Balneabilidade, medida e divulgada pelo Inema, não reduz o lazer aquático da capital baiana.
Rodrigo Junior (@rodrigosfjunior) e Vitor Bahia (@ovitorbahia)
O banho de mar é uma das atividades mais tradicionais na rotina dos soteropolitanos, seja no Verão ou no Inverno, nos fins de semana e feriados. A reportagem analisou os nove primeiros boletins de balneabilidade válidos do ano, disponibilizados pelo Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema), da Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Sema), entre 27 de março e 22 de maio. Dos 38 pontos monitorados, variou de 12 a 25 os impróprios para banho. O que representa um percentual que varia de 32% à 66% dos pontos monitorados.
Entre os locais analisados na capital baiana, também estão inclusas as lagoas do Abaeté e de Pituaçu. O alerta, em teoria, deveria afastar a população das atividades de lazer e esportes aquáticos, devido ao risco de contaminação e infecções. No entanto, não é um impedimento para que as pessoas deixem de frequentar normalmente esses lugares.
De acordo com a especialista em Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Coordenação de Monitoramento de Recursos Ambientais e Hídricos do Inema, Cláudia do Espírito Santo, a balneabilidade é medida pelo nível de Escherichia coli, uma bactéria presente no intestino humano que é exposta ao meio ambiente através das fezes. Caso seja constatado 2000 unidades por amostra de 100 ml, a praia é considerada imprópria para banho pelo risco de contaminação direta, que ocorre com a ingestão da água não intencional durante o acesso ao mar. A praia também recebe esse status quando há risco à população com situações como lançamento de esgoto, presença de resíduos e floração de algas.
A classificação atende aos critérios estabelecidos pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), através da Resolução Conama n° 274/2000. “O trabalho desenvolvido consiste no monitoramento sistemático da qualidade das águas e na divulgação das condições das praias, com o objetivo de informar e alertar a população sobre os riscos associados ao uso recreativo dessas áreas”, explicou a profissional.
O infectologista do Hospital Português da Bahia, Anderson Vinicius Mota de Souza, afirmou que a Escherichia coli é uma bactéria que normalmente não causa doenças. Mas algumas variantes podem se tornar patogênicas e causar febre e gastroenterites bacterianas, que terão diarreias, náuseas e vômitos como consequências. O especialista chamou atenção para o risco que existe em banhos nas praias consideradas impróprias, pois além da exposição a essa bactéria, a presença de fezes humanas pode trazer vírus, protozoários e outras bactérias que causam infecções simples ou graves, em diversos lugares do corpo, como conjuntivites, doenças de pele e otites.
“A recomendação é não frequentar [praias impróprias], porque os índices já passaram do aceitável. Mas caso entre em contato, que seja pelo menor tempo possível. Que evite, a todo modo, a ingestão da água e o mergulho da cabeça para evitar otites e conjuntivites”, ressaltou.

O teste das amostras do Inema, divulgado semanalmente, é feito por uma empresa terceirizada e são emitidos quatro dias após a coleta ser realizada. O Inema não quis divulgar o nome da empresa, por uma questão contratual. No boletim publicado em 6 de fevereiro, todas as praias foram consideradas impróprias para banho, exceto a de Canta Galo, no bairro Calçada. Em nota, o Inema explicou que houve um erro na amostra e que a empresa que até então prestava serviço foi trocada, o que determinou que os boletins anteriores à 27 de fevereiro não fossem publicados. A partir desta data, os quatro boletins seguintes têm o status da praia “indisponível” porque, conforme a resolução, é necessário que a nova empresa teste por cinco semanas consecutivas para que o resultado seja confiável.
Em nove boletins consecutivos, o status das praias varia. Mas algumas, como São Tomé de Paripe, Tubarão, Periperi, Penha, Bogari e Pedra Furada, sempre recebem um boletim de balneabilidade negativo. Um vídeo que circulou nas redes sociais flagrou a liberação de uma quantidade considerável de esgoto na praia de Boa Viagem, também incluída no grupo de praias constantemente impróprias. A postagem foi feita pelo perfil do morador que filmou, em 24 de dezembro de 2025, mas repercutiu após veiculação do Bnews mais de duas semanas depois.
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Em nota enviada ao Impressão Digital, a Empresa Baiana de Águas e Saneamento (Embasa), explicou que o esgoto descartado na areia é do sistema de drenagem pluvial, que coleta água da chuva e é de responsabilidade da Prefeitura de Salvador. A organização é responsável pelo tratamento na rede de esgotamento, que é enviado para estações de condicionamento prévio, em Jaguaribe e no Rio Vermelho, onde passam por uma série de procedimentos antes de serem enviados para o oceano. Com funcionamento 24 horas, as estações são responsáveis pelo tratamento de 13 milhões de litros do esgoto descartado nos ralos, pias e vasos sanitários da capital baiana.
Ainda conforme a nota, o descarte é realizado a 2 quilômetros da costa e em mais de 27 metros de profundidade nos emissários submarinos, seguindo parâmetros estabelecidos nas normas ambientais e “não gera prejuízos ao meio ambiente”. De acordo com o doutor em Ecologia Marinha e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Francisco Barros, o problema pode variar também de acordo com as condições climáticas da região.
“Quando tem as chuvas, as comportas transbordam. Então, dos antigos rios das cidades, são todos canalizados e drenados para os nossos emissários submarinos. Quando chove, o fluxo é muito grande. Obviamente quando você olha aquela mancha marrom, é da água que escorreu superficialmente pela cidade e do transbordamento dessas comportas”, explicou.

