiana e das festas de rua realizadas durante o período junino. “O samba duro é uma variação de samba de roda. Nos bairros de população majoritariamente afrodescendente, a população que não viajava para o interior para fazer o São João organizava seus ensaios e arrastões animando as ruas de suas localidades. Esse samba utilizava instrumentos comuns da época como tamborim, pandeiro, marcação e o timbal. É um samba que segue desfilando como numa escola de samba, mas em ritmo frenético, num andamento acelerado”, comenta o professor Gustavo.

 

Mudança do Garcia

 

Nos dias atuais, a maior representação dessa identidade cultural é a Mudança do Garcia, considerada uma das manifestações carnavalescas mais tradicionais de Salvador. O desfile acontece tradicionalmente na segunda-feira de Carnaval e simboliza uma celebração alternativa, preservando o caráter espontâneo, comunitário e crítico, reunindo moradores, artistas e movimentos sociais em um cortejo marcado por fantasias improvisadas, sátiras políticas e música popular.

 

Mudança do Garcia – Crédito: Reprodução do Instagram (@bloquinhodasirenes)

 

“A mudança do Garcia é hoje uma resistência no que transformou-se o Carnaval de Salvador e sua mercantilização. Enquanto no Circuito Barra-Ondina nós temos os camarotes e os contratos milionários, a Mudança do Garcia tem um teor muito de protesto por parte dos foliões. Você verá diversos grupos protestando por seus direitos”, afirmou Ulysses Garibalde, 67, morador do Garcia. 

 

Percurso da Mudança do Garcia: Elaborado pelos autores

 

Como aproveitar o samba no García nos dias de hoje

 

Em um bairro que tem o samba nas suas raízes mais profundas, é impossível “deixar o samba morrer” no Garcia, mas isso não é por acaso, e sim por projetos que seguem movimentando a música e a cultura na região. Um dos exemplos mais recentes é o ‘As Irenes’, um bloquinho independente que movimenta a segunda-feira de Carnaval na Mudança do García, presente desde 2024, criado por Larissa Bonaventura, 35, e sua prima. Das três edições que já participaram da Mudança, as últimas duas contaram com bandas de samba, com o objetivo de fomentar o gênero em um local tão ligado ao movimento. “A ideia era potencializar o samba, que tem tanta ligação com o García. O samba sempre muda, tudo muda, o importante é acompanhar as alterações e deixar ele vivo. Fico feliz de ter fortalecido o samba, que é muito importante para a nossa história, principalmente do García”, destacou Bonaventura.

 

Bloquinho ‘As Irenes’ – Crédito: Larissa Bonaventura

 

Muito ligado ao bloquinho ‘As Irenes’, outro ponto de destaque do samba no García é fundamental na manutenção da identificação e presença cultural do gênero na região: o Aconchego da Zuzu. Aberto de terça-feira a domingo, na Rua Quintino Bocaiúva, n°18, o point é parada obrigatória para um admirador de samba, valorizando o aspecto de coletividade e da história. “O samba é casa, é abraço, é caminho”, diz o lema do Aconchego da Zuzu, que tem programação especial durante a Mudança do García, sendo o ponto de encontro de muitos bloquinhos, incluindo ‘As Irenes’.

 

Samba no Aconchego da Zuzu – Crédito: Instagram: @Aconchegozuzu

 

A história do Garcia com o samba

 

O bairro teve origem no final do século XVI, quando se constituiu a Fazenda Garcia D’Ávila, um dos maiores latifúndios do Brasil. De acordo com Nelson Cadena, autor do livro “História do Carnaval da Bahia – 130 Anos do Carnaval de Salvador”, publicado em 2014, os primeiros registros de grupos carnavalescos no bairro aparecem por volta de 1900, com o bloco “Papai Folia”, organizado por moradores da região da Curva Grande. Pouco depois, em 1902, nasceu o “Lembrança dos Africanos”, que tinha forte influência afro-baiana e simbolizava a presença negra no carnaval de Salvador. 