A estudante Izabela Prazeres (21) disse nunca ter apresentado nenhum tipo de problema de saúde, mesmo sendo frequente nas praias do Bonfim e Boa Viagem, que foram classificadas como impróprias em quase todo período de registro em 2026. Ela relatou que já sentiu coceiras, mas foi tudo. Apesar de já possuir conhecimento sobre a contaminação das águas, isso não a impediu de frequentar essas praias.
Izabela apontou que a acessibilidade, proximidade e segurança são, para ela, fatores de escolha mais relevantes que a balneabilidade. “Não tem para onde fugir, você vai ter que encarar uma praia imprópria para banho, porque é difícil você ver as que não são. Eu não percebo nenhuma baixa no número de frequentadores. Isso não é algo que as pessoas levam em consideração na hora de ir para a praia. O que se leva em consideração é o acesso, o transporte, se é fácil de chegar e de sair, se é seguro de você estar no local. Se eu moro no Subúrbio, eu não vou sair de casa para ir numa praia na Barra”.

Moradora de Itapuã, a banhista Juliana Muniz Feitosa Lopez (22), compartilha as mesmas experiências de Izabela relacionadas à saúde, ao frequentar a praia local. “Eu vou na praia com a mesma frequência que eu iria se ela fosse própria ou imprópria, exceto pelos lugares em que há esgoto a céu aberto. Olhando para outras praias de Salvador, isso seria um diferencial para eu decidir, mas como eu já moro aqui e frequento, eu acabo ignorando isso. A praia daqui continua sendo bem frequentada”.
Apesar da contaminação, os riscos de saúde não são a maior preocupação dos moradores de Salvador quando decidem ir às praias. Segurança, criminalidade, acessibilidade, proximidade e conforto são os fatores mais levados em consideração na decisão. A população se manter indiferente, no que se refere à balneabilidade das praias, evidencia que outros problemas urbanos da gestão pública são mais urgentes que a qualidade das praias.
Rodrigo Junior é estudante de jornalismo da UFBA | FACOM e atualmente estagia no portal de notícias Destaque1, onde atua como repórter, apresentador e produtor do podcast Destaque da Política, filmaker e fotojornalista. Tem interesses em temas como política, meio ambiente, comportamento e cultura.
Vitor Bahia é estudante de jornalismo na UFBA | FACOM e é estagiário de jornalismo na Rádio Metropole, produtor do programa Metropole Saúde, colunista de esportes do Jornal da Metropole. Já atuou na produtora Macaco Gordo, do Grupo Metropole, além de ter sido produtor dos programas Metropole Mais e Bem na Hora. No portal de notícias Taktá No Ar, atuou como repórter.
A reportagem foi realizada com o intuito de evidenciar e aprofundar o problema da balneabilidade das praias de Salvador, com o histórico persistente de praias impróprias na capital baiana. Além disso, trazer uma abordagem com enfoque no quanto isso afeta a população soteropolitana no que se refere aos riscos à saúde e o impacto prático no lazer dessas pessoas nesses locais.