 

Nos anos 1950 e 1960, o samba do Garcia ganhou ainda mais força com o surgimento do cordão “Filhos do Garcia”, em 1956, que posteriormente daria origem à Escola de Samba Juventude do Garcia, fundada em 1965. Segundo Cadena, essa escola se tornou uma das mais importantes de Salvador, chegando a conquistar títulos do carnaval baiano, onde o samba aparecia não apenas como entretenimento, mas também como forma de organização social e pertencimento coletivo. 

 

Créditos: Acervo do site “Memória Sambas-enredo da Cidade da Bahia”

 

Riachão – “o bairro em pessoa”

 

A relação entre o Garcia e o samba não pode deixar de passar por Clementino Rodrigues, mais conhecido como Riachão (1921 – 2020), um dos maiores sambistas da Bahia e figura diretamente ligada ao bairro. Nascido e criado no Garcia, Riachão transformou experiências cotidianas da vida popular em composições que se tornaram referências da música brasileira, atingindo não só o bairro ou Salvador, mas todo o Brasil. Canções como “Cada Macaco no Seu Galho”  e “Vá morar com o diabo”, que foi regravada por Cássia Eller, em 2001, ajudaram a consolidar a imagem de Riachão como representante do samba baiano tradicional. 

 

Riachão – Cada macaco no seu galho

Música “Cada macaco no seu galho”, por Riachão

 

O circuito da Mudança do Garcia passou a homenageá-lo oficialmente entre 2014 e 2015, reforçando sua importância para a memória cultural do bairro. Desde a sua morte, em 2020, Riachão é constantemente homenageado durante o Carnaval no García, mantendo viva a sua memória e relevância cultural para o bairro e toda região. “Podemos contar a história de antes e após Riachão. Investigando a sua música, percebe-se a influência do samba de roda, as levadas parecidas com o samba carioca, letras que narram o cotidiano de seu povo, e tudo de uma forma muito inteligente e bem humorada. Ainda hoje, nós saímos cantando suas músicas nos arrastões, ele e vários outros nomes colocaram o samba, o eterno samba, o mais importante signo da nossa cultura, no mundo”, comentou Gustavo Melo.

 

A permanência da Mudança do Garcia, as homenagens constantes a Riachão e a manutenção de manifestações populares ligadas ao samba demonstram que o bairro segue desempenhando um papel importante na preservação do samba em Salvador, assim como preserva a própria identidade e origem do bairro na capital baiana.

 

Cássia Eller – Vá Morar Com o Diabo

Regravação de “ Vá morar com o diabo”, por Cássia Eller

 

Kaiky Menezes é estudante de Jornalismo na UFBA desde o semestre de 2023.2, mesmo período onde se tornou membro da Liga de Jornalismo Esportivo da UFBA (LJEU), que permaneceu até o início de 2026. Profissionalmente, desde fevereiro de 2025, Kaiky é estagiário do caderno de esportes do Jornal Massa!, além de administrar o perfil debateydebate nas redes sociais desde 2021 e ser um dos apresentadores do podcast esportivo Debate-se, produto da Rádio FACOM, desde 2024.

 

Lucas Santos é estudante de Jornalismo na UFBA desde o semestre 2023.2, onde se tornou membro da Liga de Jornalismo Esportivo da UFBA (LJEU), em que chegou a ocupar o cargo de diretor da área editorial em 2025 e a atuar como comentarista de jogos de futsal. No âmbito profissional, Lucas trabalhou no portal Varela Net em 2025 e, há pouco mais de 1 ano, atua no caderno de esportes do jornal impresso do Massa! Além do trabalho regular, Lucas é um dos apresentadores do podcast esportivo Debate-se, produto da Rádio FACOM, desde 2024.

 

Esta reportagem foi motivada pelo aniversário de 110 anos do samba, celebrado este ano e escolhido como tema do Carnaval de Salvador em 2026. Além do samba, a abordagem do ponto de vista do Garcia foi escolhido pela proximidade de Lucas Santos com o tema, já que ele mora no bairro há 12 anos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *